Há uma interpretação teatral dessa narrativa, mas também pode haver uma que seja autêntica.

Existe uma versão performática de “sou feliz solteira” que virou padrão nas redes sociais dos anos 2020, e ela é fácil de reconhecer. É a mulher que posta viagem sozinha com legenda em inglês. Que compartilha citações de Iris Murdoch. Que fala do próprio brunch como “um encontro comigo mesma.” Que faz “solo dates” no cinema? Que descobre que “gosta de ir a bares sozinha” aos 34 anos e escreve threads sobre isso no Twitter.

Nada disso é ruim isoladamente. Viajar sozinha, ler Iris Murdoch, brunch, cinema, bar sozinha, tudo excelente. O problema é quando a soma dessas coisas vira um desempenho, e o desempenho vira uma máscara. E a máscara é do tipo que aparece quando o assunto do próprio bem-estar precisa ser gritado para convencer.

A mulher que grita que é feliz solteira todo domingo no Instagram raramente é.


Primeiro, vamos reconhecer que o roteiro cultural sobre mulher solteira mudou nos últimos vinte anos, e nem sempre para melhor.

Nos anos 1990–2000, a mulher solteira acima dos 30 era vista com pena e com pressão social para casar. Era o modelo Sex and the City — quatro mulheres inteligentes que “ainda” estavam procurando o cara certo, sempre no verbo procurar, sempre com a solteirice como estado transitório e problemático.

Nos anos 2010–2020, o roteiro se inverteu. A mulher solteira acima dos 30 virou objeto de celebração forçada. Toda revista feminina publica dezenas de artigos anualmente sobre “Eu escolhi ser solteira e nunca fui tão feliz.” As redes sociais recompensam atuações de autonomia individual. E a pressão inverteu: agora tem uma pressão sutil para parecer que você adora ser solteira, mesmo quando você está morrendo de vontade de encontrar alguém.

Nenhum dos dois roteiros é útil. Nem “pobrezinha da solteirona”, nem “a solteira empoderada que se autoescolhe.” Os dois são caricaturas que não descrevem a experiência concreta de mulher inteligente sozinha aos 30+.

A experiência concreta é mais complicada. E é sobre ela que este texto trata.


Primeira evidência: a felicidade solteira autêntica depende de três ativos concretos.

A Bella DePaulo, professora de psicologia da UC Santa Barbara, passou vinte anos comparando dados longitudinais de mulheres solteiras e casadas. O que ela achou é surpreendente: mulheres solteiras sem filhos aos 35+ têm, em média, satisfação com a vida ao nível comparável ou às vezes superior ao de casadas.

Só que essa média esconde uma distribuição. Metade das solteiras nesses dados relata satisfação alta. A outra metade relata satisfação abaixo da média.

O que separa ambas? A DePaulo identificou três ativos que a metade satisfeita tem, e a metade insatisfeita não tem:

1. Rede de amizade profunda com uma a três mulheres específicas. Não redes sociais amplas. Amizade verdadeira com pouca gente, ao nível de intimidade comparável ao que as casadas têm com o parceiro. Elas se veem semanalmente. Falam de dinheiro. Falam de sexo. Falam de medo. Fazem viagens juntas.

2. Projeto pessoal com prazo. Um livro está sendo escrito. Um mestrado está sendo cursado. Um negócio próprio está sendo construído. Um plano de compra de imóvel específico. Alguma coisa que ocupa lugar central na cabeça e que tem trajetória.

3. Casa que reflete quem elas são. Não precisa ser grande. Precisa ser deliberadamente escolhida, decorada com cuidado, funcional para a rotina delas. Casa que aparece como personagem em vez de cenário.

Mulher solteira que tem essas três coisas relata felicidade sustentada. Mulher solteira que não tem, mas fica no Instagram falando de “solo dates”, performa.


Ser feliz solteira não é uma atitude. É uma infraestrutura de três ativos que sustenta a vida por dentro.

Segunda evidência: o roteiro de “escolhi ser solteira” é frequentemente uma defesa.

