Uma pergunta que quase toda mulher em situationship sabe responder, mas não quer.

Você sabe exatamente o dia em que virou situationship. Só que não quis nomear.

Foi provavelmente o oitavo mês. Ele te fez um comentário sobre não querer nomear a coisa ainda. Você aceitou porque naquele momento parecia razoável. Ele não estava pronto ainda para falar de rótulos, essas coisas. Vocês estavam bem. Saía duas ou três vezes por semana. Você conhecia os amigos dele; ele conhecia dois dos seus. Faltava só a formalização. O aviso para a família. A foto no Instagram. A palavra namorado.

Aquele mês passou sem a sua presença. Desapareceu no mês que se seguiu. Nos deixaram na espera por onze longos meses. Você está agora navegando nas águas do décimo nono mês dessa trama. Ainda não estamos nesse barco do amor. Ainda não chegou ao fim. Ainda existe aquele amor que faz o coração dançar. As aventuras de final de semana ainda estão na agenda. “Às vezes me pego pensando: será que estou preparado para embarcar nesse barco? Mas, ah, como você me encanta!”

E aqui a gente precisa parar e fazer a pergunta que a mulher em situationship raramente faz porque a resposta é constrangedora: você aceita esse arranjo porque genuinamente também não quer nomear? Ou por que tem receio de terminar e ficar solteira?

Se a resposta honesta é a segunda, este texto é para você. E vai ser desagradável.


Situationship é um termo que apareceu nos anos 2010 num artigo da Cosmopolitan americana e virou vocabulário universal em cinco anos. A definição prática: relação com intimidade emocional e sexual sustentada, mas em que pelo menos um dos dois se recusa a formalizar em rótulo (namoro, união, algo assim).

Do ponto de vista biológico e emocional, situationship funciona como namoro. Você se apega. Organiza sua semana em função da pessoa. Mede quantas mensagens dela chegam por dia. Sente ciúmes quando ela viaja e não te leva. Imagine o futuro. Ou seja: você paga o custo emocional de um namoro sem receber o compromisso de um namoro.

O que muda é o teto. Namoro tem trajetória previsível (estabilização, mudança de casa juntos, casamento se der, filho se decidir). Situationship é uma zona indeterminada onde ambas as pessoas dizem que estão “vendo no que dá”, mas na prática já viram, só não querem admitir que já viram.

A pesquisa sobre isso vem de dois lugares. O Amir Levine, que escreveu Attached, mostrou em 2010 que 40% das pessoas em relações “sem rótulo” durando mais de 12 meses sofrem sintomas fisiológicos de ansiedade compatíveis com attachment inseguro. A Esther Perel, na consultoria dela, observa que quase toda situationship duradoura tem um dos dois no papel de “protetor” (quem se recusa a nomear) e o outro no papel de “esperando decisão” (quem gostaria de nomear, mas aceita não nomear para não perder).

Se você está lendo isso, muito provavelmente é a segunda.


Situationship de 19 meses não é 'ainda descobrindo'. É uma decisão tomada por um dos dois que o outro escolheu não confrontar.

A decisão foi tomada. Foi tomada há muito tempo. Ele não vai formalizar. Se ele quisesse, já teria feito. Homens de 32–45 anos não deixam de propor namoro após 19 meses de intimidade real porque “não estão prontos ainda.” Estão prontos. Não querem com você.

Essa frase pode, mas ela é o começo do texto ficar útil.

Existem homens que genuinamente não querem se comprometer com ninguém. Esses raramente sustentam 19 meses de intimidade com uma mulher específica, porque a intimidade cria expectativa e eles fogem antes.

Existem homens que querem se comprometer e que sustentam uma intimidade longa porque estão explorando a pessoa. Após 3 a 6 meses, esses formalizam ou saem.

Homem que sustenta situationship de 19 meses é uma terceira categoria: ele quer você por perto, aceita a intimidade, aceita o sexo, aceita a companhia e não vai casar com você. Ele sabe que, se disser isso claramente, você vai embora, então mantém a ambiguidade. E a ambiguidade custa muito pouco para ele. Custa muito, muito, muito caro para você.

Não é personalidade. É contabilidade emocional.

Agora vem a parte confortante: isso não é sobre você não ser suficiente. Não é. Aquele cara não vai casar com nenhuma que ele conhecer nessa fase da vida dele, porra. Você é o objeto disponível do momento. A próxima vai ser outra mulher que ele conhece e sustenta em situationship por 12, 18, 24 meses até ela também sair.

Então, qual é a indagação que fica batucando na cabeça: por que você ainda se permite isso?


Existem três respostas honestas que você pode ter e uma quarta que é fantasia.

Resposta 1: “Porque eu ainda espero que ele mude.” Ele não vai mudar. Já disse. Já mostrou. Se ele vai mudar em algum momento, vai ser depois que você sair, não com você dentro.

Resposta 2: “Porque eu tenho receio de ficar solteira.” A mais comum é a mais dolorosa de admitir. A mulher fica em situationship porque situationship é melhor que solidão. E aqui vale um dado de uma pesquisa da Universidade de Chicago de 2019: mulheres que saem de situationships longas encontram parceiros sérios em média em 9 meses. Mulheres que ficam em situationships longas continuam nelas por média de mais 14 meses. Ou seja, a saída te leva para o próximo cara mais rápido que ficar.

Resposta 3: por o sexo ser muito bom.” Legítima, mas geralmente não sustenta 19 meses sozinha. Se essa é a única resposta, você já saiu emocionalmente. Só precisa parar.

Resposta 4 (fantasia): “Se realmente não tivesse vontade de dar nomes, você não estaria marcando no calendário essa espera.” Não estaria colocando os olhos nessa leitura. Não seria de se esperar que eu ficasse bisbilhotando o aplicativo dele na rotina diária. Um “relacionamento em espera” que ambos almejam de verdade é como um barco à vela em mar sereno, sem agitações. Se você chegou até aqui, é porque busca algo a mais e ele não vai oferecer isso.


O que a mulher em situationship precisa fazer é ter uma conversa direta. Não sobre “definir o que a gente é.” Sobre a expectativa dela.

A frase que funciona: “Quero um relacionamento sério. Se isso aqui não vai virar isso, não me serve mais. Você tem duas semanas para pensar, e depois preciso da resposta para decidir minha vida.”

Isso não é um ultimato. É informação básica. Você está avisando que a sua vida tem um prazo, e você não pode continuar organizando-a em função de alguém que não vai formalizar.

Na grande maioria das vezes, o sujeito vai falar que precisa de um tempinho a mais para desenrolar as coisas. Aqui vai a resposta.

Um em cada dez, o cara vai formalizar. Nesse caso, deu certo. Mas prepare-se: se ele formaliza após 19 meses de recusa, é bem provável que formalize por medo de perder você, não por vontade sincera de compromisso. Esse casamento tem taxa de dissolução alta nos primeiros três anos.

De qualquer forma, você vai saber. E vai poder sair sabendo, em vez de sair adivinhando.


A pergunta que fica no fim é outra: se você sair dessa situationship hoje e ficar solteira nos próximos 8-9 meses, o que você faria com esses meses?

Se a resposta é “chorar e me sentir mal”, você ainda não está pronta para sair. Mas está pronta para começar a construir uma rede social e pessoal que sustente você fora dele. Sem a rede, sair é solidão de fato.

Se a resposta é “reencontrar amigas, começar aquele curso, viajar para o Uruguai sozinha, escrever aquele projeto que ficou parado”, você já sabe. E ele sabe também.

Situationship só sustenta enquanto a mulher tem menos coisa para fazer do que ficar esperando ele.

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