Terminar um trabalho e não conseguir curtir a pausa até o próximo é sintoma popular nas sessões de terapia. Vamos falar sobre.

Mulher aos 33 anos, sentada no consultório da terapeuta numa quinta-feira à noite, meses após ter finalizado um projeto grande em que passou 18 meses, começa a conversa de modo aparentemente banal. “Eu não sei o que fazer comigo agora. Terminou o projeto, e eu deveria estar aproveitando esse tempo, mas estou entrando em pânico.”

A terapeuta, mulher em torno de 55 anos com formação psicodinâmica sólida, deixa passar um silêncio calibrado antes de responder. “O pânico chegou quanto tempo depois do projeto terminar?”

“Quatro semanas. As duas primeiras foram ótimas. Eu dormi, arrumei a casa, viajei um fim de semana. Da terceira em diante, começou a entrar isso. Uma coisa no peito. Vontade de já estar no próximo projeto. Angústia de estar sem plano.”

“E você tem tentado resolver como?”

“Comecei a olhar uma oportunidade nova. Marquei três reuniões com pessoas que talvez tenham projeto para mim. Comecei a esboçar dois ou três projetos próprios que eu podia começar. Nada me convence, mas eu não consigo parar de procurar.”

“Você já esteve nessa configuração antes?”

“Sim. Todos os intervalos entre projetos da minha carreira. Eu nunca fico bem em pausa. Sempre pulo para a próxima coisa antes de ter descansado direito. Meu marido sempre reclamou disso. Eu considerava ser personalidade. Agora estou achando que talvez seja outra coisa.”

A terapeuta anota alguma coisa. Depois, olha para ela e diz uma frase que muda o resto da sessão. “Isso é padrão psíquico específico, e ele tem nome. Você quer conversar sobre ele ou prefere continuar tentando resolver via novo projeto?”


Pesquisa em psicologia clínica sobre padrões de organização psíquica em profissional adulto, especialmente a que Christina Maslach fez em Berkeley ao longo dos anos 2000 e 2010, mostrou padrão específico. Existe configuração psíquica na qual a pessoa organiza a identidade adulta ao redor de projeto ativo em modo estruturante. Enquanto há projeto, a identidade funciona. Sem projeto, a identidade se desestabiliza, e a desestabilização produz ansiedade específica que a pessoa tenta resolver via engajamento imediato em projeto seguinte.

O padrão é comum em profissional urbano contemporâneo, e ele é significativamente mais comum em mulher profissional do que em homem profissional, por razões culturais específicas: mulher urbana contemporânea frequentemente formou identidade adulta principalmente por trajetória profissional (em oposição a gerações anteriores em que identidade era construída em outras dimensões), e a ausência de projeto ativo produz vazio identitário que homens da mesma geração experimentam de modo menos intenso.

O padrão tem três configurações principais.

Configuração um: pausa como ameaça existencial.

A pausa entre projetos é experimentada não como descanso, mas como interrupção da identidade adulta. Sem projeto, você não sabe quem você é. Sem plano, você não sabe para que serve o dia. A ansiedade que emerge não trata de nada específico, mas da própria existência sem estrutura de projeto para dar forma.

Configuração dois: descanso como culpa.

Quando você descansa, a culpa emerge em modo automático. Você deveria estar produzindo, deveria estar aproveitando, deveria estar avançando. A voz interna crítica opera em modo constante durante a pausa, e o descanso vira exercício de tolerar a crítica em vez de recuperação real.

Configuração três: aceleração compensatória.

Diante da ansiedade da pausa, você acelera em direção ao próximo projeto antes de ter processado o anterior. Aceita oportunidade que não faz sentido, começa projeto próprio antes de estar preparada, aceita colaboração que exige energia que você não tem. O próximo projeto vira analgésico da ansiedade da pausa, e o padrão se perpetua em modo cíclico ao longo dos anos.

As três configurações combinadas produzem o que Maslach chamou de “padrão de trabalho como regulação”, onde o trabalho serve a uma função psíquica que ultrapassa a função profissional, e a incapacidade de estar sem trabalho é sintoma técnico dessa função ampliada.


O custo cumulativo do padrão opera em quatro dimensões.

Dimensão um: exaustão crônica subclínica.

Sem pausa real entre projetos, o sistema nervoso opera em modo continuamente ativado ao longo dos anos. Isso produz exaustão que raramente atinge o nível de esgotamento clínico agudo, mas que opera ao nível subclínico contínuo. Sono superficial, dor de cabeça frequente, ansiedade difusa constante, dificuldade de concentração fora do modo projeto, imunidade reduzida. Cada sintoma pequeno é atribuído a uma causa específica, e o padrão cumulativo é raramente conectado à causa real.

Dimensão dois: erosão da qualidade dos projetos ao longo do tempo.

Projeto iniciado sem recuperação adequada do anterior começa com energia menor, e ao longo dos anos essa energia menor cumulativamente produz projetos qualitativamente piores do que os que a pessoa teria produzido com pausa adequada entre cada um. A pessoa não percebe a erosão porque ela é gradual, mas ela é mensurável em avaliação retrospectiva.

Dimensão três: relação amorosa em modo funcional.

Parceiro convive com pessoa em modo constantemente orientado por projetos, e a relação frequentemente vira contexto administrativo em vez de espaço de intimidade real. Isso produz uma distância emocional gradual que aparece em algum ponto (frequentemente entre os 5 e 15 anos de relacionamento) como uma crise específica na qual a pessoa não se conecta com o próprio padrão de trabalho.

Dimensão quatro: identidade pobre além do trabalho.

