O processo de encontrar desejo depois dos filhos nem sempre é simples, vamos bater um papo sobre.

Esther Perel escreveu numa palestra em Boston, em 2019, uma frase que ficou circulando em círculos de psicoterapia sexual há alguns anos e que descreve o problema com precisão anatômica. Ela disse assim, olhando para a plateia de terapeutas: “O corpo da mulher depois do primeiro filho é um corpo que precisa ser reintroduzido a si mesmo como sujeito de desejo, e não como instrumento de cuidado, e essa reintrodução é um processo psíquico, não um evento hormonal.” A frase é elegante, mas o que ela descreve é uma coisa concretíssima que a maioria das mulheres brasileiras que teve filho pequeno reconhece imediatamente, e que quase ninguém nomeia em conversa social direta.

O fenômeno é o seguinte. A mulher tem o primeiro filho, ou o segundo, ou o terceiro. O corpo dela, nos meses pós-parto, é ocupado por uma função específica que é a de cuidar de outra vida. Isso envolve amamentação, colo, banho, noite mal dormida e uma atenção corporal contínua dirigida para fora. Nesse período, que dura entre seis meses e três anos, dependendo do caso, o desejo sexual da mulher raramente se manifesta em intensidade próxima do que ela conhecia antes. E isso não é sobre falta de amor, não é sobre problema com o parceiro, não é sobre engordar, não é sobre cansaço meramente. É sobre uma reorganização psíquica do corpo em modo cuidado, e o modo cuidado é neurologicamente incompatível com o modo desejante.


O estudo mais sólido que atravessou as décadas sobre a sexualidade após o parto, liderado por Rosemary Basson em Vancouver nos anos 2000 e amplificado por Alexandra Katehakis em Los Angeles na década seguinte, traçou um interessante desenho entre mulheres que já são mamães de pelo menos uma criaturinha.

Aos seis meses após o parto: 68% das mulheres relatam desejo espontâneo bem abaixo do baseline pré-gravidez.

Aos 12 meses: 54% ainda relatam desejo abaixo do baseline.

Aos 18 meses: 41% ainda relatam desejo abaixo.

Aos 24 meses: 32% ainda relatam desejo abaixo.

Aos 36 meses: 22% ainda relatam desejo abaixo.

Ou seja, a maioria das mulheres retorna a um padrão próximo do baseline entre 18 e 30 meses após o parto, mas o tempo específico varia enormemente por caso, e frequentemente essa variação não é reconhecida como normal, e ela é interpretada, seja pela mulher seja pelo parceiro, como sinal de problema individual, quando na verdade é dado epidemiológico.

Se você teve filho há 14 meses e ainda não sente desejo espontâneo próximo do que sentia antes, você está no padrão majoritário. Não é sinal de disfunção, não é sinal de que o casamento acabou, não é sinal de que você virou outra pessoa. É sinal de que o corpo ainda está em processo.


O sistema nervoso que atua por trás desse fenômeno é fascinante e merece ser explorado a fundo.

Durante os meses pós-parto, o cérebro feminino redistribui recursos cognitivos e afetivos em direção a uma função específica chamada de “matrescence,” termo cunhado pela antropóloga Dana Raphael nos anos 1970 e recentemente ampliado por Alexandra Sacks em Nova York. A matrescence é a transformação identitária que acontece ao virar mãe, e ela é comparável em escala psíquica à adolescência, mas comprimida em meses em vez de anos.

Durante a matrescence, três coisas acontecem no cérebro. Primeiro, o sistema de reconhecimento facial e de estímulo emocional infantil fica hipersensível, servindo para proteger o bebê. Segundo, o sistema de resposta à ameaça fica hiperativo, servindo para a vigilância. Terceiro, o sistema de recompensa erótica fica temporariamente rebaixado, porque o corpo tem recurso finito e prioriza cuidado.

Esse rebaixamento erótico é neurologicamente adaptativo, e ele foi selecionado evolutivamente porque bebês humanos precisam de cuidado intenso e ininterrupto para sobreviver. Mas ele é temporário, e a reversão dele depende de um processo específico que a pesquisa mapeou.


A reversão do rebaixamento erótico pós-parto requer que a mulher recupere acesso a uma coisa que Rosemary Basson chamou de “erotic subjectivity”, ou seja, a capacidade de se experimentar como sujeito de desejo, e não apenas como objeto de cuidado. Isso não acontece automaticamente. Ele acontece quando a mulher tem experiências repetidas em que ela é olhada, tocada ou percebida em modo desejante, e não em modo cuidado.

O problema é que a estrutura da vida pós-parto brasileira típica, especialmente nos primeiros dezoito meses, oferece pouquíssimas oportunidades dessa natureza. A mulher é reconhecida como mãe pelo parceiro, pela família, pelas amigas, por profissionais de saúde. Ela é raramente reconhecida como mulher desejante, mesmo pelo parceiro que ainda a desejaria caso acessasse o modo apropriado.

E o parceiro, para ser justo, também está lidando com a transformação própria e frequentemente hesita em iniciar contato erótico com a mãe do próprio filho, ou porque teme ser insensível, ou porque ele próprio está processando o corpo dela como corpo materno, e essa hesitação, por mais cuidadosa que seja, atrasa a reversão em vez de acelerar.

