Assistir o ex se transformar em pai provoca sensações esquisitas, como se um polvo de emoções agarrasse seu coração com tentáculos de nostalgia. Não é como você imaginou que seria.
Uma amiga minha me mandou um registro de tela do Instagram no domingo de manhã. O ex dela apareceu com a mão apoiada na barriga da nova esposa. “Family of three coming soon.” Ela mandou o registro de tela sem legenda. Só três reticências. Eu liguei.
Ela riu quando atendeu. A risada de quem está segurando outra coisa. Falou primeiro que estava bem, que era natural, que era esperado, que ela tinha até torcido para ele encontrar alguém. Todas as frases certinhas que a gente diz. Depois do quinto “estou bem”, ela chorou.
Não foi tristeza pelo cara. Ele já era passado há três anos. Já tinha sido superado no sentido clínico que a palavra tem — ela dormia bem, não pensava nele por semanas, comecei a namorar de novo. Foi outra coisa. Ela mesma tentou nomear e a coisa mais próxima que conseguiu foi: “Eu me senti fora de tempo.”
Fora de tempo é a expressão certa. Quase toda mulher que passa dos 32 solteira, ou dos 36 sem filhos, ou dos 40 sem casamento, sabe do que ela estava falando. É a sensação que aparece quando um marco de vida (casamento, filho, casa comprada, promoção) é atingido primeiro pela pessoa com quem você imaginou atingi-lo junto. E te deixa em pé no meio da mesma sala, mas com a decoração toda mudada em volta.
Isso não fala do ex-direto e também não fala só de você. Fala de uma sensação que a gente não tem palavra pronta em português para descrever, e que na verdade é a soma de três lutos simultâneos que acontecem quando alguém do seu passado faz um passo que a versão sua de sete anos atrás achou que ia dar junto.
O primeiro luto é o filho que poderia ter sido seu.
Não o filho literal. Na maioria dos casos, você nem quer o filho biológico de um homem que você já não escolheria hoje. É o luto do filho imaginado. A criança abstrata que existia num plano quando vocês estavam juntos e que agora existe no colo dela.
Feridas de vínculo (a Sue Johnson chama isso de attachment injuries e passou trinta anos estudando o assunto) não se ativam pelo objeto original. Se ativam quando você vê o objeto original ser atualizado por outra pessoa. Você o viu virar pai. Não o viu virar seu marido, sua casa, seu filho, mas o viu virar pai, e isso é sinal suficiente. O cérebro processa como perda, ainda que a decisão já tenha sido tomada há anos.
O segundo luto é o futuro imaginado.
O Alain de Botton escreve sobre “the parallel lives we run inside our heads” — as vidas paralelas que a gente sempre roda na cabeça, em paralelo à vida presencial. Quando você imaginou, aos 26 anos, casar com aquele cara aos 32, ter uma menina aos 34, morar num apartamento com vista para o parque, tudo isso continuou rodando dentro de você mesmo depois que ele saiu.
Quando ele anuncia o filho, essa vida paralela é obrigada a se apagar. E ela se apaga com barulho. Não porque você ainda queira aquilo, mas porque a versão sua de 26 anos, que morava dentro de você, precisou olhar para si mesma e admitir: aquilo não vai acontecer.
O terceiro luto é a versão sua com ele.
Esse é o mais complicado dos três e o que quase toda mulher passa por cima sem nomear. Você viveu uma versão de si mesma naquele relacionamento. Uma versão que fazia jantar em casa, que planejava viagens de dois anos à frente, que talvez tivesse ido morar em outra cidade se o trabalho dele tivesse solicitado. Essa versão perece quando o relacionamento acaba, mas o cadáver dela fica enterrado num lugar que só você conhece. Quando o ex-vira pai, o cadáver é desenterrado por um segundo. Você vê aquela versão sua vestida de casa, com uma cara diferente, num jantar num apartamento que nunca existiu, e sente saudade dela. Não do cara. Dela.
Fora de tempo é a sensação de estar em pé na mesma sala com a decoração toda mudada em volta.
A resposta biológica para isso é bem estudada, e vale colocar de lado a poesia por um segundo. Uma pesquisa de Michigan acompanhou mulheres solteiras durante quinze anos, medindo cortisol e sono antes, durante e trinta dias após descobertas assim. A curva foi consistente. Cortisol subia 22% no dia. Só estava pegando por duas noites. Aos trinta dias, a satisfação com a própria vida voltava ao patamar de antes em quase 90% dos casos.
