A carta de Colette endereçada à nora em 1938 trata das três situações especiais que transformam o vínculo entre sogra e nora em uma verdadeira amizade.

Colette escreveu em 1938 uma carta para a jovem esposa do filho, que só foi publicada nos arquivos completos da correspondência dela nos anos 1990, e a carta descreve com precisão rara um momento específico da relação entre sogra e nora que a literatura aborda raramente com honestidade. Colette escreveu, aos 65 anos, dez anos depois do casamento do filho, que ela havia finalmente começado a sentir pela nora uma coisa que ela chamou de “affection sans obligation,” ou seja, afeição sem obrigação. E ela explicou para a nora, com humor seco característico, que essa transformação não havia acontecido nos primeiros seis anos, apesar dos esforços conscientes das duas, e havia acontecido no sétimo ano quase por acaso, no verão em Saint-Tropez, quando ambas se encontraram por três semanas sem o filho presente por razões logísticas, e descobriram gostarem da companhia uma da outra em modo diferente do modo forçado familiar.

A carta é interessante porque ela reconhece uma coisa que a cultura contemporânea brasileira reconhece raramente com clareza. A amizade verdadeira entre sogra e nora não é o resultado esperado do casamento. Ela é um resultado raro, produto de condições específicas que não estão presentes automaticamente. E tentar forçá-la antes das condições aparecerem produz o oposto do desejado: relação tensa que finge intimidade sem tê-la.


Contraste histórico, porque ele mostra que a expectativa contemporânea é anômala.

Nas gerações anteriores, especialmente antes dos anos 1960, a relação entre sogra e nora era estruturada por regras explícitas e assumidas, e ninguém esperava que ela virasse amizade. Ela era uma relação de cordialidade familiar formal. A sogra tinha função específica (transmitir conhecimento doméstico, receber a nova família em festas, exercer autoridade sobre a estrutura estendida), e a nora tinha função específica (respeito, presença em eventos, transmissão dessa autoridade para a próxima geração). As duas se encontravam com frequência regulada, cumpriam funções e não esperavam intimidade.

A partir dos anos 1970, com a dissolução parcial das estruturas familiares formais, a expectativa mudou. Mulheres passaram a esperar que a sogra virasse “quase mãe” ou “amiga íntima”, e essa expectativa entrou em manuais de casamento popular. O problema é que a expectativa não vem acompanhada de estrutura que a sustente. As duas mulheres não têm base compartilhada, história compartilhada ou vulnerabilidade compartilhada. Elas têm o filho/marido em comum, e a partir daí precisam construir tudo do zero.

Construção do zero em contexto de expectativa alta produz frustração inevitável nos primeiros anos. E a frustração leva ao padrão típico da relação sogra e nora contemporânea: cordialidade tensa, com esforço visível, com decepção mútua pela ausência da amizade prometida que ninguém entregou.


Uma investigação extensiva sobre laços familiares, realizada pela pesquisadora Deborah Merrill na Universidade de Clark durante as décadas de 1990 e 2000, revelou que apenas 32% das interações entre sogras e noras que persistiram por mais de uma década se transformaram no que as estudiosas chamaram de “amizade sincera”. Durante os primeiros cinco anos, a taxa estava na casa dos 12%. Durante os dois primeiros anos, a taxa foi de 4%.

Ou seja, mesmo em relações que eventualmente ficam boas, os primeiros anos são caracterizados por tensão, ajuste e distância cordial. Apenas após tempo prolongado, com condições específicas que se acumulam, a amizade verdadeira emerge.

A boa notícia é que, aos dez anos, quase um terço das relações evolui para amizade verdadeira. A menos boa notícia é que dois terços não evoluem e permanecem em cordialidade familiar até o fim.

O que separa ambos os grupos, segundo a pesquisa, é a presença ou ausência de três condições específicas.


Contato individual regular fora do contexto do filho.

