Vamos bater um papo a respeito da pergunta que aparece geralmente entre o mês 8 e o mês 14 de análise.

A pergunta chega discretamente, geralmente entre o mês 8 e o mês 14 de análise, e ela chega em quase toda mulher que faz psicoterapia adulta comprometidamente. Você entra na sessão numa quarta às sete da noite. Senta na poltrona onde já sentou 40 ou 50 vezes. Ouvi a analista dizer alguma variação de “E como você chegou hoje? E você percebe que não tem muito o que falar. As últimas semanas foram medianas. Você não trouxe visão nova, não teve sonho relevante, não passou por conflito que exija processamento. A sessão se arrasta de modo que parece produtivo, mas você começa a suspeitar que talvez esteja indo apenas por inércia. Você volta para casa naquela noite, olha para o extrato bancário, calcula o que a análise tem custado por mês, e uma pergunta específica emerge. Talvez essa fase da análise já tenha acabado. Talvez você já tenha extraído o que essa fase podia oferecer. Talvez você esteja continuando por receio de interromper. Talvez esteja na hora de parar.


Vale começar reconhecendo que a análise adulta tem estrutura temporal específica que raramente é articulada com clareza para a paciente antes ou durante o processo. A percepção pública de terapia opera frequentemente com dois modelos igualmente incorretos. Modelo A: terapia é ferramenta curta para resolver crise pontual e depois se encerra. Modelo B: terapia é compromisso vitalício sem estrutura de fim previsível.

Nenhum dos dois modelos captura a realidade da análise adulta bem conduzida. A realidade é que a análise tem fases específicas, cada uma com duração aproximada, cada uma com trabalho psíquico específico, e cada uma com pergunta característica que emerge no fim.

Fase um: consolidação inicial. Aproximadamente 1 a 4 meses.

Você e a analista estabelecem vínculo terapêutico, aprende como utilizar o espaço. Ela aprende sobre você de modo específico. Trabalho psíquico primário é orientação e confiança iniciais. Pergunta característica que emerge no fim dessa fase: “Isso está me ajudando ou é conversa, cara?”

Fase dois: exploração central. Aproximadamente 5 a 18meses8.

Você processa temas principais que motivaram a busca por análise. Trabalho psíquico primário é mapeamento de padrão psíquico próprio. Pergunta característica que emerge em algum ponto dessa fase: “Eu considero que já entendi meu padrão; é hora de parar?”

Fase três: aprofundamento estrutural. Aproximadamente 18 a 36 meses.

Você trabalha em camadas mais profundas do que a exploração central alcançou. Trabalho psíquico primário é reorganização estrutural do próprio funcionamento psíquico. Pergunta característica que emerge nessa fase: “Quanto ainda tenho para trabalhar?”

Fase quatro: consolidação sustentada. Aproximadamente 36 meses em diante.

Você mantém o trabalho como prática regular, com o foco mudando para a vida corrente e para reorganizações específicas conforme a fase da vida muda. Trabalho psíquico primário é sustentação e ajuste. Pergunta característica que emerge intermitentemente: “Faz sentido continuar na intensidade atual ou mudar frequência?”

A pergunta “devo parar” pode emergir em qualquer fase, mas ela emerge com frequência particular no fim da fase 2, entre o mês 8 e o mês 14, exatamente como o texto descreve. E a resposta técnica a essa pergunta depende de qual é a origem específica dela.


O Platô legítimo tem quatro sinais específicos. Você chegou a um ponto onde os temas principais que motivaram a busca por análise foram processados suficientemente, tem uma ferramenta de reconhecimento e regulação emocional que antes não tinha. Os padrões relacionais que estavam produzindo dano crônico foram identificados e substancialmente modificados. E as sessões, ao longo dos últimos 2 ou 3 meses, têm produzido pouco material novo mesmo quando você chega disposta a trabalhar em modo aberto.

Quando os quatro sinais estão presentes consistentemente, faz sentido conversar com a analista sobre pausa formal (interrupção com possibilidade de retorno) ou sobre encerramento (com processo de despedida estruturado ao longo de 8 a 12 semanas). Terminar bem é parte importante da análise, e ela merece ser feita com cuidado, não abruptamente.

Resistência específica tem sinais diferentes. Os temas principais ainda estão em processamento, mas você chegou a um ponto em que aprofundá-los produz desconforto significativo. Você percebe o padrão de trazer temas menos relevantes para a sessão em vez dos que estão pesando, reagenda ou falta com mais frequência do que antes, pensa em parar especificamente depois da sessão em que algo desconfortável emergiu. E a pergunta “devo parar?” chega de modo que carrega urgência emocional em vez de avaliação técnica.

Quando os sinais de resistência específica estão presentes, o próprio impulso de sair é frequentemente o conteúdo terapêutico mais relevante do momento, e discutir abertamente com a analista sobre esse impulso produz avanço significativo. Parar nesse momento tipicamente produz retorno ao mesmo ponto seis meses depois, com custo adicional em fase de transição que poderia ter sido evitado.


É válido mencionar as três formas mais frequentes em que a indagação “devo interromper?” surge como uma barreira camuflada de análise técnica.

Configuração um: impulso emerge após uma sessão em que algo próximo ao núcleo apareceu.

Você trabalhou em análise por meses, processando temas periféricos. Em algum ponto, algo mais próximo ao núcleo do que a análise pode estar buscando aparece de modo mais nítido. Talvez uma memória de infância que você guardou em modo genérico comece a se tornar mais específica. Talvez um padrão relacional recorrente com sua mãe apareça de modo mais claro. Talvez uma configuração de desejo que você negou comece a aparecer de modo mais direto.

