Diversas miragens surgem ao longo do dia. E como evitar ser aprisionada em todas essas armadilhas.

Numa mesa de restaurante nos Jardins, num sábado à noite, ouvi uma amiga contar para outra a notícia. Ela falou baixo, do jeito que a gente fala coisas que teoricamente não importam, mas que a gente sabe que importam. O ex-casara. Ela viu no Instagram uma amiga em comum marcada numa foto da cerimônia numa fazenda em Itaipava. Vestido cor de champanhe, decoração leve, texto na legenda dizendo “os melhores.” Ele casou após dois anos com uma mulher que ele nunca conheceu, mais nova três ou quatro anos, com um sorriso desses que fica meio permanente nas fotos.

A amiga do lado dela ouviu em silêncio. Depois perguntou o que ela sentiu quando viu.

Ela respondeu com uma frase que talvez seja a mais honesta que uma mulher pode dar nesse caso: “senti três coisas ao mesmo tempo, e nenhuma delas era coisa que eu queria estar sentindo.”


'Era eu que sabotava'.

O casamento dele com outra pessoa aciona automaticamente a hipótese de que o problema era ela. Se ele conseguiu com a nova, se ele conseguiu propor casamento em dois anos com alguém que ele conheceu já com trinta e sete anos, isso deve significar que ela tinha alguma coisa errada. Um jeito, um comportamento, uma rigidez, uma exigência que ela nunca ouviu direito.

Essa é a leitura mais fácil e a mais errada. O que a pesquisa sobre relacionamentos sérios há trinta anos mostra (a Helen Fisher tem os dados mais consistentes sobre isso) é que a mesma pessoa se comporta de formas completamente diferentes com parceiros diferentes. Não porque ela é falsa. Por o relacionamento ser um ecossistema, o mesmo ser humano vira versões distintas de si mesmo em ecossistemas distintos. Você não era o problema. Vocês dois juntos criavam um determinado ecossistema, e nesse ecossistema, esse casamento específico não ia acontecer. Isso não é o mesmo que dizer que você fracassou.

'Ele mudou por causa dela.'

A versão romântica da mesma armadilha. A ideia de que a mulher nova conseguiu tirar dele algo que você não conseguiu. Uma capacidade de compromisso. Uma maturidade. Uma disposição para construir.

Também errado.

Ele não mudou por causa dela, mudou porque estava em outro momento da vida dele. O Terry Real, num livro chamado Us, tem uma observação técnica sobre isso: homens entre 35 e 42 anos que passaram por um relacionamento importante, por uma separação e por dois ou três anos de reflexão frequentemente chegam a um ponto de amadurecimento emocional que eles simplesmente não tinham antes. A mulher nova pegou-o nesse ponto. Você pegou antes desse ponto. Não porque você foi menor. Porque o timing era outro.

Isso não é consolo emocional barato. É diagnóstico técnico. E libera você da versão sua que fica dizendo “o que eu tinha de errado”, sendo a versão sua mais tóxica que aparece nessa hora.

'Era a hora'.

A mais insidiosa. A ideia de que a mulher nova estava na idade certa, no momento certo, e por isso mereceu o casamento. Você perdeu o timing. Que a sua janela passou.

Esse mito específico (o da “janela certa”) tem sido rebatido por dados há pelo menos vinte anos. A Bella DePaulo, que passou décadas estudando a diferença entre mulheres solteiras e casadas em qualidade de vida, mostra que a mulher que casa na “hora certa” (25–30 anos) tem taxa de divórcio maior que a mulher que casa depois dos 33. A casa que, depois dos 35, tem maior estabilidade emocional, maior controle financeiro e maior satisfação com o casamento maior.

Não é que a janela passou. É que a janela nunca foi janela. Foi um roteiro cultural que a gente confundiu com timing biológico.


Nenhuma dessas três ilusões é a verdade. Todas elas parecem verdade no domingo de manhã.

É importante saber que essas três ilusões acontecem no mesmo dia. Todas parecem verdadeiras no domingo, após olhar o post. Isso não significa que você está ficando louca ou sendo severa consigo mesma. Isso mostra que o cérebro humano, ao ver uma pessoa do passado alcançar algo importante, faz uma comparação automática. Essa comparação vem de nossa evolução.

O jeito de não ficar presa nessas três é nomear cada uma quando aparecer. “Ah, está pensando 'era eu que sabotava' — isso não é verdade, é versão automática da minha cabeça.” “Está pensando 'ele mudou por causa dela' — não. Ele mudou por causa do tempo dele.” “Está pensando 'era a hora' — não. Não existe hora certa. Existem escolhas em momentos.”

A pessoa que faz esse exercício de nomear cada ilusão perde a intensidade delas em duas ou três semanas. A que não faz continua ruminando por meses.


Duas mulheres que valem a pena conhecer e que passaram por isso publicamente.

Cheryl Strayed, escritora americana, autora de Wild. Depois do divórcio, viu o ex-marido casar de novo relativamente rápido. Escreveu sobre isso num ensaio curto e desagradavelmente honesto chamado “The Truth That Lives There”. A frase dela: “The truth is, he found the woman for the man he became. I helped him become that man. That is my grief, and my inheritance.”

Nora Ephron, essa a gente já conhece. O ex-marido dela, Carl Bernstein, se casou e teve outros filhos depois do divórcio deles. A Nora escreveu Heartburn a partir dessa dor, mas o que aparece nas entrevistas dela nos anos 90 é uma coisa mais tranquila: ela dizia que o casamento dele com outra era uma prova de que ele estava fazendo o trabalho de crescer. Ela também estava. Só que separadamente.

Nas duas, o padrão é o mesmo. Nem uma nem outra fingiu estar tudo bem. Nem tentaram construir um discurso de “sou feliz solteira.” Elas nomearam, sentaram com o luto e continuaram fazendo o trabalho da vida delas.


A amiga da mesa do restaurante nos Jardins terminou a conversa com uma frase que prestei atenção: “Vou passar duas semanas ruins, e depois vai ficar bem.” Ela sabia o que estava vindo. Sabia que tinha três ilusões para atravessar. Sabia que não ia ser bonito. E sabia que ia terminar.

Duas semanas depois, mais ou menos, essa mesma amiga foi a um aniversário e conheceu um cara com quem está saindo até agora.

Clarense

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