Aqui é o momento de deixar a sinceridade brilhar. Muitas moças que fazem alarde de que “optaram” pela vida de solteira, na realidade, estão lidando com uma dor profunda que ainda não conseguiu se despedir.

A pesquisa da Kate Bolick em Spinster, que ela escreveu após passar dos 40 solteira em Nova York, é útil aqui. Ela é honesta sobre isso: nos anos entre 32 e 38, ela oscilou entre períodos de aceitação genuína da solteirice e períodos de dor concreta por não encontrar parceiro, nunca escondeu a dor. E foi essa honestidade que fez o livro dela ressoar com tantas mulheres.

A mulher que declara “escolhi” e nunca hesita, nunca duvida, nunca chora, provavelmente está segurando a coisa por baixo. Não porque a solteirice não possa ser escolhida (pode). Porque a solteirice como escolha genuína inclui a dor de vez em quando, e não elimina ela.

Sinal de que a coisa é apresentação: a mulher fica ofendida quando alguém sugere que ela pode querer namorar em algum momento. Isso é defesa. Aceitação real é tranquila com a ambiguidade.

Terceira evidência: o que a maioria das mulheres “felizes solteiras” faz aos 42 é diferente do que faz aos 32.

Aqui vale um dado difícil de ver. A Kate Bolick, autora de Spinster, casou-se pela primeira vez aos 47 anos. A Nora Ephron, que ficou solteira e independente entre 38 e 44 anos depois do divórcio do Bernstein, casou pela terceira vez aos 46 com o Nick Pileggi (e continuou até falecer). A Sheila Heti, que escreveu Motherhood sobre a decisão de não ter filhos, hoje mora com um parceiro estável.

Nenhuma delas contradisse o próprio livro. Elas viviam bem sozinhas e, quando apareceu alguém que se encaixava, deixaram acontecer.

O ponto é: a felicidade solteira não é um estado permanente que precisa ser defendido contra invasão. É uma capacidade de viver bem sozinha. A capacidade de viver bem sozinha é o que permite escolher parceiro por vontade, não por medo. As mulheres de fato boas em ser solteiras são geralmente as mesmas que fazem casamentos maravilhosos se a coisa acontecer.


Objeção antecipada: mas e se a solteirice for genuinamente escolhida?

Existe uma minoria de mulheres que genuinamente não querem parceiro, não por trauma, não por medo, não por incapacidade. Elas simplesmente preferem outra estrutura de vida. Podem ter amigas próximas, comunidade, família extensa, projetos, casa. E não querem o custo de sustentar um casamento adulto.

Essas mulheres existem e são legítimas. Não são a maioria, mas existem.

Sinal de que é o seu caso: você tem os três ativos que a DePaulo descreveu. Você tem hesitação e ambivalência, mas após considerar, prefere continuar como está, aceita convites para jantar com caras interessantes de vez em quando e sai contente por voltar para casa sozinha, não fica ansiosa quando a amiga fica noiva, não faz nada em rede social.

Se todas essas coisas se aplicam a você, você está no lugar em que quer estar. Não precisa se justificar.


O que este texto está querendo dizer é o seguinte.

Existe uma diferença clara entre a mulher que virou solteira feliz de verdade (que construiu três ativos, aceita a ambiguidade e não performa nada) e a mulher que performa solteira feliz enquanto por dentro está morrendo de vontade de encontrar alguém.

A segunda não é vergonha nenhuma. É estágio. Muitas mulheres passam por ele. Só que a saída não é postar mais viagens sozinha no Instagram. A saída é fazer o trabalho: construir os três ativos que a DePaulo descreveu, parar de fingir que a dor não existe e deixar a solteirice ser genuinamente possível como estado sem virar apresentação.

Quando isso acontece, uma coisa curiosa acontece também. Você fica mais atraente para homens de qualidade. Não porque “os homens gostam de mulheres que não precisam deles” (esse é um mito). Porque você fica mais interessante para qualquer pessoa quando você tem vida por dentro, e vida por dentro não é apresentação. É infraestrutura.

Clarense

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