Boa parte das mulheres perde mais da metade do círculo social após um término significativo. Como lidar com essa mudança?

Dados de pesquisa em transições relacionais adultas, conduzida por David Sbarra na Universidade do Arizona ao longo dos anos 201, cruzados com levantamento brasileiro sobre redes sociais femininas em contexto pós-divórcio conduzido pela USP entre 2019 e 2023, mostram que 43% das mulheres brasileiras que passam por término significativo de relacionamento entre 3 e 15 anos de duração relatam perda de mais da metade da rede social ativa nos 24 meses seguintes ao término. Dentro desse grupo de 43%, a característica compartilhada mais consistente não é personalidade da mulher, não é contexto socioeconômico, não é idade cronológica. É uma variável específica que os pesquisadores nomearam como “relational absorption pattern”, ou padrão de absorção relacional, e ela descreve o processo pelo qual a rede social de um casal se organiza progressivamente em torno de um dos dois cônjuges, tipicamente o que tinha rede prévia mais robusta no momento do início do relacionamento.

O padrão opera assim. No início do relacionamento, cada parceiro traz rede social própria. Nos primeiros dois anos, as duas redes se misturam parcialmente, com amigos de cada lado sendo apresentados ao outro. A partir do terceiro ano, uma das duas redes começa a dominar, geralmente aquela que tinha mais coesão prévia ou frequência de contato maior. Nos anos seguintes, o casal investe cada vez mais na rede dominante e cada vez menos na outra. Aos oito ou dez anos de relacionamento, a rede “não dominante” praticamente desapareceu, e o casal tem uma vida social quase inteiramente na rede dominante, que originalmente era a rede de um dos dois.

Quando esse relacionamento termina, o parceiro que era dono da rede dominante mantém-na; o parceiro que ficou absorvido perde-a quase inteiramente. E essa perda é frequentemente subestimada até o momento em que ela acontece, produzindo uma solidão específica que difere da solidão amorosa do término em si.


Absorção relacional não é resultado de intenção ativa por parte de nenhum dos dois cônjuges. É consequência estrutural da economia de tempo social em casais que trabalham, moram com rotina exigente. Cada casal tem tempo social finito, e esse tempo tende a ser alocado onde produz menor esforço logístico. Se a rede de um dos dois cônjuges está fisicamente mais próxima, se ela é geograficamente concentrada, se ela tem eventos regulares, se ela oferece contexto de grupo em vez de contatos individuais dispersos, ela tende a ganhar preferência de alocação.

Ao longo dos anos, essa preferência de alocação vira absorção. O outro cônjuge, cuja rede era originalmente geograficamente dispersa ou logisticamente menos conveniente, deixa de investir nela, e ela se atrofia.

Isso não é escolha consciente. É resultado emergente da otimização logística. E ele opera abaixo do nível da consciência dos dois cônjuges, que percebem apenas que “a nossa vida social é cheia”, sem perceber que ela é cheia da rede de um dos dois especificamente.

O momento em que a absorção fica visível é o término. Naquele momento, o cônjuge absorvido descobre que a estrutura social que sustentava a vida dele nos últimos dez anos não é dele, é do parceiro. E ela vai embora com o parceiro.


O levantamento da USP entre 2019 e 2023 detalhou a natureza da perda. Nos primeiros seis meses após o término, mulheres cujo círculo social era predominantemente do ex-parceiro relatam uma frequência de encontros sociais que cai, em média, 68%. Aos 12 meses, o número cai para 52%. Aos 18 meses, sem intervenção estruturada, o número ainda está em 38%. Ou seja, sem esforço deliberado, a mulher em situação de absorção relacional passa 18 meses ou mais em vida social significativamente empobrecida em relação ao padrão pré-término.

E não é apenas quantidade. A qualidade também. A mulher em absorção não tem grupo próprio que ela pode acessar. Possuem contatos individuais dispersos, muitos deles não vistos há anos. Reconstruir a partir disso é trabalho consciente que requer tempo e energia significativa.

Isso é dado, não drama.

Reconhecê-lo antes que o término aconteça é vantajoso. Reconhecê-lo imediatamente depois do término, com plano de reconstrução, é a segunda melhor opção. Reconhecê-lo aos 18 meses depois do término, olhando para trás e vendo a solidão acumulada, é a terceira melhor opção, mas ainda é opção, e ainda produz melhora significativa.


A dor romântica do término é intensa nos primeiros três a seis meses, e ela decai gradualmente ao longo de 12 a 18 meses. Aos 24 meses, na maioria dos casos, ela está no nível baixo suportável.

A solidão social por perda de rede tem trajetória diferente. Nos primeiros três meses, ela é frequentemente mascarada pela dor romântica dominante. Aos seis meses, quando a dor romântica começa a decair, a solidão social se torna mais visível. Aos doze meses, ela pode ser a fonte principal de desconforto, mesmo quando a mulher já superou emocionalmente o ex-parceiro. Aos dezoito meses, sem intervenção estruturada, ela pode ainda estar no nível alto.

Ou seja, a solidão social frequentemente sobrevive à dor romântica, e ela é justamente a parte do término que produz sensação persistente de “algo está faltando” mesmo após a pessoa ter “superado” o ex.

Isso explica por que muitas mulheres, aos 18 meses do término, relatam que “estão bem em relação ao ex”, mas “sozinhas, de um jeito diferente”. A diferença é entre superação romântica e vazio social. Superação romântica se resolve com tempo. Vazio social se resolve apenas com reconstrução ativa.


Solidão social por absorção relacional frequentemente sobrevive à dor romântica do término, e requer intervenção estruturada específica de reconstrução de rede, não apenas passagem do tempo.

