A magia de uma boa comunicação não verbal, combinada com a forma de se expressar e a escolha primorosa das palavras, resulta na sinfonia perfeita de uma conversa.
Christine Lagarde contou numa entrevista em 2015, quando ainda era diretora do FMI, uma coisa que aprendeu nos anos 90 na Baker McKenzie, quando era a única mulher em quase todas as reuniões executivas. Ela percebeu, após meses observando, que ganhava respeito em determinadas reuniões e perdia em outras, e não conseguia entender por quê, era a mesma pessoa. As reuniões eram parecidas.
Após muita observação, ela descobriu três diferenças específicas que separavam ambos os tipos de reunião. Não era sobre o conteúdo dela. Era sobre três decisões táticas que ela tomava (às vezes sem perceber) antes de abrir a boca, e que determinavam se ela ia ser levada a sério.
Ela brincou com esse esquema por três décadas. E ele dá certo. Vale a pena dar uma espiadinha.
Primeiro, o problema. Mulheres em reuniões dominadas por homens enfrentam um conjunto específico de dinâmicas que não são resolvidas com “mais competência.” A competência importa, obviamente. Mas uma mulher altamente competente ainda pode ser sistematicamente ignorada se não gerenciar três outras coisas.
A dinâmica um: interrupção. Pesquisa da George Washington University de 2014 mostrou que homens interrompem mulheres 33% mais do que interrompem outros homens. É que mulheres, quando interrompidas, retomam a fala 20% das vezes; homens retomam 65% das vezes.
A dinâmica dois: crédito por ideias. Pesquisa da Harvard Business Review de 2019: quando uma mulher propõe uma ideia numa reunião mista e a ideia não gera reação imediata, a mesma ideia proposta por um homem 5-15 minutos depois recebe atribuição de autoria a ele em 42% dos casos.
A dinâmica três: postura corporal. Pesquisa de Amy Cuddy em Harvard mostrou que a percepção de autoridade é definida em 55% pela linguagem corporal, 38% pelo tom de voz e apenas 7% pelo conteúdo do que é dito.
Isso significa que a mulher com ideia excelente, postura submissa e tom hesitante vai perder para homem com ideia média, postura confiante e tom firme, é injusto. E existe.
É bom apresentar três estratégias pontuais que se concentram nas três interações.
Tática um: chegar cedo e ocupar espaço.
Isso parece uma bobagem. De jeito nenhum.
Christine Lagarde chegava sempre 5-7 minutos antes de qualquer reunião importante. Escolhia um lugar central na mesa (não no canto). Colocava caderno, caneta e água na frente dela. Sentava antes de ser convidada a sentar. Estabelecia uma postura ereta antes de as outras pessoas chegarem.
Isso comunica ao inconsciente das pessoas que entram depois, que ela já estava ali, que ela é parte estabelecida da mesa, que ela ocupa território. É uma sinalização pré-verbal de autoridade.
Sheryl Sandberg, no Google e depois no Facebook, faz o mesmo. Ela conta em Lean In que aprendeu isso observando as poucas mulheres sêniores no Silicon Valley nos anos 2000.
Se você chega em cima da hora, se senta em qualquer lugar, se afasta da mesa (sofá ao fundo, cadeira encostada), você está sinalizando desde antes de falar que é figura periférica.
Regra: chegue cedo, sente-se no centro, ocupe espaço com objetos, mantenha postura ereta.
Tática dois: falar cedo na reunião.
A pesquisa da Amy Cuddy mostra uma coisa surpreendente: quem fala nos primeiros 15% de uma reunião é percebido como mais autoritário durante o resto dela, independentemente da qualidade das intervenções posteriores.
Isso significa que, se você entra numa reunião de uma hora e só fala aos 40 minutos, você já perdeu grande parte da percepção de autoridade. Mesmo que sua contribuição seja a melhor da mesa, ela vai ser lida como “opinião de espectador que estava observando.”
Estratégia: nos primeiros 10–15 minutos, faça uma contribuição. Não precisa ser uma ideia grande. Pode ser uma pergunta clarificadora, um comentário sobre o contexto, uma referência a dados relevantes. Só precisa ser sua voz sendo introduzida na conversa cedo.
Se você tem tendência a esperar “ter certeza” antes de falar, isso vai contra você. Ajuste esse padrão.