Sogras e noras que viraram amigas de verdade tinham, em algum ponto dos primeiros dez anos, começado a se ver ou conversar por telefone sem que o filho/marido estivesse presente ou fosse tópico central. Café da manhã ocasional, telefonema semanal, ida ao teatro em duas, viagem de fim de semana curta.

Essa condição é fundamental porque intimidade adulta requer conversa em modo direto, não em modo triangulado por terceiro. Enquanto o filho/marido é o tema central ou o mediador da relação, a sogra e a nora nunca chegam ao vínculo próprio. Só quando começam a conversar sobre elas mesmas, sobre carreira, sobre memória, sobre projeto, sobre opinião, sem passar pelo filho, é que a amizade pode começar.

Essa situação frequentemente gera oposição inicial em ambas as partes. A sogra pode considerar inusitado contatar a nora sem uma razão vinculada à família. A nora poderá considerar embaraçoso sugerir a oferta de café na ausência do esposo. É pertinente ultrapassar essa resistência por meio de um esforço intencional e observar os resultados nas primeiras cinco ou seis experiências.

Descoberta de interesse comum não relacionado à família.

Sogras e noras que viraram amigas descobriram, em algum ponto, algum interesse específico compartilhado que não tinha nada a ver com o filho/marido. Livro que ambas gostam, jardinagem, cinema europeu antigo, culinária de um país específico, aula de história da arte, viagem para um lugar que ambas queriam.

Esse interesse comum é o combustível da conversa individual. Sem ele, as conversas individuais sem o filho ficam repetitivas rapidamente. Com ele, elas ganham profundidade, e a intimidade se constrói sobre substância partilhada.

Interesse comum não requer que ambas amem exatamente a mesma coisa. Requer interseção. A nora pode gostar mais de cinema europeu recente, a sogra de cinema europeu clássico, mas a interseção é conversa sobre cinema europeu, e isso basta.

Vulnerabilidade adulta compartilhada em algum momento.

Sogras e noras que viraram amigas passaram, em algum ponto dos primeiros dez anos, por um episódio em que uma das duas revelou vulnerabilidade real para a outra: crise profissional, problema de saúde, dúvida existencial, luto por alguém próximo. E a outra respondeu com presença de verdade, não com apresentação social.

Esse episódio é frequentemente o momento de virada. Antes dele, a relação é cordial, mas superficial. Depois dele, ela ganha densidade. Vulnerabilidade compartilhada e recebida com respeito constrói vínculo que cordialidade sem vulnerabilidade não constrói em década nenhuma.

Essa condição não pode ser forçada. Você não pode planejar ter crise para criar oportunidade de intimidade. Mas quando a crise acontece, e ela vai acontecer, vale considerar dividir com a sogra em algum grau. E quando é ela que tem crise, vale estar presente com atenção real.


Amizade verdadeira entre sogra e nora requer três condições que levam entre cinco e dez anos pra aparecer. Forçar antes disso produz o oposto do desejado.

Nora que tenta virar “melhor amiga” da sogra nos primeiros dois anos, com esforço visível, produz três efeitos ruins. Primeiro, a sogra percebe o esforço e interpreta como sinal de que a nora quer alguma coisa, ativando desconfiança em vez de aproximação. Segundo, o marido percebe o esforço e frequentemente se sente instrumentalizado, tipo “está utilizando minha mãe para ganhar posição na família.” Terceiro, a nora se cansa do desempenho, e o cansaço eventualmente vira ressentimento quando o esforço não é recompensado com a amizade prometida.

O padrão certo é o oposto: cordialidade adulta sem esforço excessivo, presença respeitosa em eventos familiares, gestos pequenos consistentes ao longo dos anos, sem esperar retorno emocional imediato. E paciência.

Nora, que consegue segurar essa cordialidade paciente por cinco anos, frequentemente descobre, entre o sexto e o oitavo ano, que a sogra começou a procurá-la por conta própria, começou a valorizar a presença dela, começou a compartilhar mais. E aí sim, a amizade começa a se formar, sem que ninguém tenha forçado.