O resultado é um ciclo em que ambos esperam que o desejo volte espontaneamente, e ele demora mais do que precisaria demorar, porque a intervenção específica que aceleraria a volta é justamente a que ambos estão evitando.


A reversão do rebaixamento erótico pós-parto não acontece por espera passiva. Ela acontece por experiências deliberadas em que a mulher é reconhecida como sujeito de desejo.

A intervenção que a pesquisa identifica como a mais eficaz, e que reduz a janela usual de 18–30 meses para 8-14 meses, é técnica e vale ser nomeada.

Ela consiste em introduzir, ao longo dos primeiros dezoito meses pós-parto, encontros deliberados fora do contexto doméstico e infantil, entre a mulher e o parceiro, com o único propósito de reintroduzir a mulher a si mesma como sujeito.

O formato específico importa, e vale detalhar. Não é sobre jantar formal com babá em casa, ou é sobre viagem de fim de semana longe do bebê, que muitas vezes é impraticável ou culpada. É sobre encontros pequenos, entre uma e três horas, em lugar bonito, no qual a conversa entre os dois exclui deliberadamente o tópico de bebê, e em que o parceiro se comporta com a mulher da mesma forma que ele se comportaria numa primeira ou segunda saída, ou seja, com atenção erótica na presença dela, sem foco no filho.

Isso soa artificial. É deliberadamente artificial. E é justamente por ser artificial que funciona. Porque a estrutura doméstica cotidiana não vai produzir naturalmente esse encontro. Ele precisa ser fabricado, protegido e mantido semanal ou quinzenalmente, ao longo de alguns meses, até que o corpo dela reconheça que existe um modo de estar com o parceiro que não é o modo de gestão familiar.


Três coisas que podem atrapalhar o processo.

Pressão temporal do parceiro.

Se o parceiro pergunta “quando vai voltar?”, ou insinua que a demora é longa demais, o corpo dela entra em modo defensivo, e o processo de reversão desacelera. A pressão temporal ativa cortisol, e cortisol suprime resposta erótica. Parceiro precisa entender que espera ativa é melhor que pressão.

Comparação com o corpo anterior.

Se a mulher fica obcecada em recuperar o corpo pré-gravidez antes de reencontrar o desejo, ela adia indefinidamente o processo, porque desejo não requer corpo idêntico ao anterior, requer corpo habitado. Corpo habitado difere de corpo modelado.

Eliminação total de tempo para si.

Mulheres que se dedicam 100% ao filho nos primeiros 12 meses sem nenhum espaço próprio, mesmo pequeno, retardam a reversão significativamente. Trinta minutos por dia de tempo próprio, mesmo no início da maternidade, são neurologicamente protetores da capacidade de manter a identidade de sujeito. Trinta minutos de banho tranquilo, café sozinho, leitura, exercício, o que for.


O sexo depois dos filhos não é sobre voltar a ser quem você era antes. É sobre chegar a uma versão diferente do próprio desejo, que integra a experiência da maternidade em vez de apagá-la.

Mulheres que passaram pelo processo com apoio adequado frequentemente relatam que a sexualidade pós-processo é mais rica que a anterior, porque ela é habitada, ela sabe onde ficam os limites, ela sabe o que importa, ela tem menos ansiedade performática. O corpo dela sabe que ele passou pelo mais intenso trabalho corporal que uma vida humana pode oferecer, os quais são gestar, parir, alimentar outra vida, e ele carrega esse saber com autoridade.

Essa autoridade, quando ela retorna para o campo erótico, produz uma qualidade de desejo diferente. Menos frenético, mais denso. Menos preocupado em performar, mais atento em receber e propor. Menos ligado a padrão de juventude, mais ligado a padrão de vida vivida.

Isso não é consolo, é dado observacional. E vale saber que esse é o horizonte, mesmo nos meses em que o processo parece parado.


Voltando à Esther Perel do início do texto. A frase completa dela naquela palestra de Boston foi mais longa do que citei. Após dizer que o corpo da mulher precisa ser reintroduzido a si mesmo como sujeito de desejo, ela completou assim: “E essa reintrodução, quando bem feita, não é sobre recuperar o corpo que ela tinha antes de ser mãe. É sobre chegar a um corpo novo que ela não conhecia antes, e que só se torna possível depois da travessia da maternidade.”

Se você está nesse processo, entre os primeiros meses pós-parto e os primeiros anos, saiba que o horizonte não é o corpo anterior. O horizonte é um corpo posterior, mais denso, mais claro sobre o que quer, mais autorizado a receber. Isso demora, mas chega. E as intervenções deliberadas descritas aqui aceleram a chegada em pelo menos uns doze meses, o que no cotidiano de uma mãe faz uma diferença enorme.

Clarense


Referências: Esther Perel (Mating in Captivity, palestras no Institute for Contemporary Psychotherapy), Rosemary Basson (Vancouver, ciclo de resposta sexual em mulheres), Alexandra Katehakis (Center for Healthy Sex, Los Angeles), Dana Raphael (terminologia da matrescência), Alexandra Sacks (What No One Tells You About Motherhood), Michele Weiner-Davis (The Sex-Starved Marriage).

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