A sutil conversa que separa as damas que crescem com charme das que não tiveram essa sorte é o preço social inusitado de se tornar a mulher que debate o passar do tempo em qualquer panificadora.

Às onze da matina, ela faz sua aparição no café, escolhe um lugar à beira da janela, despede-se do cachecol de lã delicada, pede um double espresso e um copo de água mineral. Enquanto aguarda, observa seu próprio reflexo na vitrine da calçada, ajeitando o cabelo grisalho na nuca com a graça de quem sabe o que faz. É um movimento digno de uma dama europeia que, por décadas a fio, influenciou as brasileiras a imitarem esse gesto, especialmente após os 45, quando deixaram de lutar contra os fios rebeldes. Com seus 62 aninhos – dá para notar pelo pescoço que é como uma linda escultura e pela claridade que toca sua mão – aguarda uma amiga que também está na casa dos sessenta, e que surge dez minutos depois, vestindo um elegante sobretudo camel e trazendo um pacotinho embrulhado em papel pardo, como se fosse um presente do além.

O interessante da cena é o que acontece nos primeiros três minutos da conversa. A primeira mulher pergunta como a segunda está, a segunda responde bem, e a conversa flui para o pacote embrulhado, que era um presente que a segunda comprara para uma sobrinha que se formou em direito na semana passada, e da sobrinha para o trabalho da sobrinha, e do trabalho para um livro que uma delas está lendo sobre urbanismo em Copenhague. Nos três primeiros minutos, nenhuma delas mencionou uma vez sequer a própria idade, o próprio corpo, o próprio metabolismo, a própria dor nas costas, o próprio médico, a própria dificuldade com o iPhone ou o próprio filho que não liga.


Existe um tipo de conversa social que mulheres nessa faixa tendem a estabelecer como padrão, e o formato é o seguinte: independentemente de quem começou o assunto, em algum momento nos primeiros dez minutos, o assunto derrapa para alguma versão de queixa relacionada ao tempo. “Ai, isso é coisa da idade.” “Essa semana as costas não pararam de doer.” “Cabelo não segura mais nada.” “Não consigo mais lembrar o nome de ninguém.” “Meu médico disse ser assim mesmo.” “Antigamente eu conseguia isso em uma hora.” “Meu neto liga a cada três semanas e olhe lá.”

Cada uma dessas frases isoladamente é inofensiva; todo mundo tem dia que precisa desabafar. O problema é o padrão cumulativo. Quando essa é a estrutura conversacional de fundo em quase toda conversa social, mesmo em contextos leves como café da manhã, jantar informal, coquetel de amiga, isso vira uma assinatura de personalidade que os interlocutores percebem inconscientemente e reagem a. E a reação neurológica dos interlocutores é bem estudada e é previsível.


Estudos de longevidade social conduzidos por Laura Carstensen em Stanford ao longo dos anos 2000 e 2010, no âmbito do Stanford Center on Longevity, mapearam algo interessante. Pessoas idosas que envelhecem bem, em medidas tanto em satisfação subjetiva quanto em qualidade de rede social, quanto em saúde mental objetiva, quanto em longevidade real, compartilham um padrão conversacional específico, que Carstensen chamou de “narrative externality.” Elas conversam sobre coisas fora delas mesmas com frequência muito maior do que sobre coisas nelas mesmas.

Ideia, lugar, livro, cena política, obra de arte, filme, receita, sobrinha, jardim, viagem que fez, viagem que quer fazer, projeto, notícia, personagem histórico, arquitetura, culinária regional, receita antiga, ópera, exposição. Essa é a paleta conversacional das mulheres que envelhecem bem. Elas continuam interessadas no mundo, e o interesse aparece na conversa.

O oposto, que Carstensen chamou de “narrative internality,” é a paleta de queixa corporal, queixa temporal, queixa familiar. Ela é humana, ela acontece, mas se ela vira estrutura de fundo, a rede social ao redor da mulher se contrai gradualmente, e ela envelhece pior.


Quando uma mulher, em qualquer idade, se torna interlocutora frequente de queixa relacionada ao envelhecimento, os interlocutores dela reagem em três tempos. Primeiro, eles se sentem obrigados a reassegurar, tipo “que nada, você está ótima.” Segundo, eles começam a evitar tópicos que possam disparar mais queixas-sasa. Terceiro, eles começam a evitar a interação inteira, porque ela virou emocionalmente exigente e pouco recompensadora.

O terceiro passo é o mais lento e o mais grave. Ele acontece em cinco a dez anos. A mulher percebe que os amigos convidam menos, que os filhos ligam menos, que os netos preferem outro avô, e ela atribui isso ao envelhecimento em si, quando na verdade a variável é o padrão conversacional dela, não a idade cronológica.

