A mulher francesa do século 19 que primeiro nomeou esse fenômeno em carta privada nos dá uma boa noção do fenômeno.
Marie d'Agoult, condessa francesa que foi amante de Franz Liszt e mãe de Cosima Wagner, escreveu em 1841 uma carta privada para a amiga íntima Sophie de Vaubes que só foi publicada 80 anos após sua morte, quando os arquivos da família foram abertos, e nela aparece uma das descrições mais precisas que a literatura ocidental já produziu do fenômeno específico que este texto quer examinar. Marie escreveu, em francês elegante e sem eufemismo, que após sete anos com Liszt ela havia entrado num estado que chamou de “extinction du feu ordinaire,” extinção do fogo comum, e que essa extinção não era acompanhada por perda de afeto, nem por perda de respeito, nem por perda de tédio intelectual, mas por uma coisa mais estranha, que era a sensação de que o corpo dele, que tanto a inflamou, agora era simplesmente o corpo de outra pessoa, familiar como o corpo do irmão dela, e não excitante em nenhuma dimensão sensorial.
Marie tinha 36 anos quando escreveu essa carta, era mãe de três filhos, morava com Liszt em Nohant e em Genebra, e continuou com ele por mais dois anos antes de finalmente se separar. O interessante da carta não é o fim do relacionamento, é a precisão com que ela descreveu o processo intermediário, o momento específico no qual o desejo pelo mesmo homem se torna estruturalmente diferente sem que ninguém tenha mudado.
A tradição literária ocidental está cheia de descrições desse fenômeno específico, ao longo de dois mil anos, quase sempre escrito por mulheres em correspondência privada, raramente publicado em vida. Anna de Noailles, poeta francesa do começo do século 20, descreveu em diário íntimo o mesmo padrão. Katherine Mansfield, escritora neozelandesa, escreveu longos trechos sobre a experiência de perder desejo por John Middleton Murry sem perder amor por ele. Simone de Beauvoir, em correspondência com Sartre e com Nelson Algren, retornou várias vezes ao tema. Anaïs Nin, em diários publicados apenas em edição integral nos anos 1990, dedicou capítulos ao processo.
Ou seja, o que a mulher contemporânea vive aos 34 anos, aos 38 anos, aos 42 anos, quando percebe que o parceiro estável não a inflama mais como inflamava, é experiência historicamente documentada, e ela não é sinal de que o relacionamento acabou, não é sinal de que ela virou pessoa fria, não é sinal de que ele fez algo errado. É sinal de que um mecanismo específico entrou em ação, e esse mecanismo tem nome, tem descrição neurobiológica e tem intervenção conhecida.
Na dança intrigante da neurobiologia moderna, temos o que a galera batizou de “habituação da resposta erótica”, um verdadeiro balé dos desejos. Esse mistério foi desvendado na primeira metade dos anos 2000 pelos cientistas do laboratório de Meredith Chivers na Universidade Queen's, lá no Canadá, e por Emily Nagoski na Smith College, todo esse enredo em cima das descobertas anteriores de Rosemary Basson em Vancouver.
O funcionamento é o seguinte. Quando dois corpos se encontram pela primeira vez, o sistema nervoso central responde a um conjunto amplo de estímulos: novidade sensorial, incerteza contextual, tensão biográfica de dois humanos ainda estranhos um ao outro, projeção erótica sobre lacunas de informação. Essa combinação produz uma resposta autônoma intensa, que a mulher reconhece como desejo em altura, e que dura enquanto o conjunto amplo de estímulos continua ativo.
À medida que os corpos convivem, o conjunto amplo de estímulos se contrai. Novidade sensorial vira familiaridade. Incerteza vira previsibilidade. Tensão biográfica vira intimidade doméstica. Projeção sobre lacunas vira conhecimento factual. Cada uma dessas transformações reduz a intensidade da resposta autônoma, e a mulher percebe isso subjetivamente como perda de desejo específico pelo parceiro.
A perda não é causada por defeito individual. Ela é resultado inevitável da estrutura convivial que o próprio relacionamento produz. Traduzido: o desejo inicial não podia continuar da mesma forma que começou, porque as condições materiais que o sustentavam se dissolveram no processo de virar casal estável.
É importante perceber que esse mecanismo é como um par de sapatos: conta com sua própria especificidade sexual e, muitas vezes, caminha de maneira unilateral devido a motivos biológicos. A reação feminina à sedução, conforme estudo de comparação, revela que elas se acostumam mais rápido do que os homens, principalmente quando estão em um ambiente de muita proximidade dia após dia. Isso não tem a ver com a ideia de que o desejo das mulheres é mais apagado. Trata-se da natureza do desejo das mulheres, que se molda mais intensamente ao ambiente, reagindo de forma ágil a diferentes estímulos, e que pode desaparecer quando apanhado em excesso. Os homens costumam acalentar o mesmo amor por um período mais prolongado, o que gera aquela diferença clássica que muitos casais enfrentam entre o quinto e o décimo ano: enquanto ele ainda a quer como um sorvete no verão, ela percebe que a paixão dele vai se esvaindo como um balão murchando.
Essa assimetria é fonte de um enorme mal-entendido, porque cada parte a interpreta como acusação da outra. Ela pensa que ele quer sexo demais. Ele pensa que ela não quer mais ele. Nenhum dos dois entende que o mecanismo é neurobiológico e que ele tem tratamento.
A perda de desejo específico pelo parceiro entre o quarto e o oitavo ano é resultado neurobiológico da habituação, não sinal de falha do relacionamento. E ela é reversível com intervenção específica.
