Os três pontos de alta tensão que costumam levar ao rompimento de casamentos, segundo os dados coletados por John Gottman ao longo de quatro décadas, revelaram um padrão que se repete em qualquer canto do mundo.
Pesquisa longitudinal de John Gottman no Love Lab de Seattle, conduzida ao longo de 40 anos entre 1980 e 2020 com mais de 3.000 casais casados, cruzada com dados brasileiros da PNAD sobre divórcios entre 2010 e 2023, mostra que casamentos heterossexuais entre pessoas que casaram entre 25 e 35 anos apresentam três picos estatísticos de risco de divórcio ao longo da vida conjugal, e que esses picos são notavelmente consistentes independentemente de contexto socioeconômico, escolaridade, religião ou país. Os três picos são: entre o segundo e o terceiro ano de casamento, entre o sétimo e o nono ano de casamento, e entre o décimo quarto e o décimo sexto ano de casamento. Cada um desses picos tem causa específica identificada pela pesquisa, e cada um tem intervenção específica que reduz a probabilidade de quebra em cerca de 40% quando aplicada com antecedência.
O que faz esse dado ser interessante não é sua existência abstrata, é sua utilidade prática. Casais que sabem que os três picos existem, que reconhecem o próprio quando ele chega, e que aplicam a intervenção correspondente, atravessam cada um dos três momentos sem que o casamento quebre, mesmo em casos nos quais a tensão foi alta. Casais que não sabem, ou que sabem, mas não reconhecem o próprio momento, interpretam frequentemente a tensão como sinal de que o casamento acabou, quando na verdade era sinal de que o casamento estava numa fase previsível.
O primeiro pico, porque ele é o mais comum e o mais frequentemente mal interpretado.
Primeiro pico: entre o segundo e o terceiro ano de casamento.
Esse pico é responsável por cerca de 22% dos divórcios totais em casamentos com duração inferior a 30 anos. Ele acontece quando a fase inicial de encantamento termina e o casal descobre que o parceiro real difere do parceiro idealizado dos primeiros seis meses de namoro. A pesquisa em neurobiologia do apaixonamento, especialmente a que Helen Fisher conduziu no Kinsey Institute, mostra que o período neurobiológico do “estado apaixonado”, que envolve altos níveis de dopamina, norepinefrina e feniletilamina, dura tipicamente entre 12 e 24 meses. Depois desse período, o cérebro migra para um modo diferente de vínculo, envolvendo oxitocina e vasopressina, e a experiência subjetiva do amor muda substancialmente.
O casal que se casou nos primeiros 12 meses da relação vive tipicamente a transição neurobiológica já no casamento, e ela é sentida como “não sinto mais o que sentia por ele/ela”. Se essa transição é interpretada como sinal de erro na escolha do parceiro, ela produz crise. Se ela é reconhecida como transição normal, ela é atravessada sem crise.
A intervenção para o primeiro pico é uma conversa técnica sobre a transição neurobiológica, feita quando ela começa a se manifestar, tipicamente entre 18 e 30 meses de relação. Formato: “Estamos entrando na fase na qual o modo apaixonado inicial se transforma em modo de vínculo profundo. Isso é neurobiológico, não é sobre um de nós ter mudado. A relação vai sentir diferente agora, e isso é normal. Vamos investir em construir a próxima fase deliberadamente.”
Casais que fazem essa conversa e que investem deliberadamente na construção da nova fase, com viagens ocasionais, atividade compartilhada nova, exploração sexual continuada e conversa profunda regular, atravessam o primeiro pico sem crise em cerca de 78% dos casos, segundo dados de Gottman.
Segundo pico: entre o sétimo e o nono ano de casamento.
Esse pico é responsável por cerca de 34% dos divórcios totais, sendo o mais estatisticamente relevante dos três. Ele acontece quando a rotina doméstica se instalou completamente, quando os filhos, se existem, estão em fase de demanda intensa (creche, escola, atividades), e quando a curva de aprendizado sobre o parceiro se platôou. A pesquisa em psicologia matrimonial mostra que o cérebro humano é bom em novidade e mau em previsibilidade prolongada, e que casais entre o sétimo e o nono ano de casamento experimentam tipicamente um pico de sensação de rotina que muitos interpretam como fim do amor.
