Um papo que toda mulher que deu uma escorregada quer ter, mas fica sem saber a quem contar.

Vinte e três por cento das mulheres brasileiras casadas ou em união estável admitem, em pesquisa anônima, ter traído o parceiro em algum momento. Nas pesquisas com controle rigoroso de anonimato, esse número sobe para quase 30%.

Isso significa que quase uma em cada três mulheres na sua rede social imediata (amigas de escola, colegas de trabalho, primas, cunhadas) já traiu ou está traindo. Elas não contam. Nem umas para as outras. Nem, na maioria dos casos, para terapeuta.

Se você está lendo isso porque acabou de trair (a semana passada, o mês passado, um beijo há três meses, uma noite há um ano) e não sabe o que fazer com a informação, este texto é para você. Ele vai ser útil e vai ser honesto. Não vai te consolar dizendo que “foi só um erro” e não vai te condenar dizendo que “você tem que contar imediatamente.” Nenhum dos dois é verdade universal.


A primeira coisa que precisa ser dita é que a decisão de contar ou não contar não é uma questão de ética abstrata. É uma questão prática, e a resposta depende de várias variáveis específicas ao seu caso.

A Esther Perel, que provavelmente escutou mais mulheres que traíram do que qualquer outra pessoa viva (ela consulta casais e indivíduos em Nova York há trinta anos, com foco em infidelidade), tem uma frase útil sobre isso: “the question isn't whether to tell. The question is what serves the marriage and what serves the guilt.”

Traduzindo: a pergunta não é “contar ou não contar.” A pergunta é “o que serve o casamento e o que serve à minha culpa.”

Isso é útil porque diferencia dois motivos completamente distintos para querer contar.

Motivo um: você quer aliviar a sua culpa.

Este motivo é humano e compreensível. E é o pior motivo para contar.

Contar para aliviar sua culpa transfere o peso emocional do episódio para ele. Você fica melhor, ele fica pior, o casamento provavelmente termina, e você agora tem duas coisas na consciência: ter traído e ter destruído a vida dele com uma revelação que ele não solicitou para ouvir. A culpa não some. Só muda de endereço.

Terapia individual serve para isso. Confessar para a terapeuta, escrever num caderno, conversar com uma amiga muito específica e discreta, tudo isso resolve o problema da culpa sem envolver ele.

Motivo dois: você quer reconstruir a relação em cima de uma verdade compartilhada.

Este motivo é diferente. E só se aplica se o relacionamento tem base para sustentar a conversa.

Se você traiu uma vez, foi em resposta a um período específico da relação (uma crise, um vazio, uma exploração de algo faltando), e você quer utilizar esse episódio como catalisador para uma conversa profunda sobre o que estava errado antes, contar pode fazer sentido. Não como confissão. Como parte de uma reformulação maior do casamento.

Isso funciona em casais que já têm capacidade de conversa emocional real e que estão dispostos a fazer o trabalho difícil de reconstrução. Funciona em terapia de casal, com apoio profissional, em um período de meses.

Não funciona em casamentos onde a conversa emocional já está travada.


Contar por si só não resolve nada. O que resolve é o trabalho que vem depois de contar, ou o trabalho que vem depois de não contar.

A pesquisa de John Gottman, que acompanhou casais após traição por até dez anos, mostra três desfechos principais:

Casais que contaram, entraram em terapia de casal com foco na traição, fizeram o trabalho por 18–24 meses e reconstruíram uma relação diferente da anterior. Esses casais reportam, em pesquisa de longo prazo, satisfação com o casamento ao nível comparável ou às vezes superior ao de casais que nunca passaram por traição. Precondição: os dois queriam reconstruir de verdade e ambos fizeram terapia.

Casais que contaram sem esse trabalho estruturado. Divorciaram-se em média 14 meses depois da revelação. Os dois relatam que não conseguiram voltar. A traição virou o único assunto do casamento até o casamento terminar.

Casais que não contaram, e onde a mulher fez trabalho interno significativo (terapia individual, pausa da relação com o outro, retomada do investimento no casamento). Metade continua junto anos depois, com o marido nunca tendo sabido. A outra metade termina por outros motivos (nada relacionado à traição). Diferença central: se o marido descobre depois por outras vias, o divórcio é imediato e a mulher sofre o dobro (perde o casamento e perde a dignidade da revelação voluntária).

Ou seja: o pior cenário é não contar e depois ser descoberta. O melhor cenário depende de qual dos dois primeiros a sua relação suporta.


Existe uma segunda pergunta que cabe fazer antes de decidir contar ou não contar.

O outro ainda está no cenário?

Se você teve um caso de três meses com um cara e o caso terminou, você já saiu, ele saiu, ninguém tem contato, o episódio é uma coisa acabada, essa é uma configuração. Contar aqui é opção individual sobre o próprio processo interno.

Se o caso ainda continua, se você está mantendo contato, se a coisa ainda pode voltar, você não tem uma escolha verdadeira sobre contar ou não contar. Você tem uma escolha entre encerrar e continuar, não pode fazer terapia de casal com o marido enquanto ainda troca mensagens com o outro. O ambiente emocional não sustenta.

Terminar com o outro é pré-requisito para qualquer coisa outra. Não é negociável.


Ok, o que fazer na prática, então?

Primeiros trinta dias:

Encerra o contato com o outro. Bloqueia. Muda de comportamento (evita os lugares onde vocês se encontravam, deixa de estar em situações onde vocês podem ficar sozinhos). Isso é fisiológico: mantém contato, mantém dopamina, mantém a coisa viva. Corta, a coisa começa a esfriar.

Marca terapia individual, foda-se o custo. Escolha alguém especializado em casais (mesmo para terapia individual sobre casamento). Vai semanalmente por três meses, no mínimo.

Não conta para amigas em geral. Conte para uma amiga muito específica que sabe guardar informação e em quem você confia com tudo. Se não tem essa amiga, só a terapeuta.

Meses dois a quatro:

Trabalhe internamente. Por que aconteceu? O que estava faltando? Era sobre o outro ou sobre você? Era sobre o casamento ou sobre uma parte sua que precisava aparecer e utilizou o outro como janela?

Ao mesmo tempo, observe o casamento com nova. O que você quer daqui? Você quer continuar? Você quer sair? Você quer reformular?

Mês quatro em diante:

Aqui você tem clareza para decidir. E aí, escolha entre os três desfechos que o Gottman descreveu. Cada um tem custo. Nenhum é fácil. Todos são possíveis.

O que não é escolha é ficar no meio, ambivalente, considerando que “o tempo vai resolver.” O tempo não resolve. Ou você faz o trabalho de reconstruir, ou faz o trabalho de sair, ou faz o trabalho de continuar sem contar, sabendo que o custo interno é seu para carregar. Cada um é uma decisão adulta.


Uma coisa útil que a Perel diz sobre mulheres que traíram e continuaram no casamento sem contar: em 70% dos casos que ela acompanhou, o casamento melhorou nos anos seguintes. Não porque a traição foi “boa para a relação” (ela nunca é), mas porque a traição forçou a mulher a fazer um trabalho interno que ela não teria feito de outra forma. E esse trabalho interno mudou como ela era no casamento.

Isso não é justificativa para a traição. É uma observação técnica de que a dor produz movimento. Se você teve a dor, utilize-a.

Clarense

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