O guia para reatar romances que assegura transformar sua mente em um mês. Este é o compasso verdadeiro.

Uma amiga minha terminou um relacionamento de sete anos há dois anos e meio. Casamento no papel, casa comprada juntos, planos de filho começando a aparecer nas conversas. Não foi traição. Não foi briga acumulada. Foi uma daquelas dissoluções que acontecem quando duas pessoas boas percebem, ao mesmo tempo, que a coisa não vai funcionar pela vida toda.

Ela veio me contar isso num café numa terça-feira à tarde. Trouxe um livro que uma amiga dera, com título tipo “Como superar seu ex em 30 dias, um método passo a passo para retomar sua vida.” Ela me perguntou, meio rindo, se eu considerava que aquilo funcionava.

Eu disse achar que aquele livro tinha sido escrito para outro tipo de dor. E que a dor específica dela ia demorar mais que trinta dias, e que era importante ela saber disso para não achar que estava fazendo alguma coisa errada quando o mês passasse e ela ainda estivesse chorando.


Em primeiro lugar, é bom abrir os olhos para o fato de que há diversas maneiras de dar um ponto final em algo. Cada um solicita uma receita diferente de misturas.

Término de relacionamento curto ou médio (menos de dois anos) sem grande vínculo emocional. Esse é o tipo para o qual os livros de trinta dias funcionam. Você chorava, você se recupera, você segue.

Término de relacionamento longo com pessoa boa, sem drama, mas com dor concreta de perda de vida imaginada junta. Esse é o caso da minha amiga. E é o caso da maior parte das mulheres entre 32 e 45 anos que terminam relações sérias hoje. Não tem manual popular para esse. E ele demora entre 12 e 24 meses para ser processado por inteiro.

Término de relacionamento longo com traição, abuso ou grande ferida. Esse tem outra estrutura, com camada de trauma que precisa de terapia específica. Não é o assunto deste texto.

O texto de hoje é sobre o tipo dois. O tipo que ninguém escreve manual porque não vende curso rápido.


O cronograma real do luto amoroso de relacionamento longo, com pessoa boa, sem drama, tem três fases principais. E ele leva de doze a vinte e quatro meses.

Fase um: mês zero. A abstinência neurológica.

Os primeiros trinta a quarenta e cinco dias. O corpo está em déficit de ocitocina, dopamina e serotonina, que era sustentado pela presença regular do parceiro. Os sintomas são físicos e reais: perda de apetite ou fome descontrolada, sono ruim, náusea, dor no peito de origem física, choro em ondas de duas ou três horas, sensação de vazio que aparece sem aviso.

Esta fase é a que os livros de trinta dias descrevem. E é a única que passa em trinta dias.

Nesta fase, a coisa mais importante é a sobrevivência. Não decisões grandes. Não relacionamentos novos. Não venda móveis. Não corte de cabelo drástico. Só sobreviver.

Fase dois: meses dois a oito. A reorganização de identidade.

Aqui é onde a maioria das mulheres se perde, porque nem os livros nem as amigas descrevem essa fase direito.

O que acontece: os sintomas físicos passaram. Você está dormindo bem. Comendo bem. Trabalhando bem. Você parece “recuperada” para quem olha de fora. Mas, por dentro, uma coisa está acontecendo, é diferente e menos aguda: você está descobrindo quem você é sem ele.

Isso soa poético e é técnico. Ao longo de sete anos de relacionamento (ou dez, ou doze), sua identidade se moldou em relação à identidade dele. Você desenvolveu preferências, opiniões, jeitos de estar no mundo que vieram parcialmente da convivência. Quando o parceiro sai, uma parte de você que existia em relação a ele perde referência.

Essas semanas e meses são gastos reconstruindo uma identidade mais autoral. O que você gosta de comer no jantar quando não tem que combinar com ninguém? Que música você põe para tocar em casa? De que jeito você organiza o final de semana? Você redescobre coisas que esquecera e descobre coisas novas.