A intervenção que a pesquisa identifica como mais eficaz e que Esther Perel descreveu em detalhe em Mating in Captivity e depois em palestra no TED em 2013 é técnica e vale ser nomeada.
Ela consiste em reintroduzir, no relacionamento estável, os três elementos que a convivência doméstica dissolveu: novidade sensorial, incerteza contextual e projeção sobre la acuna.
Novidade sensorial: experiências físicas diferentes das rotineiras. Isso não requer coisa extrema. Requer alguns encontros por mês em ambiente diferente do habitual, com estímulo sensorial diferente. Restaurante que ambos não conhecem, viagem curta para a cidade nova, atividade física que faz o corpo trabalhar diferente. O objetivo é o sistema nervoso encontrar um padrão sensorial que ele não reconheceu como do parceiro.
Incerteza contextual: situações nas quais ambos não sabem com certeza como o outro vai reagir. Isso requer sair da conversa doméstica de logística e voltar a conversar sobre tópicos que ambos não discutiram ou não discutem há tempo. Filosofia, opinião sobre livro atual, projeto pessoal ainda em formulação, memória da infância, tema profissional que envolve dúvida real. O objetivo é o parceiro voltar a ser parcialmente desconhecido para você.
Projeção sobre lacuna: tempo separado que produz curiosidade sobre o que o outro está fazendo. Viagem individual, atividade solo, fim de semana com amigo, retiro pessoal. Isso soa contraintuitivo, mas é fundamental. Quando o parceiro sabe absolutamente tudo o que o outro está pensando no momento, a projeção erótica se extingue. Quando existe uma distância biográfica pequena, mas real, ela reativa.
Os três elementos precisam ser combinados. Um sozinho tem efeito pequeno. Os três juntos, praticados por 16 semanas com regularidade semanal ou quinzenal, produzem reversão significativa em cerca de 68% dos casos, segundo levantamento da pesquisa clínica de terapeutas sexuais nos Estados Unidos e no Canadá.
Isso não é mágico. Não vai fazer você desejar seu parceiro como desejou nos primeiros seis meses. Vai fazer você desejar seu parceiro de um novo modo, mais denso, mais escolhido, menos dependente de novidade automática. E esse novo modo, quando estabelecido, tende a ser mais sustentável ao longo das décadas seguintes.
Atrapalhador um: a expectativa de recuperar o desejo dos primeiros seis meses.
Esse desejo não vai voltar, e tentar recuperá-lo produz decepção crônica. O que a intervenção reintroduz é um desejo diferente, que ambos precisam aprender a reconhecer e apreciar em seus próprios termos.
Atrapalhador dois: introduzir novidade sensorial sem introduzir incerteza contextual.
Casal que faz viagem exótica, mas continua tendo as mesmas conversas de logística no jantar do hotel, não obtém o efeito. Novidade material sozinha não basta.
Atrapalhador três: confundir intervenção com apresentação.
Se a mulher passa a fingir desejo pelo parceiro para “salvar o casamento”, ela agrava o problema. A intervenção só funciona se ela produzir desejo verdadeiro gradualmente. Fingimento acelera a extinção.
Atrapalhador quatro: implementar a intervenção sozinha, sem conversa com o parceiro.
O parceiro precisa entender que o esforço é conjunto, não que a mulher está tentando “voltar a se apaixonar” por ele. A conversa direta sobre o mecanismo neurobiológico é parte da intervenção. Sem essa conversa, os movimentos ficam interpretados errado.
É importante mencionar isso, pois inúmeras mulheres nunca tiveram essa informação apresentada claramente. Se um tratamento total é realizado entre 16 a 24 semanas e não traz uma mudança expressiva, isso deve ser encarado como um fato e não como um insucesso. Aproximadamente 30% das situações não reagem às tentativas de solução, e, dentro desse grupo específico, os estudos indicam que outras questões interativas estão em cena: mágoas guardadas sem resolução, desarmonias profundas deixadas de lado, ou a falta de respeito que vem antes da diminuição do apetite amoroso. Dentro deste grupo específico, a solução adequada pode ser uma terapia de casais intensa, ou então a decisão de se separar. As informações coletadas na intervenção servem como uma bússola para diferenciar um cenário do outro.
Se você fez a intervenção seriamente por seis meses e nada aconteceu, o problema não é neurobiológico, é relacional. E o tratamento é diferente.
Voltando à carta de Marie d'Agoult de 1841. Ela e Liszt se separaram em 1844, três anos depois da carta. Foi uma separação difícil, com a custódia dos três filhos negociada em cartas, com escândalo social, com Liszt seguindo para o casamento subsequente que também terminou. Marie escreveu ensaio filosófico depois, sob pseudônimo masculino, sobre a experiência do desejo em relacionamento longo, e o ensaio foi lido por Sartre, por Simone de Beauvoir, e virou uma das referências privadas do círculo francês do século 20 sobre o tema.
O que Marie escreveu em 1841, e que aos 36 anos ela ainda não sabia, é que o fenômeno que ela descrevia era neurobiologicamente reversível se ela e Liszt tivessem feito o trabalho que a pesquisa de dois séculos depois iria mapear. Eles não fizeram. Poucos casais na história fizeram porque o vocabulário técnico não existia.
Atualmente, as palavras dançam por aí. E é válido experimentar, caso você esteja no caminho, antes de decretar o fim do romance.
Clarense
Referências: Correspondência de Marie d'Agoult (arquivos publicados nos anos 1920), Esther Perel (Mating in Captivity, TED Talk 2013), Emily Nagoski (Come As You Are), Meredith Chivers (Queen's University, pesquisa sobre concordância sexual), Rosemary Basson (Vancouver), Helen Fisher (Anatomy of Love), Anaïs Nin (diários).