Um giro fascinante na esfera da sexualidade feminina que as mídias deveriam explorar com mais afinco.

Uma amiga minha de 37 anos, casada há oito, me disse numa conversa numa noite qualquer: “Comecei a fazer sexo diferente há uns dois anos. Não sei explicar o que mudou. Só sei que eu me importo muito menos com o que ele acha, e por causa disso gosto muito mais.”

Ela não é isolada. Ela está descrevendo uma coisa que a Emily Nagoski, doutora em saúde sexual e autora de Come As You Are, descreve com precisão técnica: a transformação da experiência sexual feminina que acontece, em média, entre 33 e 42 anos. É que é radical o suficiente para ser considerada uma segunda puberdade.


A narrativa dominante: mulher tem pico sexual aos 20 anos (com o pico estético, energia máxima, corpo firme), e a partir daí a vida sexual entra em declínio gradual. A mulher de 40 anos tem “menos” sexo, “pior” sexo, sexo “que precisa ser cultivado” ou “que exige esforço.”

A pesquisa científica dos últimos vinte anos mostra o contrário. Mulheres reportam satisfação sexual crescente entre 30 e 45 anos, com pico entre 38 e 42, seguido de declínio real apenas depois dos 55–60 (e mesmo esse declínio é hormonal, não experiencial).

O que mudou é o entendimento sobre o que é “melhor” sexo. E o que muda em mulheres depois dos 3?


O que muda biologicamente é útil saber porque explica muita coisa.

Mudança hormonal específica.

Entre 32 e 42 anos, a proporção de estrogênio para testosterona se altera na mulher. Testosterona, que era relativamente mais baixa na juventude, começa a subir em proporção. Estrogênio começa a oscilar.

A testosterona é o hormônio principal responsável pela libido feminina. Não é hormônio masculino. É um hormônio humano que aparece em diferentes proporções entre homens e mulheres. Quando a proporção sobe na mulher (acontecendo naturalmente depois dos 32–35), a libido dela sobe.

Isso significa: mulher de 38 anos frequentemente tem mais desejo espontâneo, mais interesse por sexo, mais fantasia do que tinha aos 25, é biológico.

Dessensibilização da aprovação social.

Aos 25 anos, muitas mulheres fazem sexo parcialmente para performar, agradar, sinalizar competência sexual. Isso é desempenho treinado culturalmente. Ela atrapalha o próprio prazer.

Aos 35–40, essa atuação começa a se dissolver. A mulher passa a saber melhor do que gosta, tem menos vergonha de solicitar, tem menos investimento em “parecer boa de cama”. E, curiosamente, o sexo fica melhor.

A Emily Nagoski chama isso de “arrival at your own sexuality” (chegada à sua própria sexualidade). Levou entre uma e duas décadas para sair do modo performativo e chegar ao modo experiencial.

Consolidação do que é chamado de “responsive desire” em relação ao “spontaneous desire”.

A mulher jovem frequentemente experimenta desejo espontâneo (a vontade aparece, você quer sexo). Mas mulheres em relacionamentos longos, especialmente depois dos 32–35, experimentam mais desejo responsivo: a vontade aparece em resposta a estímulo, contexto, ativação.

Isso não é declínio. É uma configuração diferente. E ela funciona bem se a mulher e o parceiro entenderem.


O sexo que muda depois dos 35 não é declínio. É chegada. A mulher chega no próprio corpo depois de anos performando com ele.

Se você e seu parceiro estão em casamento há dez ou quinze anos e você percebe que sua sexualidade está mudando, três ajustes concretos ajudam.

Comunicar em vez de esperar que ele adivinhe.

A mulher que descobriu que gosta de coisas específicas aos 37 (que não gostava aos 27, ou que não sabia que gostava) precisa comunicar isso. Não como acusação (você nunca me fez X). Como solicitado, concreto (descobri que gosto de Y; quero incluir isso).

Casais com dez anos ou mais frequentemente entram em piloto automático sexual. Cada um repete o que sabe que funciona para o outro. O problema: o que funcionava aos 27 pode não funcionar aos 37. Comunicação explícita reabre a coisa.

Transitar de sexo espontâneo para sexo agendado.

Isso não soa sexy. É a intervenção com maior retorno documentado em pesquisa sexual de casais longos.

Casais que dependem de desejo espontâneo (ambos com vontade ao mesmo tempo, sem planejamento) frequentemente têm sexo cada vez mais espaçado após dez anos juntos. Casais que agendam (uma noite específica por semana, protegida contra interferência) frequentemente têm sexo mais frequente e melhor.

Isso porque desejo responsivo (o modo que aparece na mulher depois dos 35) precisa de contexto. O contexto agendado permite ao corpo entrar em modo receptivo. Sexo espontâneo depende do modo receptivo já estar ativado, o que raramente acontece na vida cotidiana adulta.

Aceitar que a experiência muda e não é comparável com a dos 20.

Muitas mulheres em casamento longo aos 38 comparam o próprio sexo atual com o dos primeiros dois anos com o parceiro. Isso é uma comparação inválida. Nos primeiros dois anos, havia dopamina de novidade dominando tudo. Aos oito anos, essa dopamina se converteu em outra química (ocitocina, apego).

O sexo aos oito anos não é pior. É diferente. Ele pode ter menos intensidade química inicial e mais intimidade profunda. Se você comparar as duas coisas na escala errada, aos oito anos parece perda. Se você comparar em escala apropriada (satisfação total, conexão, prazer real), muitas vezes aos oito anos é ganho.


Vale abordar uma coisa que a Emily Nagoski documenta e que quase nenhuma revista feminina brasileira publica.

Mulheres depois dos 35 frequentemente têm mais orgasmos, mais fortes e mais consistentes do que tinham aos 25.

O motivo é biológico e cultural combinado. Biológico: a mudança hormonal favorece a resposta sexual. Cultural: a mulher parou de performar, começou a solicitar o que gosta e o parceiro adaptou.

Isso não é retórica antideclínio. É observação de pesquisa consistente. A mulher aos 38 que tem parceiro atento, comunicação sexual clara, configuração de casamento razoavelmente estável, reporta frequentemente os melhores anos sexuais da vida dela.

Isso não é secreto. Só não é o que a cultura popular divulga.


Uma última coisa vale registrar sobre essa transformação. Ela não é automática.

Ela acontece em mulheres que fazem trabalho consciente com a própria sexualidade nesse período. Terapia sexual, se necessário. Comunicação com parceiro. Curiosidade sobre o próprio corpo (o que continua sendo prazer, o que mudou, o que apareceu). Investimento em contexto (agendar, cuidar do ambiente, prestar atenção nas condições que produzem receptividade).

Mulheres que não fazem esse trabalho, e que apenas assumem que “estão perdendo libido” ou que “não é mais como era”, terminam de fato com vida sexual empobrecida aos 45. Não porque a biologia forçou. Porque a interpretação cultural venceu a biologia.

A minha amiga do começo do texto fez o trabalho ao longo de dois anos. Ela leu Emily Nagoski. Falou com o marido. Passou por terapia sexual com ele por seis meses. Aos 37, ela relatou ter chegado a um tipo de sexo que ela não sabia que existia aos 27.

A mudança está disponível. Só precisa ser reconhecida e cultivada.

Clarense

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