A dor específica dessa fase não é aguda. É uma solidão pequena, contínua, de longa duração. Você chora menos, mas o vazio dura mais.

Fase três: meses nove a dezoito. A integração.

Aqui você começa a olhar para o relacionamento passado com distância. Não com dor aguda. Não com raiva. Com uma espécie de aceitação daquilo como capítulo real da vida.

Você consegue lembrar dele com carinho e com clareza dos erros dele, consegue admitir suas próprias contribuições para o que não funcionou, começa a extrair aprendizados que valem para a próxima relação.

Nesta fase, você pode começar a namorar de novo com a cabeça razoavelmente limpa. Não antes.


O mês zero passa em trinta dias. O luto inteiro leva doze a vinte e quatro meses. Aceitar isso é o que diferencia recuperação real de performance.

Existe um erro comum em cada uma das três fases, e vale nomear cada um.

Procurar substituição imediata.

O impulso natural é ir para os aplicativos, sair com alguém rápido, “provar” que você superou. Isso funciona por três dias e depois piora tudo. Cada candidato novo é comparado com a linha de base do ex-parceiro, e nenhum ganha. Você acaba mais deprimida achando que “os homens estão piores.” Estão do mesmo tamanho de sempre. Você é quem ainda está em abstinência.

Realizar recuperação nas redes sociais.

Posts de viagem, corrida, brunch, “sou feliz sozinha” começam a aparecer entre os meses três e seis. Isso é desempenho defensivo. Você está construindo uma versão editada de “estou bem” para sinalizar (para ele, para as amigas, para si mesma) que passou. Mas esse desempenho consome energia emocional que devia estar sendo utilizada para o trabalho de verdade da fase dois: reconstrução de identidade autoral.

Regra: menos Instagram, mais journal, mais terapia, mais tempo sozinha em casa, mais leitura, mais projeto pessoal.

Precipitar o próximo relacionamento sério.

No mês nove ou dez, você começa a se sentir bem de verdade. Aí aparece um cara interessante. Você tem a sensação de que “agora sim, dessa vez vai dar certo.” Duas semanas após começar a sair com ele, você está pensando em morar junto.

Isso é o que a Sue Johnson chama de “rebound bonding”, vínculo de compensação. É o cérebro tentando substituir a estrutura perdida por outra estrutura, rapidamente. Casamentos formados no mês de dezembro de um término longo têm taxa de dissolução mais alta que qualquer outro tipo.

Namore no mês de dez., se quiser. Não mora junto. Não fale de casamento. Não introduza para a família. Deixe passar mais seis meses antes de qualquer decisão grande.


Uma outra coisa que a minha amiga descobriu, e que vale dizer, é que a dor não some por completo depois dos dezoito meses. Ela muda de intensidade.

Dois anos e meio depois do término, ela ainda tem dias em que pensa nele. Dias em que sente uma pontada quando vê uma foto antiga. Dias em que se pergunta como seria a vida dela hoje se eles tivessem continuado.

Mas essa pontada difere da dor do mês zero. É reconhecimento de que aquilo foi importante e continua sendo importante como memória, sem ser problema atual. Ela tem hoje um namorado novo, é feliz. E o ex ocupa um lugar específico na história dela, não como fantasma, como capítulo fechado.

Isso é integração. E é a coisa que o luto amoroso está tentando construir todo esse tempo.


Superar o homem que você amou de verdade não é maratona de trinta dias. É a construção lenta de uma versão sua que existe fora daquele relacionamento. Isso leva o tempo que leva.

Aceitar o cronograma, em vez de tentar acelerá-lo, é o que separa a mulher que sai da relação melhor da que sai da relação pior.

A minha amiga, aos vinte e cinco meses depois do término, disse uma coisa útil no café: “Eu não teria acreditado, no primeiro mês, que dois anos depois eu ainda ia estar processando isso. E também não teria acreditado que ia ficar tão bem quando processasse.”

O luto amoroso não é um obstáculo a superar. É trabalho a fazer.

Clarense

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