A ambiguidade adulta é o mecanismo psíquico específico da incerteza relacional.

Virginia Woolf escreveu em 1925, numa passagem de Mrs. Dalloway que muitos leitores citam, mas poucos entendem completamente, que “there was a coldness even at the heart of ecstasy”, ou seja, existe uma frieza mesmo no centro do êxtase.

A passagem descreve o momento em que Clarissa Dalloway, aos 52 anos, olha o marido no fim da tarde e reconhece que o ama, o respeita, valoriza a vida construída junto, e simultaneamente reconhece uma coisa que a impede de responder à pergunta óbvia com clareza definitiva: se ela decidisse hoje, começando do zero, escolheria estar aqui? Ela olha por três minutos, e a resposta não vem, desiste da pergunta, arruma o cabelo no espelho e desce para receber convidados. A passagem é lida na literatura como sinal de infelicidade matrimonial de Clarissa, mas ela é mais interessante que isso. É a descrição precisa de uma condição psíquica específica que muitas mulheres adultas conhecem, mas articulam raramente com clareza, e essa condição não é infelicidade; é ambiguidade adulta prolongada.


A condição opera assim. Você está num relacionamento significativo há 5, 8, 12 anos. Não há crise aguda. Seu parceiro não te maltrata. Ele não te traiu (ou traiu e a crise foi processada). Vocês têm uma rotina que funciona, amigos que respeitam, casa que construíram. Talvez filhos, um projeto compartilhado, ou quem sabe apenas um cotidiano estável.

E ainda assim, quando alguém pergunta para você, mesmo você mesma numa quinta-feira à noite, se você está feliz, você não consegue responder com clareza. Você não é infeliz, não está apaixonada, não está apaixonada por outra pessoa, não quer sair correndo, também não quer estar aí necessariamente, está numa zona que não tem palavra específica em português comum e que a literatura só nomeia com precisão em raros momentos.

Essa zona não é sinal de que a relação acabou. Também não é sinal de que ela está bem. É condição intermediária que pode durar meses, anos, décadas se não for reconhecida como problema a ser trabalhado.


Estudos sobre como adultos tomam decisões, realizados por Barry Schwartz em Swarthmore e Sheena Iyengar em Columbia, revelaram que as pessoas se saem pior ao decidirem com pouca informação e muita incerteza. Diante de um panorama nebuloso, nossa mente parece embaralhar as opções, enquanto com dados claros, mesmo que a situação não seja das melhores, nosso raciocínio flui melhor. Em outras palavras, os seres humanos tendem a optar por situações ruins, mas bem definidas, ao invés de se arriscar em decisões sobre coisas que são nebulosas e medianas.

Relacionamento adulto que entra em ambiguidade prolongada ativa esse mecanismo. A pessoa que está nele não tem informação clara para decidir. Não está mal o suficiente para deixar, mas também não está bom o suficiente para ficar entusiasticamente. E a ambiguidade sozinha produz sofrimento psíquico que frequentemente é maior do que a dor de qualquer decisão clara em qualquer direção seria.

Reconhecer isso é importante. A ambiguidade em si é o problema principal, não o conteúdo da situação. Sair da ambiguidade em qualquer direção produz alívio, mesmo quando a decisão específica seja difícil.


Um estudo que se arrastou como um gato preguiçoso em cima do telhado da Universidade do Texas, sob a batuta de Ted Huston, nos anos 80 e 90, revelou que casais que dançam na corda bamba da confusão prolongada, batizados pelos estudiosos de “platô de mal-estar”, seguem caminhos bem peculiares com o passar do tempo. Em aproximadamente 40% das situações, a confusão se desfaz sozinha em algum ponto, seja para alegrar ou para complicar ainda mais a vida. Em aproximadamente 60% das situações, ela se fixa por uma década, ou até mais, como quem planta uma árvore em um terreno fértil, trazendo um gasto que acrescenta camadas na satisfação de viver e no bem-estar mental ao longo dos anos.

O custo cumulativo do platô de mal-estar de longo prazo é frequentemente maior do que o custo de divórcio agudo. Casais divorciados aos 40 anos frequentemente relatam, aos 55 anos, satisfação de vida maior do que a de casais que permaneceram em platô ambíguo pelos mesmos 15 anos. Isso é dado que contradiz o senso comum de que “melhor ficar mesmo em relação morna do que se separar.”

O senso comum está errado nesse ponto específico. Platô de mal-estar de longo prazo é psíquicamente custoso, e o custo é subestimado quando a decisão de sair ou ficar é postergada indefinidamente.


Há três forças que sustentam a ambiguidade prolongada, porque nomear cada uma ajuda a trabalhar com elas.

Ausência de razão clara para sair.

Você não tem razão específica que justifique o término. Ele não te maltratou. Você não tem ninguém para ir. A vida em conjunto tem funcionalidade real. Sair sem razão clara parece capricho, egoísmo, ingratidão. E essa ausência de razão clara paralisa.

Peso das perdas colaterais.

Sair significa perder a casa construída, a rede social compartilhada, a rotina estável, a família estendida, o padrão de vida. Cada uma dessas perdas soma peso, e a soma frequentemente parece maior que qualquer benefício potencial de sair.

Dúvida sobre o próprio julgamento.

Você não confia que a insatisfação que você sente existe e não é fase temporária. Talvez seja hormônio ou fadiga profissional, ou uma fase difícil que vai passar. Você espera clareza que nunca vem, porque a clareza não vem por espera passiva.

As três forças combinadas produzem inércia que dura anos ou décadas. Reconhecer cada uma permite trabalhar com elas em vez de aceitar a paralisia como fato.