Sem experiência de estar em modo não-projeto ao longo dos anos, a identidade adulta se torna cada vez mais estreita, ligada exclusivamente à dimensão profissional. Isso produz vulnerabilidade específica em fase de aposentadoria ou em fase de interrupção forçada (doença, licença), quando a estrutura de projeto some e a pessoa se depara com uma identidade que não sabe como habitar.


É totalmente pertinente sugerir um esquema de três passos que desacelera o compasso de maneira mensurável, visto que a grande parte das conversas sobre “fazer uma pausa entre as atividades” se limita a ideias vagas, sem um planejamento definido.

Fase um: reconhecimento do padrão em modo específico. Duração de 2 a 3 semanas.

Antes de tentar mudar o padrão, é preciso reconhecê-lo conscientemente. Você registra em um caderno, durante 2 a 3 semanas de fase entre projetos, os pensamentos específicos que emergem de modo automático. “Eu deveria estar produzindo.” “Isso não vai durar.” “Preciso já estar procurando o próximo.” “Estou desperdiçando tempo.” “Que crise, o que eu estou fazendo com a minha vida.” Cada pensamento anotado com hora, contexto e resposta emocional que ele produz.

Ao longo de 2 ou 3 semanas, você reconhece o padrão objetivamente. Isso sozinho não resolve, mas produz distância crítica em relação aos pensamentos automáticos, sendo pré-requisito das fases seguintes.

Fase dois: construção de âncoras não-projeto durante a pausa. Duração: 4 a 6 semanas.

Você define, no início da fase entre projetos, um pequeno conjunto de atividades específicas que estruturam o tempo sem serem projetos. Não muitas, 3 ou 4. Exemplos: leitura literária estruturada de um livro por semana; caminhada de 45 minutos por dia em bairro específico; jantar em casa com amigo diferente uma vez por semana (voltando ao texto #92 desta série); prática somática específica (natação, ioga, dança) três vezes por semana.

As âncoras não são projetos porque não têm objetivo produtivo. Elas são estruturas temporais que dão forma ao dia sem exigir desempenho. Ao longo de 4 a 6 semanas de âncoras específicas, a ansiedade da pausa reduz de modo mensurável, porque a pessoa reconhece que existe modo de habitar o tempo que não seja modo de projeto.

Fase três: extensão deliberada da pausa entre projetos ao longo dos anos. Aplicação estrutural permanente.

Após aplicar as fases 1 e 2 em duas ou três pausas consecutivas, você reformula estruturalmente a relação com o projeto. Regra prática: entre projeto grande e projeto grande seguinte, mínimo de 8 semanas de pausa completa, sem começar nada estruturado. Isso não é preguiça, é infraestrutura psíquica de longo prazo.

Ao longo de 2 ou 3 anos aplicando essa regra, o padrão original se transforma em modo mensurável. A ansiedade da pausa se atenua. A qualidade dos projetos que você aceita melhora (porque você tem energia para escolher bem). A relação amorosa se restaura. A identidade se amplia.


Incapacidade de estar entre projetos sem entrar em pânico é padrão psíquico específico com nome, mecanismo e protocolo de trabalho. Ele é comum em mulher profissional urbana contemporânea, e ele é feitível de transformar em modo mensurável ao longo de 12 a 18 meses.

É bom anotar, por fim, uma observação a respeito do tempo. Mudar a forma de “trabalho como regulador” é como trocar de roupa: mais simples entre os 30 e 40 anos, enquanto após os 45 se torna uma tarefa digna de malabaristas, pois aquele jeito de pensar moldado por duas décadas é mais flexível do que o que foi formatado ao longo de 35 anos.

Isso quer dizer que a mulher que identifica suas características aos 33 anos e se dedica a melhorar isso de forma planejada por 18 meses verá benefícios acumulados até os 60 anos, que serão bem mais significativos do que os ganhos de uma mulher que só percebe o mesmo padrão aos 52 anos e inicia seu esforço a partir daí. Não significa que aos 52 seja tarde demais; significa que aos 33 é significativamente mais eficaz.

Voltando à mulher da conversa inicial. A terapeuta nomeou o padrão como “trabalho como regulação identitária”. A mulher ficou em silêncio por 30 segundos e depois respondeu de modo simples. “Isso resume a minha vida inteira.” A sessão seguinte foi sobre a origem específica do padrão (mãe que também operava assim, pai que reforçou o padrão de modo culturalmente esperado, primeiros anos de faculdade em que se destacar em modo de projeto foi a estratégia principal de sobrevivência social). O trabalho ao longo de 15 meses de terapia estruturada, combinado com a aplicação do protocolo de três fases, produziu uma transformação, de modo que ela mesma reconheceu depois como “a mudança adulta mais importante da década”.

Se você reconhece em si o padrão descrito, saiba que ele tem nome, que ele é comum, que ele tem protocolo de trabalho específico e que o trabalho é realizável ao longo de 12 a 18 meses. Vale considerar. A fase entre projetos pode ser uma recuperação real, se você aprender a habitá-la de modo específico. E a diferença cumulativa ao longo dos anos, entre pessoa que aprendeu e pessoa que não aprendeu, é significativa.

Clarense


Referências: Christina Maslach (Berkeley, The Truth About Burnout; Understanding Job Burnout), Herbert Freudenberger (Burn-Out: The High Cost of High Achievement), Cal Newport (Deep Work; Digital Minimalism), Emily Nagoski (Burnout: The Secret to Unlocking the Stress Cycle), Anna Lembke (Dopamine Nation), Josh Cohen (Not Working: Why We Have to Stop).

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