Uma dor sutil, que não possui uma denominação popular, mas que provoca desconforto e culpa simultaneamente.
Virginia Woolf escreveu num diário de 1929, aos 47 anos: “estou tão bem-estabelecida quanto uma escritora pode estar. Tenho casa, marido, livros publicados, amigos que me ouvem, dinheiro que basta. E ainda assim, hoje, uma tristeza sem motivo tomou o meu dia e me fez ficar parada na janela olhando para a rua por duas horas, sem saber o que eu estava esperando.”
Ela era Virginia Woolf, tinha, pelos parâmetros de qualquer geração, uma vida boa. E ainda assim, essa pesagem sem motivo aparente aparecia. Ela escreveu sobre isso muitas vezes.
Cem anos depois, o mesmo tipo de pesagem aparece em mulheres brasileiras entre 32 e 48 anos com carreira estabelecida, casamento razoável, moradia própria, amigas boas, saúde razoável. Elas descrevem para a terapeuta a mesma coisa que a Woolf descreveu, com palavras parecidas: “tenho tudo. E ainda pesa. Não sei nomear o quê.”
A diferença clara entre duas coisas.
Depressão clínica clássica tem critérios diagnósticos claros. Perda persistente de interesse por atividades que davam prazer. Alteração de sono e apetite. Fadiga sem esforço. Sentimentos de inutilidade. Dificuldade de concentração. Ideação suicida em casos severos. Ela pode aparecer em qualquer contexto de vida e tem tratamento estabelecido (terapia + medicação quando necessário).
A depressão de quem tem tudo é diferente. A mulher continua funcionando bem no trabalho. Permanece sendo uma excelente companhia em contextos sociais. Persistia na realização das atividades que sempre apreciou. Ainda apresenta sonolência e um apetite satisfatório. Entretanto, sob toda essa superfície, persiste uma sensação de gravidade, de um vazio específico, de algo que parece ausente, mas que ela não consegue identificar.
Ela não bate os critérios da depressão clínica. Não é caso de medicação (na maioria dos casos). Mas também não é “só uma fase.” É um fenômeno específico, com literatura crescente, que a psicologia contemporânea chama, entre outros nomes, de “existential depression” ou “success depression.”
E ela aparece justamente em pessoas que atingiram o que se propunham atingir.
O Arthur Brooks, que dá aulas em Harvard sobre felicidade adulta e escreveu From Strength to Strength, tem uma tese sobre isso que vale trazer.
A tese é: a mente humana adulta funciona em duas “montanhas” ao longo da vida. A primeira montanha, que ocupa os primeiros 35–45 anos, é sobre construir. Carreira, casa, família, reputação, dinheiro, corpo. É a fase de acumulação e de externalização de valor.
A segunda montanha, que idealmente começa entre os 40 e 50, é diferente. É sobre significar. Ela solicita das pessoas coisas que não são acumulação: relação profunda com outros, contribuição para algo maior que o eu, aceitação da mortalidade, cultivo de uma vida interior que não depende de conquistas.
O problema é: a maioria das pessoas termina a primeira montanha e não sabe que existe uma segunda. Fica parada no topo da primeira, considerando que agora é só manter. E é aí que a pesagem começa.
Não porque a vida esteja errada. Porque a vida está solicitando uma reorganização de sentido que a mulher ainda não fez.
A depressão de quem tem tudo raramente é sobre o que falta. Quase sempre é sobre uma reorganização de sentido que a vida está pedindo e que ainda não aconteceu.
Isso não é a única explicação. Existem pelo menos três outras coisas que valem a pena trazer.
Primeiro: qualidade de relacionamentos íntimos.
O Estudo Harvard sobre Desenvolvimento Adulto, que começou em 1938 e ainda continua, é a pesquisa longitudinal mais longa sobre felicidade adulta que existe. O Robert Waldinger, atual diretor do estudo, resumiu 85 anos de dados numa frase: qualidade de relacionamentos íntimos aos 50 prediz saúde e felicidade aos 80 melhor que colesterol, IMC, ou dinheiro no banco.