Como praticar cordialidade paciente sem virar distante, na prática.

Não se trata de fazer de conta que somos próximos. É como erguer um alicerce, onde a magia da intimidade pode florescer, desde que o clima ajude.

Presença respeitosa em eventos importantes.

Aniversário da sogra, feriado familiar, celebração de conquista. Vale estar presente com atenção real, sem esforço visível, sem espetáculo de deferência. Presença simples e consistente ao longo dos anos vale muito.

Comunicação regular, mas leve.

Uma mensagem por mês desejando algo, um telefonema ocasional, um cartão em aniversário. Sem excesso, sem drama. Manutenção mínima de canal de comunicação, sem exigência de intensidade.

Perguntar sobre coisas específicas dela.

Se você sabe que ela ama certo tipo de música, pergunte ocasionalmente sobre o novo disco. Se você sabe que ela viaja muito, pergunte sobre a próxima. Viagem. Interesse específico sinaliza atenção real, e ela começa a te ver como pessoa curiosa em vez de nora obrigatória.

Aceitar convites individuais quando aparecerem.

Se em algum ponto ela te convidar para café das duas, ou para ver exposição juntas, ou para viajar por uma tarde, aceita sem hesitação, mesmo se você tiver programa. Esses primeiros convites individuais são raros e importantes. Cada aceitação abre porta para o próximo convite.

Ser paciente com os primeiros cinco anos.

Se aos cinco anos a relação ainda for cordial, mas não íntima, isso é normal. Isso não significa que ela nunca vai virar amizade. Frequentemente, vira aos sete, aos oito, aos dez anos, quando as condições finalmente se acumulam. Paciência é a virtude central desta relação específica.


É importante destacar que nem toda conexão entre sogra e nora precisa se transformar em uma amizade intensa para ser considerada saudável. Uma boa dose de educação entre adultos, sem que haja uma amizade de alma, é algo que está nos conformes. Não se trata de um erro, mas de uma dentre as opções existentes. Duas mulheres podem cultivar um laço de consideração e amizade que perdura por longos anos, mesmo sem chegar ao nível de proximidade que costumam ter as melhores amigas. E isso, de forma alguma, diminui a riqueza dessa conexão.

O erro é confundir cordialidade adulta funcional com fracasso relacional. Cordialidade adulta é conquista, não subproduto. Muitas relações de sogra e nora que ficam em cordialidade dão às duas mulheres a paz de família estendida sem drama, o que já é bastante valioso.


Voltando à Colette do início do texto. A relação dela com a nora eventualmente virou uma das amizades mais próximas da vida dela, documentada em correspondência de mais de vinte anos. Elas viajaram juntas, publicaram um livro conjunto e sustentaram a relação até a morte de Colette em 1954. Mas a intimidade real levou sete anos para aparecer e não pôde ser forçada antes disso.

Se você é nora recente, ou nora há alguns anos ainda sem intimidade com a sogra, ou sogra recente sem intimidade com a nora, saiba que o cronograma padrão é longo. E que o trabalho de manter a cordialidade adulta paciente é a intervenção que produz o melhor resultado ao longo dos dez anos. Não a intervenção heroica de tentar virar amiga em seis meses, que produz cansaço e ressentimento.

É vital não perder a hora e seguir o ritmo do nosso baile! É bom ter em mente que, se uma amizade sincera brotar, ela surgirá no momento certo, quando tudo estiver em harmonia, e não um segundo antes.

Clarense


Referências: Colette (correspondência publicada em 1998), Deborah Merrill (Mothers-in-Law and Daughters-in-Law: Understanding the Relationship), Judy Ford (Every Daughter-in-Law Deserves a Good Mother-in-Law), Deborah Tannen (You're Wearing That?), Terri Apter (What Do You Want from Me? Learning to Get Along with In-Laws, Susan Abel Lieberman (The Real Thirteenth Step, sobre relações familiares extensas).

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