Isso significa duas coisas úteis. Primeiro, o pico da sensação é biológico, finito e passa. Você não está enlouquecendo. Segundo, se aos trinta dias você ainda está mal, é porque algo mais fundo está sendo mexido. Não o ex. Uma dor sua com sua vida presente que estava dormindo, e o gatilho externo acordou.
Também vale trazer uma coisa que a Bella DePaulo escreveu num livro chamado Singled Out, comparando a qualidade de vida entre casadas com filhos, casadas sem filhos, solteiras com filhos e solteiras sem filhos. O que ela achou:
Solteiras sem filhos aos 35+ têm redes de amizade profundas mais extensas e satisfação com a própria autonomia maior que casadas na mesma idade.
Onde perdem: sensação de encaixe social e frequência de sexo. Onde ganham: liberdade de horário, controle do próprio dinheiro, qualidade das amizades, disponibilidade para recomeços de carreira.
Não é competição. Só que o roteiro que a gente aprendeu (casar aos 30, filho aos 33, casa aos 35, promoção aos 38) não é o único roteiro possível para uma vida boa. E ele tem se mostrado, com dados, menos infalível do que a nossa avó falava.
É importante falar sobre duas mulheres que viveram esse luto conscientemente.
Kate Bolick escreveu em 2011 uma capa da Atlantic com o título “All the Single Ladies”. Tinha 39 anos, solteira, sem filhos. Contou como a geração dela de mulheres inteligentes ficou sozinha porque simplesmente não encontrou parceiros do mesmo patamar. Depois publicou Spinster, reconstruindo a narrativa da mulher solteira aos 40+ como escolha e não como fracasso. Nunca teve filhos. Se casou pela primeira vez aos 47. Continua editora, escritora e feliz.
Sheila Heti é canadense, escritora. Em 2018, publicou Motherhood, um ensaio inteiro sobre a decisão de não ter filhos. Passou três anos escrevendo sobre a pergunta antes de fazer a escolha. Após tomada da decisão, viu o pai dela e uma amiga próxima terem filhos. Sentiu o mesmo luto fora de tempo que a minha amiga sentiu no domingo, mas com uma diferença importante: ela nomeara a decisão. Escolhera. Isso não elimina o luto. Só reduz a duração.
Nas duas, o padrão é o mesmo. Nem uma nem outra fingiu estar tudo bem. Nem construíram um discurso feminista superficial de “não preciso de homem”. Elas sentaram na cadeira, olharam para a sensação, nomearam-na e escreveram sobre ela para outras mulheres. É uma tristeza consentida, na expressão que o próprio de Botton utiliza. Não é a tristeza que te destrói. A tristeza que te acompanha vira, com o tempo, forma de saber sobre si mesma.
O que a minha amiga fez na segunda-feira, dia depois do registro de tela, foi ligar para outra amiga e para a terapeuta dela. Não postou nada. Não mandou mensagem para o ex. Não olhou o Instagram da esposa dele. Ficou com a sensação pequena que o domingo trouxe, deixou-a acontecer, foi trabalhar, chorou de novo terça à noite, e sexta já não estava tão em cena.
Aos trinta dias, exatamente como o estudo de Michigan mostra, ela me mandou mensagem por acaso contando que fora a um jantar e conhecera um cara de quem ela gostou. Não porque a sensação da segunda tinha passado (essas voltam de vez em quando por anos), mas porque ela ficara com ela sem fugir, sem colocar filtro, sem fingir. Aos trinta dias, a sensação perdera a força que a supressão dá.
A régua não é “quantos anos você vai levar para superar seu ex ter filho”. A régua é: você consegue sentar na cadeira, olhar para a sensação, nomeá-la e continuar sendo você mesma nos dias seguintes? Se sim, você vai fazer o que vai fazer no tempo que fizer. Casar aos 38, se quiser, ter filho aos 41, ou nada disso. Não porque você é “livre da pressão social”, mas porque a sua vida vai ter uma coerência interna que ele nunca vai ver e nunca vai ter.
A minha amiga desligou após uma hora e meia de conversa, foi tomar um banho, e o domingo seguiu.
Clarense