Mulheres que atingem sucesso profissional e casamento estável, mas cuja qualidade de vínculo íntimo (com marido, com amigas próximas, com família de origem) está superficial, reportam a pesagem com muito mais frequência. Ter as pessoas ao lado não é a mesma coisa que ter intimidade profunda com elas.
Isso é diagnóstico. Se você tem essa pesagem, vale investigar. Você tem uma amiga com quem você chora? Um marido com quem você discute o que de fato pensa? Um irmão que sabe de fato como você está?
Se a resposta para essas três é não ou parcialmente, a pesagem provavelmente tem essa origem.
Segundo: falta de projeto que atinja algo maior que o eu.
A Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e psiquiatra que escreveu Em Busca de Sentido, tem uma tese que a psicologia moderna confirma repetidamente: o cérebro humano precisa de um projeto que atinja algo além dele mesmo para sustentar o bem-estar de longo prazo.
Esse projeto não precisa ser grande. Pode ser: um trabalho voluntário regular. Um projeto criativo em curso. Uma responsabilidade recorrente com uma comunidade específica. Cuidar de alguém (não necessariamente filho). Fazer parte de algum grupo que faz alguma coisa.
Mulheres, com carreira ótima, mas cuja vida gira exclusivamente ao redor da própria carreira e casa, reportam pesagem com muito mais frequência que mulheres que dedicam pelo menos 10% do tempo semanal a algo fora desses dois círculos.
Terceiro: perda gradual de vitalidade fisiológica.
Vale trazer o corpo. Depois dos 35 anos, mulheres passam por mudanças hormonais graduais (perimenopausa começa muito antes da menopausa) que afetam humor, energia e disposição. Isso não é depressão psicológica pura. É baseline hormonal mudando.
A Dra. Mary Claire Haver, ginecologista americana especializada em perimenopausa que escreveu The New Menopause, mostra que a pesagem indefinida em mulheres entre 38 e 48 é frequentemente atribuída erroneamente a “estresse” ou “estar sobrecarregada”, quando na verdade tem componente hormonal identificável e tratável.
Se você tem essa pesagem, vale a pena fazer exames de perfil hormonal com um ginecologista atualizado. E talvez também vitamina D, ferro, B12 e tireoide. A pesagem pode estar sendo produzida ou amplificada por deficiência tratável.
O que fazer com a pesagem, então.
Parar de tratar como fracasso pessoal.
A pesagem de quem tem tudo aparece justamente porque a vida bem construída atingiu o ponto no qual os problemas externos foram resolvidos, e agora os problemas internos ficam visíveis. Isso não é sinal de que você está deprimida ou fraca. É sinal de que sua vida foi bem-sucedida a ponto de fazer as questões existenciais aparecerem.
Investigar as três frentes acima.
Qualidade de intimidade (você tem duas ou três pessoas com quem você é você mesma inteira?). Projeto além do eu (você tem alguma coisa que serve a algo maior que sua carreira e sua casa?). Baseline hormonal e nutricional (você fez exames nos últimos doze meses?).
Uma dessas três, quase sempre, é onde a coisa está.
Aceitar que a segunda montanha existe e que a subida dela é diferente.
A primeira montanha se sobe com estratégia, disciplina e acumulação. A segunda se sobe com aprofundamento, contribuição e aceitação. As ferramentas são diferentes. Mulheres que tentam subir a segunda montanha com as ferramentas da primeira ficam presas no topo, supondo que precisam “trabalhar mais duro.”
Trabalhar mais duro não resolve a pesagem. Aprofundar resolve.
A Virginia Woolf, no diário de 1929, escreveu depois: “sei que essa tristeza tem função. Ela está me obrigando a olhar para dentro para coisas que eu havia ignorado. Vou obedecer a ela.”
Ela obedeceu. Escreveu Um Teto Todo Seu na sequência. Continuou escrevendo por mais doze anos. Teve momentos difíceis (não vou romantizar; ela lidava com transtorno bipolar sério e acabou tirando a própria vida em 1941), mas viveu produtivamente e com sentido.
A pesagem que aparece na mulher bem-sucedida aos 38–42 anos não é depressão que precisa ser eliminada. É uma pergunta que precisa ser respondida.
Clarense