Tática três: nomear roubo de crédito na hora.
Esta é a mais sutil. É a que mais brilha no pódio.
Quando você propõe uma ideia e a ideia é ignorada, e cinco minutos depois um colega homem propõe a mesma ideia como se fosse dele (fenômeno que Kim Scott chama de “hepeating”), você tem três segundos para reagir. Passou disso, virou dele.
A resposta técnica: “Que bom que você reforçou a ideia, João. Como eu disse há cinco minutos, [reafirma a ideia sua com nova frase]. Entendo que a gente pode desenvolver assim: [proposta específica].”
Isso não é agressivo. É factual. Você está apenas reintroduzindo a autoria e adicionando desenvolvimento. Ninguém pode reclamar tecnicamente. Todo mundo na mesa percebe que a ideia era sua. E João nunca mais vai fazer isso com você.
Se você não reagir, isso vai acontecer indefinidamente. Cada vez que acontece e você não reage, você está treinando as pessoas em volta a fazer de novo.
Ser respeitada em reuniões dominadas por homens não é sobre falar mais alto. É sobre três decisões táticas que criam autoridade antes do conteúdo aparecer.
Além das três táticas, vale trazer a técnica que a Amy Cuddy chama de “power posing” e que a Christine Lagarde e a Sandberg utilizam antes de reuniões importantes.
Dois minutos de postura de poder, no banheiro, antes da reunião.
Pé afastado. Mãos na cintura. Ombros para trás. Queixo levemente para cima. Respiração calma. Você fica assim por dois minutos.
Isso soa ridículo. E é comprovado por medição fisiológica: dois minutos nessa postura aumentam a testosterona em 20% e reduzem o cortisol em 25%. O resultado prático é que você entra na reunião com mais confiança física real, não performática.
Cuddy conta em Presence que testou isso com centenas de executivas antes de recomendar. Todas relataram sensação de autoridade aumentada em reuniões seguintes. Nem todas mantiveram o hábito. As que mantiveram sistematicamente reportaram progressão de carreira significativamente mais rápida.
É de graça, sem nenhum centavo. Demora apenas um par de minutinhos. Claro! Por favor, forneça o texto que você gostaria que eu parafraseasse.
É válido mencionar mais dois aspectos que costumam surgir com frequência e que merecem uma boa lapidada.
Palavras de diminuição.
“Talvez seja bobagem, mas…” “Não tenho certeza, mas…” “Pode ser que eu esteja errada, mas…” “Só queria comentar que…” “Desculpa interromper, mas…”
Essas são frases que mulheres utilizam antes de falar coisas frequentemente importantes. Cada uma delas reduz a percepção de autoridade da contribuição que vem depois em 30–40%.
Corte todas. Fale direto ao ponto. Se você tem uma ideia, diga que proponho que a gente considere X. Não “Talvez seja bobagem, mas talvez a gente pense em X.”
Volume da voz.
Voz alta demais é agressão. Voz baixa demais é submissão. O ideal é o que Sheryl Sandberg chama de “voz de sala” — o volume necessário para ser ouvida claramente pela pessoa mais distante da mesa, sem gritar.
Se você tem tendência a falar baixo demais, treine em casa. Grave você mesma. Ajusta.
Volume baixo é uma das razões mais frequentes de uma mulher ser interrompida ou ignorada em reunião.
Uma coisa importante que a Kim Scott escreve em Radical Candor e que vale registrar: nada disso é sobre “agir como homem” ou “performar masculinidade”. É sobre gerenciar dinâmicas de reunião que existem e que penalizam mulheres se elas não forem gerenciadas.
Você não precisa mudar sua personalidade. Precisa aprender três táticas: chegar cedo e ocupar espaço, falar cedo, nomear roubo de crédito na hora. Mais dois minutos de postura antes de reunião importante. Mais eliminação de palavras de diminuição.
Ao se adentrarem nesse aprendizado, as mulheres notam uma reviravolta em como recebem o tratamento dos outros em um intervalo de 6 a 12 semanas. Não passa despercebido. É como uma estrela brilhante no céu, fácil de notar.
Christine Lagarde assumiu o leme do FMI. Posteriormente, líder da instituição financeira do velho continente. Ela não virou um sujeito do sexo masculino na empreitada. Só conseguiu dominar o controle do ambiente.
Clarense