Isso é doloroso de escrever porque parece cruel, mas a alternativa é mais cruel, que é continuar reproduzindo o padrão até virar a mulher solitária dos 75 anos que se pergunta por que ninguém aparece.


A mulher que envelhece bem não é a que reclama pouco do tempo, é a que fala pouco do tempo.

Isso não é sobre negar o corpo, não é sobre fingir juventude, não é sobre esconder o cabelo grisalho, não é sobre não falar do médico com o médico ou com o marido ou com a filha adulta. É sobre não utilizar a idade e o corpo como estrutura conversacional padrão em contextos sociais gerais.

Uma mulher pode ter uma consulta de reumatologia toda semana e não mencionar isso em um jantar de amigo. Ela pode ter uma cirurgia marcada e não mencionar isso no coquetel, pode ter uma limitação física real e não colocá-la no centro da conversa social. Discrição corporal na conversa não é ocultação, é escolha de foco.

E essa escolha de foco tem consequência mensurável na qualidade da vida social e na qualidade do próprio envelhecimento subjetivo, pois a atenção é dirigida por conversa, e a conversa cria a realidade percebida.


Como reprogramar o padrão, na prática, depois dos 55 anos.

Não é rápido; requer alguns meses de vigilância consciente, mas é factível. Quatro coisas ajudam.

Coisa um: fazer inventário das últimas dez conversas sociais.

Sente-se com papel e liste as últimas dez conversas de café, almoço, jantar, coquetel, telefone longo com amiga. Marque em cada uma quantas vezes você mencionou idade, corpo, dor, esquecimento, tempo passando. Se o número passa de duas vezes por conversa, você tem um padrão instalado e ele precisa ser trabalhado.

Coisa dois: criar uma lista de tópicos de curiosidade ativa.

Faça uma lista de cinco a dez coisas que você quer aprender mais sobre nos próximos meses. Pode ser genealogia da família, pode ser cinema italiano dos anos 1960, pode ser jardinagem específica de plantas mediterrâneas, pode ser história do café brasileiro, pode ser qualquer coisa que ilumine em você. Essa lista vira sua paleta conversacional prioritária. Quando alguém pergunta como você anda, você responde brevemente e desliza para algo dessa lista.

Coisa três: praticar o silêncio como resposta a certos gatilhos.

Quando alguém diz “ah, isso é da idade”, você não completa com a sua versão do tema. Você pode dizer “provavelmente” e mudar de assunto. Não é grosseria, é higiene conversacional. Não é sua obrigação sustentar tópico de queixa que outra pessoa iniciou.

Coisa quatro: buscar interlocutores que operam em narrative externality.

Se todas as suas amigas atuais se organizam em torno de uma queixa, é razoável cultivar novas amizades com pessoas ligeiramente mais novas, ligeiramente mais velhas ou de outros contextos, que ainda operam na paleta de curiosidade. Isso não requer abandonar amizades antigas; requer expandir o repertório de interlocutoras.


É bom destacar a reviravolta favorável que essa transformação trouxe. Damas que se dedicam a essa reprogramação após os 55, 60 ou 65 anos costumam narrar uma experiência impressionante: elas se veem mais rejuvenescidas, não pela aparência física, mas pela vivacidade de estar na dança da vida. Isso é uma verdade palpável, longe de ser um devaneio. Estar na disputa é como sentir uma vibração no corpo, e essa percepção surge quando direcionamos o olhar para o mundo exterior, em vez de mergulhar no nosso próprio interior.

O corpo sente que está em jogo. E essa sensação, no longo prazo, produz decisões que efetivamente prolongam a vida ativa, a saúde mental e a longevidade real. Isso não é pensamento positivo raso, é um feedback loop mensurável.


Voltando à cena do café das duas mulheres de 62 anos. Nos vinte minutos seguintes ao pacote para a sobrinha, elas conversaram sobre uma exposição de Vera Chaves Barcellos que uma delas viu no MASP, sobre a filha da outra que abriu escritório de arquitetura em Lisboa, sobre uma feira de vinho natural em Perdizes, sobre o clima esquisito de junho, sobre um cachorro adotado que uma das duas passou a cuidar depois que a filha se mudou.

Idade nenhuma vez. Corpo nenhuma vez. Médico, nenhuma vez.

Envelheceram elegantes, aos 62 anos, em pleno vigor da paleta conversacional que sustenta uma vida longa e bem viva. É esse hábito específico, mais do que hidratante, mais do que academia, mais do que dieta, que separa quem envelhece bem de quem envelhece mal.

Clarense


Referências: Laura Carstensen (Stanford Center on Longevity, teoria da seletividade socioemocional), Erik Erikson (estágios de desenvolvimento adulto), Karl Pillemer (30 Lessons for Living), Diana Athill (Somewhere Towards the End), Fran Lebowitz (entrevistas sobre envelhecer em Nova York).

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