E, imediatamente depois, chega o impulso de parar. Frequentemente com racionalização técnica (“considero que já processei o que precisava”, “considero que a análise cumpriu o objetivo”, “considero que estou em ponto de estabilização”). O impulso é resposta psíquica à proximidade do núcleo, e ele é padrão previsível bem documentado na literatura psicanalítica. Reconhecer isso permite discutir com a analista em vez de agir impulsivamente.

Configuração dois: impulso emerge após conflito não articulado com a analista.

Terapia é uma relação humana intensa, e como toda relação humana intensa, ela produz momentos de atrito. Você pode ter sentido que a analista foi menos presente numa sessão específica, pode ter percebido que ela não entendeu nada importante, pode ter tido reação emocional ao comentário dela, que ficou processando em silêncio nas semanas seguintes.

Quando o conflito não é articulado abertamente, ele frequentemente se manifesta em impulsos de sair. E o impulso vem com racionalização que raramente inclui o conflito original (“suponho que ela não é a analista indicada para mim”, “considero que preciso mudar de abordagem”, “considero que está em ponto de parar”). Articular o conflito específico na sessão, em vez de sair em modo discreto, frequentemente produz reparo relacional e avanço terapêutico, e evita o padrão de “abandonar analista antes que ela abandone você” comum em fase média de análise.

Configuração três: impulso emerge após progresso real que produz medo de perder a analista.

Isso é contraintuitivo, mas é padrão bem documentado. Você entrou em análise em fase de crise, com dependência emocional significativa da analista. Ao longo dos meses, você progride, resolve várias questões e chega a um ponto em que sua vida está funcionando melhor do que estava. E, imediatamente depois desse progresso, chega o impulso de sair. Frequentemente com racionalização de que “já superei, não preciso mais”.

O impulso é frequentemente resposta ao medo do próprio vínculo com a analista, agora que a crise que legitimava esse vínculo passou. Sair em modo antecipado é uma forma de controlar o fim antes que ele venha de modo que você não decide. Discutir com a analista sobre esse medo específico frequentemente produz aprofundamento importante do trabalho e permite decisão sobre continuar ou parar conscientemente em vez de reativo.


O impulso de sair de terapia frequentemente é conteúdo terapêutico central em vez de avaliação técnica. Discutir abertamente esse impulso com a analista, em vez de agir em modo discreto, é decisão adulta que preserva o valor do processo.

É bom fazer uma pergunta que é importante, mas que quase ninguém faz sobre esse assunto em conversas sobre cultura. E se a vontade de agir for verdadeira, mas você não acredita em si mesma para saber se está em um momento de estagnação ou se está enfrentando uma dificuldade específica?

Nesse caso, a resposta técnica é simples e viável. Você discute o impulso com a analista, ao longo de várias sessões, com o objetivo específico de investigar de onde ele vem. Não com o objetivo de convencer a analista a te deixar ir, nem de convencer a si mesma de que precisa continuar. Com o objetivo genuíno de investigar abertamente.

A analista competente vai reagir a essa investigação de modo que respeite a autonomia da paciente. Ela não vai tentar segurar a paciente que quer sair, mas também não vai deixar sair discretamente quando perceber sinais de resistência específica. Vai oferecer análise técnica da situação, vai discutir os sinais que ela observa, vai apoiar o processo de decisão adultamente.

Se a analista reage à investigação em modo defensivo (tenta convencer a paciente a continuar sem investigar honestamente), ou em modo omisso (concorda com a saída sem análise técnica), isso é sinal de que a analista não é qualificada para a fase que a paciente está enfrentando, e a decisão de trocar de analista pode ser adequada. Mas trocar de analista em modo consciente é diferente de sair de análise em modo discreto, e a distinção importa.


E depois de tudo isso, ainda resta a pergunta que não pode ser respondida em texto genérico. Você, especificamente, na fase específica em que está, com a analista específica que tem, com os temas específicos que ainda pesam, deveria continuar ou parar?

A resposta é: você não sabe agora, e escrever texto no telefone às onze da noite calculando o extrato bancário também não vai produzir a resposta. A resposta vem de conversa deliberada em análise durante 3 ou 4 sessões, com a pergunta explicitamente na mesa, com investigação honesta do que está por trás do impulso. E vem em modo mais claro depois dessa investigação do que viria de qualquer decisão apressada.

Se você está no mês 12 de análise e a pergunta emergiu na sua semana em modo sério, vale levar para a próxima sessão em modo direto. Frase útil: “Quero discutir a possibilidade de parar, tenho pensado nisso há três semanas, quero investigar honestamente se essa é a decisão certa ou se o impulso está me dizendo alguma outra coisa.” Analista competente vai reconhecer essa formulação como convite a trabalho substantivo, e a conversa que segue frequentemente é mais valiosa do que meses de sessões periféricas.

Clarense


Referências: D. W. Winnicott (Playing and Reality; sobre fases de análise), Christopher Bollas (The Shadow of the Object; sobre resistência em análise), Adam Phillips (Terrors and Experts; sobre encerramento em análise), Nancy McWilliams (Psychoanalytic Case Formulation), Glen Gabbard (Long-Term Psychodynamic Psychotherapy), Otto Kernberg (Object Relations Theory and Clinical Psychoanalysis).

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