Ambiguidade adulta prolongada em relacionamento não é neutra, é psíquicamente custosa em modo cumulativo. A decisão de decidir é mais importante que a decisão específica em qualquer direção.

O processo tem quatro etapas ao longo de 12 a 18 meses.

Reconhecer que a ambiguidade é um problema, não um fato neutro.

Isso soa óbvio, mas frequentemente não é. Muitas mulheres em platô de mal-estar tratam a condição como característica permanente da vida adulta, algo que se aceita porque “casamento é assim mesmo após dez anos”. Essa aceitação prolonga a condição indefinidamente. Reconhecer que a ambiguidade é um problema específico a ser resolvido é o primeiro passo.

Dar 12 meses de investimento sério antes de considerar sair.

Se você percebe ambiguidade, invista 12 meses em intervenções específicas: terapia de casal com terapeuta especializado, retiro de casal, viagem só entre os dois, atividade nova em conjunto, conversa profunda semanal sobre o estado da relação, exploração sexual renovada, projeto compartilhado novo.

Os 12 meses são um investimento genuíno. Não desempenho. Se você faz isso apenas para poder dizer que tentou antes de sair, o investimento é falso. Vale entrar em modo genuíno, com curiosidade real sobre se a relação pode se transformar.

Aos 12 meses, avaliar resultado com honestidade.

Após 12 meses de investimento genuíno, você avalia. Três resultados são possíveis.

Resultado A: a relação se transformou. A ambiguidade se dissolveu. Você tem clareza de que quer estar aqui. Nesse caso, continua no relacionamento renovado.

Resultado B: a ambiguidade se aprofundou em direção clara de que não quer estar aqui. Nesse caso, começa-se um processo estruturado de separação.

Resultado C: a ambiguidade persiste. Nem melhorou nem piorou claramente. Nesse caso, você tem informação: o investimento genuíno não foi suficiente para transformar a relação, e a ambiguidade parece estrutural, não temporária.

Em caso de resultado C, decidir em direção específica.

Isso é o momento difícil, mas é o momento adulto. Após 12 meses de investimento genuíno com resultado ambíguo, ficar é decisão consciente ativa, não inércia passiva. E sair também é uma decisão consciente ativa.

Qual das duas é a resposta correta depende de você. Mas ambas são melhores do que continuar em ambiguidade indefinida por mais 10 anos.

Muitas mulheres, ao chegar à etapa quatro, descobrem que sabem a resposta com mais clareza do que pensavam antes. O investimento de 12 meses frequentemente revela informação que a ambiguidade prolongada estava mascarando.


Vale registrar também o que atrapalha o processo, porque essa parte é onde muitas mulheres falham.

Esperar o sentimento antes de agir.

Você quer sentir clareza antes de decidir. Enquanto você espera o sentimento, o tempo passa. A clareza vem depois da decisão, não antes. Isso é contraintuitivo, mas é dado experimentalmente. Decisão ativa produz clareza que a espera passiva nunca produz.

Transferir decisão para terapeuta ou consultora.

Terapeuta de casal pode ajudar a processar informação, mas não pode decidir por você. Se você espera que o terapeuta diga “vocês devem se separar” ou “vocês devem ficar juntos”, o terapeuta profissional recusa esse papel. A decisão é sua. O terapeuta apenas oferece uma técnica para você chegar a ela com honestidade.

Utilizar filhos ou terceiros como razão para postergar.

“Não posso decidir agora por causa dos filhos”, “não posso decidir agora por causa da família dele”, “não posso decidir agora por causa da minha mãe idosa.” Cada uma dessas justificativas pode ter verdade parcial, mas quando elas se somam ao longo de anos, elas produzem décadas inteiras de postergação. Vale nomear com honestidade quais desses são razões legítimas de timing e quais são desculpas.


Cada mês que passa em ambiguidade é uma escolha ativa de continuar em ambiguidade, mesmo que se sinta como inércia passiva.

Isso é importante psicologicamente. Enquanto a mulher se convence de que “ainda não decidiu”, ela mantém a ilusão de que o tempo é neutro. Mas o tempo não é neutro. Cada mês em platô de mal-estar acumula custo psíquico que sai do orçamento total de vida.

Reconhecer que não decidir é decidir por continuar em platô é o começo de sair da ilusão. E sair da ilusão é o começo de decidir com honestidade.


Voltando à Virginia Woolf do início do texto. Clarissa Dalloway, personagem, permanece em um platô de mal-estar ambíguo pela vida inteira, e a novela é largamente sobre o custo psíquico dessa permanência. Woolf, na vida presencial, escolheu diferente. Ela investiu na relação com o marido Leonard Woolf com honestidade adulta e teve um relacionamento genuinamente escolhido por 30 anos, com todas as suas dificuldades. A diferença entre a personagem e a autora era exatamente a diferença entre não decidir e decidir com honestidade, mesmo em condições difíceis.

Se você está em um relacionamento sobre o qual não sabe mais o que quer e a ambiguidade dura mais de 12 meses, saiba que a ambiguidade prolongada tem um custo cumulativo que raramente é reconhecido. Vale investir 12 meses em intervenção genuína. E vale, depois desses 12 meses, decidir em direção específica, mesmo quando a resposta clara não veio.

A decisão de decidir é o que sai do platô. E sair do platô é o começo de uma vida clara em qualquer direção que ela vá.

Clarense


Referências: Virginia Woolf (Mrs Dalloway, diários), Barry Schwartz (The Paradox of Choice), Sheena Iyengar (The Art of Choosing), Ted Huston (University of Texas, estudos longitudinais sobre satisfação conjugal), John Gottman (The Seven Principles for Making Marriage Work), Susan David (Emotional Agility), Terrence Real (The New Rules of Marriage).

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