A verdade neurobiológica é mais precisa. Não é o fim do amor, é o fim da estimulação de novidade. E a estimulação de novidade pode ser reintroduzida com intervenção deliberada.
A intervenção para o segundo pico é o que Esther Perel chamou de “introduzir distância na fusão.” Isso significa três coisas específicas.
Primeiro, cada parceiro precisa desenvolver ou retomar interesse individual próprio, atividade ou projeto que não envolva o outro. Isso reintroduz espaço biográfico não compartilhado que era a fonte original da curiosidade um pelo outro. Segundo, o casal precisa introduzir experiências novas juntos, mesmo pequenas, com regularidade. Restaurante novo por mês, atividade física nova por semestre, viagem inesperada por ano. Terceiro, o casal precisa investir tempo estruturado em conversa sobre tópicos que não são de logística doméstica.
Casais que fazem essas três coisas por seis a doze meses reduzem drasticamente a intensidade da sensação de rotina e atravessam o segundo pico sem crise em cerca de 64% dos casos.
Terceiro pico: entre o décimo quarto e o décimo sexto ano de casamento.
Esse pico é responsável por cerca de 18% dos divórcios totais e é o menos discutido dos três. Ele acontece quando os filhos, se existem, estão em fase de adolescência ou no início da vida adulta, quando a mulher frequentemente está em transição hormonal (pré-menopausa ou menopausa inicial), quando os pais dos dois cônjuges frequentemente estão em fase de demanda de cuidado, e quando cada cônjuge está fazendo balanço interno sobre a segunda metade da vida.
A combinação dessas variáveis produz estresse específico que a pesquisa chamou de “midlife squeeze”, ou compressão de meia-idade. O casal está sob pressão simultânea de várias frentes, e a energia disponível para a manutenção do próprio casamento diminui significativamente. Nesse contexto, pequenos ressentimentos acumulados nos anos anteriores frequentemente emergem, e conflitos que teriam sido pequenos em outra fase viram grandes.
A intervenção para o terceiro pico é diferente das duas anteriores porque ela é mais estrutural. Ela envolve quatro coisas.
Primeiro, reconhecimento explícito da fase pelos dois cônjuges, com conversa técnica sobre a compressão de meia-idade e sobre por que a relação está mais tensa. Segundo, redivisão explícita de responsabilidades familiares com base nas capacidades atuais de cada um, sem assumir que a divisão de dez anos atrás ainda serve. Terceiro, terapia de casal preventiva, mesmo antes de crise clara, como investimento estrutural. Quarto, projetos comuns para a próxima década, que dão sentido de futuro compartilhado além da fase de criação de filhos.
Casais que fazem essas quatro coisas atravessam o terceiro pico sem crise em cerca de 58% dos casos.
Casamentos que quebram frequentemente quebram em um dos três picos estatísticos previsíveis. Reconhecer o próprio momento e aplicar a intervenção correspondente reduz o risco em cerca de 40% em cada pico.
Há também três coisas gerais que reduzem o risco em todos os três picos, porque elas são complementares às intervenções específicas.
Prática regular de gratidão explícita.
Casais que se agradecem verbalmente em algum momento cotidiano, tipicamente uma vez ao dia, com especificidade sobre o que estão agradecendo, apresentam índices de satisfação matrimonial significativamente maiores em pesquisas longitudinais. Isso não trata de desempenho, mas de manter viva a percepção de que o outro contribui para a vida diária.
Manutenção de sexualidade ativa mesmo em fases de baixa intensidade.
Casais que mantêm contato sexual regular, mesmo em versão modesta, atravessam os três picos com muito menos risco de divórcio do que casais que interrompem completamente. Não trata de frequência ideal, mas de continuidade mínima.
