Uma agonia que poucos se arriscam a chamar pelo nome, pois a responsabilidade vem como um raio.

Num jantar em casa de amigos numa noite de sábado, uma mulher de trinta e sete anos, casada há oito, estava sentada no sofá enquanto o marido dela contava, de novo, a história dele de quando quase perdeu o voo para Frankfurt em 2019. Ela já tinha ouvido essa história umas quarenta vezes, sabia cada pausa dramática, cada trocadilho, cada momento em que ele ia fazer a piada sobre o comissário de bordo, olhou para a mesa. Riu no momento certo. Ninguém percebeu.

No caminho de volta para casa, sozinha no banco do carona (ele dirigia), ela pensou uma coisa que a fez piscar duas vezes: “Adoro esse homem. E às vezes eu queria que ele fosse ligeiramente pior.”

Essa é uma frase que quase nenhuma mulher casada com um cara bom admite em voz alta. Porque parece ingratidão. Porque parece frivolidade. Porque parece que a mulher que sente isso é uma mulher que “não sabe reconhecer o que tem.” E porque, no imaginário coletivo, a mulher casada com um homem imperfeito está autorizada a reclamar; a mulher casada com um homem certinho está proibida.

Este texto é para mulheres casadas com homens certinhos.


Certinho geralmente descreve um homem que é gentil, é presente, é fiel, é responsável financeiramente, é bom pai (se tem filhos), respeita a carreira da esposa, faz o que promete, não bebe demais, não fuma, se exercita moderadamente, tem ambição controlada, tem passatempos previsíveis e é agradavelmente sociável nos ambientes que ele frequenta.

Cada uma dessas qualidades, individualmente, é uma bênção. Homens que não têm essas qualidades produzem casamentos infelizes, documentados em quarenta anos de pesquisa. O John Gottman, o Terry Real, a Sue Johnson, todos concordam que essas são as qualidades que sustentam casamentos longos.

O problema é que a soma dessas qualidades, quando muito consistente ao longo dos anos, produz uma coisa que não é falha da mulher perceber: previsibilidade extrema. E previsibilidade extrema, no contexto de intimidade sexual e emocional, corrói o desejo específico que faz você querer aquela pessoa em vez de qualquer outra.

É hora de trazer de volta a Esther Perel, pois ela oferece a visão mais luminosa sobre esse tema.


A tese central de Esther Perel, que ela desenvolveu em Mating in Captivity, é que segurança e desejo funcionam em direções contrárias no cérebro humano. Segurança precisa de previsibilidade, familiaridade, controle, transparência. Desejo precisa do oposto: novidade, mistério, algo não sabido, algo que ainda pode surpreender.

Ela não está dizendo que uma delas é melhor que a outra. Está dizendo que ambas convivem mal no mesmo relacionamento e que casais que sustentam desejo por décadas são casais que aprendem a introduzir doses controladas de novidade, mistério e imprevisibilidade dentro de uma estrutura fundamentalmente segura.

Homem certinho, do jeito que a gente descreveu no parágrafo acima, é ótimo em produzir segurança. É péssimo em produzir mistério. Não por falha dele. Por design.

E isso não é problema da mulher perceber. É um problema existente, com pesquisa por baixo e com soluções conhecidas.


Não é ingratidão sentir tédio ao lado de um homem bom. É neurobiologia funcionando exatamente como deveria.

A solução que a Esther Perel recomenda não é procurar outro homem. É trabalhar na relação existente em três direções específicas.

Reduzir intimidade cotidiana para reativar desejo.

Isso parece contraintuitivo. Parece que casais que passam mais tempo juntos deveriam se desejar mais. É o oposto. Casais que passam tempo demais juntos (que trabalham juntos, moram juntos, fazem lazer juntos, viajam juntos, têm amigos juntos, têm passatempos juntos) perdem alteridade. Ele vira previsível. Ela vira previsível. O desejo depende de continuar sendo outro, e ficar junto o tempo todo mata o outro.

Solução: cada um tem uma noite por semana com amigos próprios. Cada um faz uma viagem sozinho por ano, um tem um projeto que o outro nem entende bem.

Reintroduzir dimensões erotizantes que o casamento apagou.

Se ele era ambicioso quando você o conheceu e virou funcionário estável, a ambição precisa voltar de alguma forma. Se ele era espontâneo e virou agendado, a espontaneidade precisa voltar. Se ele era sexy para você por causa da forma como ele dançava, ou pintava, ou tocava violão, essas coisas precisam voltar a existir.

Você pode nomear isso para ele. “Eu senti falta de te ver naquela camisa preta que você usava em 2012.” “Eu queria que a gente saísse para enxergar como fazia antes.” Não é acusação. É solicitado específico.

Cultivar mistério verdadeiro, não performático.

Mulheres em casamentos longos frequentemente fazem mistério artificial (usam lingerie diferente, planejam surpresas românticas, mudam de perfume) e depois se frustram quando não funciona. Não funciona porque não existe. Real é ter uma parte de você que ele não controla, não conhece, não pertence. É voltar a estudar aquela coisa que você adiou, fazer terapia individual sem contar detalhes, começar aquele projeto que era só seu.

Ele vai perceber. E o desejo dele vai voltar.


Aqui cabe uma objeção antecipada: e se a gente já tentou isso e não funcionou?

Se você já fez esses três movimentos com honestidade por doze a dezoito meses e o desejo não voltou, aí você tem uma segunda pergunta pela frente. A pergunta é: o que quero desse casamento?

Algumas mulheres, honestamente, querem a estrutura de casamento com esse homem certinho e aceitam que o desejo específico não é o que está sustentando a coisa. Vão continuar tendo sexo respeitoso, boa companhia, criação de filhos juntos, envelhecimento juntos. Vão sentir tédio de vez em quando e vão passar por cima. Isso é uma escolha legítima. E funciona para muitos casais.

Algumas mulheres não conseguem sustentar casamento sem desejo específico, e nesse caso o casamento precisa mudar de forma (abertura conversada, redistribuição de tempo, quebra do padrão previsível) ou terminar.

Nenhuma das duas escolhas é um fracasso. As duas são possíveis. O que não é possível é fingir que a coisa está resolvida quando não está.


A mulher do jantar, no início do texto, dois anos depois daquela noite, me contou o que ela fez. Ela conversou com o marido sobre o tédio. Ele se assustou nos primeiros dias, depois entendeu, depois se envolveu, parou de contar as mesmas histórias. Começou a viajar de moto sozinho uma vez por mês. Ela começou a cozinhar tailandês numa aula noturna sem ele.

O casamento deles hoje é diferente. Melhor, ela diz. Não, porque o tédio nunca mais volte. Mas por que agora eles sabem o que fazer quando voltam?

Homem certinho é ótimo. Só precisa não virar previsível.

Clarense

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