Uma pergunta que Simone de Beauvoir já se fazia em 1929. E que continua sem resposta simples.

Simone de Beauvoir escreveu no diário dela em 1929, aos 21 anos, uma frase que resume o problema desse texto: “Je ne sais pas si je dois lui montrer que je le veux, ou faire semblant que je ne le veux pas.” Traduzindo, eu não sei se devo mostrar para ele que quero, ou fingir que eu não quero.

Ela estava falando do Sartre. Nesse período específico dos anos 1929–1930, ela ainda estava descobrindo se Sartre queria construir alguma coisa com ela ou se ele estava só experimentando. Ela era brilhante, jovem, culta, acabei de passar no agrégation de filosofia como a mulher mais nova da história a fazer isso. E mesmo com todos esses ativos, ela ficava, no diário, se perguntando se devia mostrar que gostava ou fingir que não.

Cem anos depois, a pergunta é exatamente a mesma. Só que agora ela está sendo feita por milhões de mulheres num WhatsApp, num Instagram, num jantar terça de noite. E a resposta que a cultura popular oferece é mais ou menos essa: “seja você mesma” ou “não corra atrás.” As duas são conselhos muito ruins porque ignoram completamente o que a pergunta está solicitando.


Antes: a dinâmica funcionava por assimetria explícita.

Até os anos 1970 mais ou menos, o “dar mole ou ser difícil” era um problema resolvido por convenção social. Homens perseguiam, mulheres eram perseguidas. A mulher que dava mole demais perdia valor no mercado matrimonial (era vista como fácil, desesperada). A mulher que era difícil demais também perdia (era vista como fria, muito exigente). O espaço saudável era muito estreito: mostrar interesse suficiente para sinalizar disponibilidade sem parecer desesperada.

Isso era um espetáculo específico que gerações de mulheres foram treinadas a executar. Baseava-se num princípio antropológico real: em relações onde há escassez percebida, o membro escasso ganha valor. Se homens percebem que você é escassa (não está disponível para todos), o valor sobe.

A pesquisa moderna sobre atração (a Helen Fisher e outros) confirma que esse princípio biológico é verdadeiro. A dopamina do outro sobe quando ele percebe que você é desejável por várias pessoas e ainda assim disponível para ele. Isso não é jogo. É neurobiologia.

Hoje: a dinâmica ficou mais complexa porque a assimetria explícita quebrou.

Nos anos 90–2000, com a igualdade formal entre os sexos e a legitimação da mulher que persegue, o “ser difícil” ganhou uma camada nova. Se você é difícil demais, você parece incapaz de intimidade. Se você é solta demais, você parece performar liberdade sem conteúdo. E o pior: os dois sexos agora sabem que qualquer desempenho é um desempenho, dificultando a comunicação real.

Aparece uma terceira via, e ela é a que interessa.


O caminho não é entre dar mole ou ser difícil. É entre performar e ser genuína.

A pesquisa mais interessante sobre isso vem de uma antropóloga chamada Wednesday Martin, que estudou paquera moderna em várias culturas ocidentais, e cujo achado é: mulheres que se posicionam genuinamente (mostrando interesse quando sentem interesse, se afastando quando sentem que não é recíproco, dizendo o que pensam sem calcular a reação) têm 2,5x mais probabilidade de acabar em relacionamento sério com o objeto da paquera do que mulheres que performam interesse ou performam desinteresse.

Isso é surpreendente e não é. É porque o cérebro humano detecta atuação. A gente é muito, muito bom em detectar quando alguém está performando. Uma mulher que finge não estar interessada, mas está claramente calculando cada resposta, transmite um sinal misto que gera confusão no cara, que reage também com um sinal misto, e o processo inteiro estagna.

Uma mulher que fala “gostei desse jantar, quero fazer de novo” e sai depois para encontrar amigas, sem lançar iscas, sem controlar o timing da resposta, transmite dois sinais claros: interesse por ele + vida própria que não gira em torno dele. Isso é o combo mais atraente que existe na paquera moderna.

O detalhe importante: essa vida própria precisa existir de verdade. Se é espetáculo, ele percebe. Se existe (você de fato está indo encontrar amigas, você de fato tem projetos, você de fato tem outros planos), ele sente e responde diferente.


Aqui vale citar uma anedota da vida presencial. A Anna Wintour, editora da Vogue, contou numa entrevista em 2019 como conheceu o segundo marido dela, Shelby Bryan. Ela estava num jantar de trabalho em Nova York, ele estava em outra mesa. Um amigo em comum apresentou ambos num café depois. Ela contou que ele mandou mensagem propondo um jantar dois dias depois, respondeu estar com a semana ocupada, mas que na semana seguinte ficaria mais livre.

Não foi jogo. Ela estava mesmo com a semana ocupada, é Anna Wintour, ela sempre está com a semana ocupada. Mas ele leu essa resposta como sinal duplo: ela tinha uma vida cheia, e ainda assim topou marcar. Isso posicionou imediatamente como pessoa com centro de gravidade próprio, não como opção fácil.

Eles casaram três anos depois. Ainda estão casados.

O ponto não é “seja como Anna Wintour”. O ponto é: a coisa que funcionou não foi cálculo de “dar mole ou ser difícil”. Foi ter uma vida presencial que ela não modificou para ficar disponível.


Sobre a paquera moderna especificamente (aplicativos, DMs, redes sociais), tem uma coisa técnica que vale registrar. A latência de resposta ideal, em pesquisa de behavioral psychology, é responder com tempo próximo ao seu tempo natural. Se você normalmente responde mensagens em uma hora, responda em uma hora. Se você normalmente responde em quatro, responda em quatro.

Calcular latência artificialmente (esperar mais tempo para “não parecer desesperada”) funciona nos primeiros três dias e falha totalmente depois disso. O cara percebe. E percebe também que você percebeu que ele percebeu. Isso destrói a paquera.

O único ajuste válido é: se você tem tendência a responder muito rápido (em segundos), respire e volte para sua atividade antes de responder. Não por jogo. Por saúde emocional. Você não deve organizar seu dia em função do celular dele.


O que Simone de Beauvoir escreveu no diário depois, em 1930, quando ela e Sartre finalmente definiram a relação, é uma coisa curta e útil: “no fim, eu simplesmente falei o que sentia. E ele falou o que sentia. E nós ficamos claros. O tempo que a gente perdeu tentando adivinhar o que o outro pensava foi ridículo.”

O caminho não é dar mole nem ser difícil. É falar o que sente quando sente, e depois seguir com a vida enquanto ele decide o que sente.

Clarense

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