Preservação de amizades individuais fora do casamento.
Casais em que cada cônjuge mantém rede de amizades própria, sem depender exclusivamente do outro para a vida social e emocional, apresentam resiliência maior nos três picos. Rede externa oferece contexto de comparação saudável e absorve parte do peso emocional que o casamento sozinho não deveria carregar.
Vale trazer também a objeção óbvia. Alguém pode dizer: mas se meu casamento está no meio de um dos picos e a crise está grave, essas intervenções são suficientes? Não deveria ser divórcio?
A resposta é técnica. As intervenções descritas neste texto não substituem terapia de casal profissional em casos de crise real. Se você reconhece que está em um dos três picos e a situação é grave, a intervenção mais importante é procurar terapia especializada rapidamente. As três intervenções descritas são preventivas ou complementares à terapia, não substitutivas.
E há casos em que divórcio é a resposta correta, mesmo em pico previsível. Nem todo casamento deve sobreviver aos picos. Alguns casamentos revelam, nos picos, incompatibilidades profundas que estavam mascaradas antes, e o divórcio é uma decisão adulta correta.
A questão é ter clareza sobre qual dos dois casos é o seu. Casal em pico previsível com estrutura relacional fundamentalmente boa deve investir nas intervenções e sobreviver. Casal em pico previsível com estrutura relacional fundamentalmente ruim precisa decidir sobre divórcio com clareza técnica. Terapia de casal ajuda a distinguir ambos os cenários.
É válido anotar uma informação que diversas pessoas ainda desconhecem. Duplas que enfrentaram as três montanhas desafiadoras e passaram pelos 20 anos iniciais de matrimônio exibem uma porcentagem de separações bem mais baixa quando olhamos para o intervalo de 20 a 40 anos de união. Quer dizer que as duas primeiras décadas de vida são como um passeio de montanha-russa, cheias de altos e baixos arriscados! Após esse período, a união amorosa costuma encontrar seu porto seguro em uma forma solidificada.
Isso não significa que casamentos com mais de 20 anos não têm crise. Significa que a probabilidade de divórcio decai substancialmente depois desse período. E significa que investir intensamente nos primeiros 20 anos, com atenção aos três picos, produz retorno estrutural para as décadas seguintes.
Como identificar em qual pico você está, na prática?
Se você e seu parceiro estão há 2 ou 3 anos de casamento e a relação está sentindo diferente do início, você está no primeiro pico. Aplique a intervenção correspondente.
Se você e seu parceiro estão há entre 7 e 9 anos de casamento e a rotina está pesada, você está no segundo pico. Aplique.
Se você e seu parceiro estão entre 14 e 16 anos de casamento e o estresse geral está alto, você está no terceiro pico. Aplique.
Se você está em nenhum dos três, mas percebe tensão real, isso pode ser sinal de outra coisa que merece investigação específica. Vale conversar com um terapeuta de casal para diagnóstico técnico.
Voltando ao dado inicial. Os três picos estatísticos de risco de divórcio são previsíveis e são atravessáveis com intervenção específica em cada um. Casamentos que quebram quebram frequentemente por falta de reconhecimento do pico em que estavam, não por falta de amor entre os dois.
Se você está casada há 3, 8 ou 15 anos, percebe tensão que parece maior do que faz sentido, considere seriamente que você está em um dos picos previsíveis. Aplique a intervenção correspondente de 6 a 12 meses antes de concluir que o casamento acabou. E se, depois desse período, a situação não melhorar, procure terapia especializada para a decisão adulta baseada em dados, não em emoção da crise.
Clarense
Referências: John Gottman (The Seven Principles for Making Marriage Work, The Relationship Cure, What Predicts Divorce?), Helen Fisher (Why We Love, Anatomy of Love), Esther Perel (Mating in Captivity, The State of Affairs), Terri Orbuch (5 Simple Steps to Take Your Marriage from Good to Great), Susan Johnson (Hold Me Tight), PNAD IBGE 2010–2023.