É bem-vindo apresentar um plano organizado de restauro em um ano e meio, pois ele é viável, lucrativo e sólido.

Inventário e reativação, meses um a seis.

Nessa fase, você faz inventário completo da rede social prévia ao relacionamento absorvido e da rede pequena que sobreviveu ao longo dele. Você identifica todas as amizades e contatos que já existiram, mesmo aqueles não vistos em anos.

Depois do inventário, você começa a reativação seletiva. Não todos ao mesmo tempo. Cinco ou seis contatos por mês, com mensagem simples e honesta. “Sabe que a gente não se vê há tempo demais? Queria retomar. Marcamos um café?”

Nem todas as reativações vão dar em algo. Algumas amizades pereceram genuinamente na absorção. Mas uma fração significativa vai responder, e cada uma que responde é uma linha reconstruída para a rede nova.

Meta para a fase um: cinco a dez amizades reativadas em modo café ocasional ou telefone regular.

Expansão em contextos novos, meses sete a doze.

Nessa fase, você começa a colocar em contextos novos onde amizades novas podem se formar. Isso não acontece por acaso; requer estruturação.

Contextos que funcionam bem: aula regular de algo (cerâmica, língua, filosofia, ioga avançada, história da arte), clube de leitura, grupo de corrida ou trilha, aula de dança social, curso de vinho, curso de culinária, voluntariado numa causa específica. O critério é: contexto com regularidade semanal ou quinzenal, com grupo relativamente estável, com atividade compartilhada que produz conversa natural.

A regularidade é fundamental. Encontros pontuais raramente produzem amizade. Encontros semanais por seis meses produzem, quase sempre, pelo menos uma ou duas amizades verdadeiras.

Meta para a fase dois: entrar em dois contextos novos e manter presença regular por pelo menos seis meses em cada.

Consolidação e aprofundamento, meses treze a dezoito.

Nessa fase, você começa a investir mais deliberadamente nas amizades que emergiram como mais promissoras nos meses anteriores. Convida para jantar em casa. Convida para a viagem curta. Compartilha mais da vida cotidiana. Aprofunda.

Nem todas as amizades; as fases um e dois vão aprofundar. Algumas vão ficar ao nível de conhecimento social cordial. Duas ou três, com sorte, vão virar amizades verdadeiras que sustentam vida social nova.

Meta para a fase três: ter duas ou três amizades sólidas novas, cinco a oito contatos regulares e sensação de vida social ativa e satisfatória.


Anotar também os obstáculos que atrapalham a caminhada pode ajudar, pois é justamente nesse trecho que muitas mulheres tropeçam.

Esperar sentir vontade antes de começar.

Você não vai sentir vontade nos primeiros meses depois do término, vai sentir cansaço e retraimento. Se você espera sentir vontade de começar a reativação e expansão, você vai passar dois anos esperando.

A resposta técnica é começar sem vontade, em modo funcional. Ligar para amigas mesmo cansada. Ir para a aula mesmo sem energia. Aceitar convite mesmo com preguiça. A vontade vem depois, quando os primeiros resultados aparecem.

Julgar as amizades novas contra as amizades antigas.

Comparar a amiga nova de seis meses com a amiga do ex de dez anos é uma comparação injusta. Amiga nova não pode ter dez anos de história ainda. Vale tratar amizades novas com base no que elas nos oferecem agora, não com base no que elas ainda não oferecem.

Desistir após um contexto em que não deu certo.

Primeira aula ou grupo que não produziu amizade é comum. Isso não significa que a estratégia é errada. Significa que aquele contexto específico não era adequado. Vale trocar de contexto e continuar. A média é que dois ou três contextos precisam ser testados antes que um produza amizade verdadeira.

Focar excessivamente em encontrar um novo parceiro em vez de rede.

Mulher em rebound tende a priorizar aplicativos de dating em vez de reconstrução de rede social. Isso é um erro estratégico. Rede social boa sustenta bem-estar independente de parceiro. Parceiro sem rede é sustentação frágil. Priorizar a rede primeiro, a partir da qual o próximo parceiro pode ser escolhido com discernimento.


Vale registrar, por último, uma coisa importante. Reconstrução de rede aos 30, 40, 50 anos leva mais tempo do que fazer amizades aos 20 anos. Isso é biologia social. Mas ela ainda é totalmente possível, e mulheres que delineiam o processo estruturado reportam consistentemente que as amizades formadas nessa fase da vida são frequentemente mais profundas e mais satisfatórias que as amizades formadas na juventude, porque são construídas por adultos que sabem o que querem em amizade.

Rede reconstruída após absorção relacional frequentemente é uma rede melhor que a rede absorvida original. Isso é bônus, mas é bônus real.


Se você está em término recente, ou aos seis meses ou aos doze meses de término, e sente que a solidão social está pesando mais que a dor romântica, saiba que o padrão de absorção relacional é comum, que ele afeta 43% das mulheres em situação equivalente, e que o processo de reconstrução em 18 meses é feitível.

É hora de dar o pontapé inicial. É digno de nota que essa reforma, elaborada com planejamento, cria uma teia que é exclusivamente sua, que não pode ser transferida para um futuro consorte, e que alimenta a convivência social por várias décadas adiante, sem se importar com as marés do coração.

Clarense


Referências: David Sbarra (University of Arizona, estudos longitudinais sobre divórcio e redes sociais), USP levantamento sobre redes sociais femininas pós-divórcio 2019–2023, Rebecca Adams (Adult Friendship), Marisa Franco (Platonic), Robin Dunbar (Friends: Understanding the Power of Our Most Important Relationships), Kayleen Schaefer (Text Me When You Get Home).

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