A perimenopausa começa aos 35, não aos 50, e ela pode explicar muita coisa que a mulher entende ser “estresse.”

Quarenta e cinco por cento das mulheres brasileiras entre 38 e 45 anos relatam fadiga crônica em pesquisa nacional de saúde. Não é fadiga pontual. Não é “cansei porque trabalhei muito.” É fadiga baseline que aparece mesmo com sono, com boa alimentação, com exercício, com organização de vida. E que geralmente é atribuída a “estresse”, “sobrecarga”, “estar puxando muito peso”.

Quase nenhuma dessas mulheres suspeita da causa real, que na maior parte dos casos é hormonal. E a razão de não suspeitar é cultural: a medicina brasileira raramente identifica perimenopausa antes dos 45 anos, e quase nenhuma mulher é orientada a considerar essa hipótese antes de aparecer sintoma clássico (ondas de calor, ciclo irregular).


Vamos lá, é hora de desbravar o que realmente significa perimenopausa, já que a maioria das pessoas parece estar mais perdida que cego em tiroteio quando o assunto surge.

Perimenopausa é o período de transição hormonal que precede a menopausa. Menopausa é o ponto (uma data específica) no qual a mulher passou doze meses sem menstruar. Perimenopausa é a fase de flutuação hormonal que precede esse ponto, e que pode durar entre cinco e quinze anos.

Isso significa: mulher que vai entrar em menopausa aos 51 anos (média brasileira) começou a perimenopausa por volta dos 40. Mulher que vai entrar aos 47 começou por volta dos 36. É comum começar cedo, comum durar mais de dez anos.

E os sintomas perimenopausais não são só ondas de calor (as quais são as únicas que a cultura popular conhece). Ondas de calor aparecem geralmente tarde na perimenopausa. Antes delas, aparecem outras coisas.


Os sintomas perimenopausais precoces são mais sutis e frequentemente confundidos com “estresse da vida adulta.” Vale conhecê-los.

Fadiga baseline elevada.

Você acorda cansada mesmo após dormir bem, chega em casa às 19h sem energia para fazer nada, sente que precisa de café constantemente. Sábado à tarde, você quer só deitar.

Isso é frequentemente hormonal, não comportamental. Estrogênio em declínio produz redução de produção de neurotransmissores relacionados à energia (dopamina, serotonina). E a redução de estrogênio afeta a função tireoidiana, amplificando a fadiga.

Alteração de sono, mesmo mantendo horários.

Você dorme, mas o sono é raso. Acorda várias vezes. Acorda entre 3h e 5h com sensação de calor ou ansiedade. Não consegue voltar a dormir facilmente.

Isso é progesterona caindo. Progesterona é o hormônio calmante feminino. Quando ela cai, o sono perde profundidade.

Alteração de humor difusa.

Você fica irritada com coisas pequenas. Chora com facilidade em situações que não solicitavam choro. Sente ansiedade sem gatilho claro. Sente-se “estranha consigo mesma” sem saber por quê.

Isso é oscilação de estrogênio. Estrogênio afeta receptores de serotonina. Quando ele oscila, o humor oscila.

Nevoeiro mental.

Você esquece palavras. Perde o nome de pessoas conhecidas. Pisa em ovos com tarefas mentais que antes fazia rápido. Sente que “não está tão afiada.”

Isso é hormonal também. Estrogênio protege a função cognitiva. Quando ele oscila, a cognição oscila.

Mudança no libido e no ciclo menstrual.

Libido pode aumentar ou diminuir (varia). Ciclo pode ficar mais curto ou mais longo. Pode ter sangramento de padrão diferente.

Ganho de peso na barriga.

Não é preguiça. É redistribuição de gordura por mudança hormonal. Gordura antes armazenada em quadril e coxa passa a se armazenar em abdômen.


A fadiga persistente em mulheres entre 35 e 48 anos é frequentemente o primeiro sintoma perimenopausal, não estresse. E ela é tratável.

Se você bate quatro ou mais dos seis sintomas acima com persistência de mais de três meses, vale a pena fazer investigação hormonal.

O que investigar (mínimo):

  • FSH (hormônio folículo-estimulante)
  • LH (hormônio luteinizante)
  • Estradiol
  • Progesterona
  • TSH e T4 livre (tireoide)
  • DHEA-S
  • Testosterona total e livre
  • Vitamina D
  • Ferritina
  • B12

Isso é um painel básico. Ginecologista atualizada em perimenopausa vai solicitar todos. Ginecologista tradicional talvez peça só FSH, o que é insuficiente. Se sua ginecologista atual não solicita painel completo diante de sintomas persistentes, vale a pena procurar uma segunda opinião.

O que fazer com os resultados.

Se os resultados comprovam perimenopausa (FSH elevado, estradiol oscilante, progesterona baixa), você tem opções documentadas de tratamento.

Terapia de reposição hormonal (TRH): a intervenção com maior retorno documentado em pesquisa longitudinal. Reduz fadiga, ansiedade, ondas de calor, protege contra osteoporose e demência tardia. Foi injustamente demonizada nos anos 2000 por um estudo mal interpretado. A pesquisa dos últimos vinte anos mostra que ela é segura e eficaz para a maioria das mulheres, especialmente se iniciada nos primeiros dez anos de perimenopausa. Discussão com ginecologista atualizada.

Suporte nutricional e de estilo de vida. Vitamina D adequada, magnésio, ômega-3, proteína suficiente (a maioria das mulheres brasileiras come proteína muito abaixo do necessário aos 40), exercício de força duas ou três vezes por semana (não só cardio), sono de qualidade.

Adaptação de rotina. Aceitar que você precisa de mais recuperação que aos 30 anos e organizar a vida em torno disso, não contra isso.


A Dra. Mary Claire Haver, em sua obra “The New Menopause”, menciona que a menopausa não é um fim, mas uma transformação, como uma borboleta que surge do casulo, convidando as mulheres a abraçar essa fase com novas perspectivas e um toque de leveza.

Ela diz: mulheres entre 35 e 50 anos são a demografia mais medicamente subatendida do sistema de saúde ocidental. Elas visitam o médico com sintomas persistentes, são frequentemente diagnosticadas com “estresse” ou “ansiedade”, são medicadas com antidepressivos ou ansiolíticos, e continuam mal. Porque a causa hormonal nunca foi investigada.

Quando é investigada, e quando o tratamento apropriado é dado, muitas dessas mulheres reportam recuperação de 60–80% dos sintomas em três a seis meses.

Isso não é medicina alternativa. É medicina baseada em evidência. Só é subutilizada.


Uma amiga minha de 42 anos passou por isso ano passado. Fadiga há dois anos tratada como “sobrecarga profissional.” Ela foi diagnosticada com “burnout leve” por um médico, tomou antidepressivo por seis meses sem melhora. Trocou de ginecologista. A nova solicitou o painel completo. Resultado: perimenopausa clara com estradiol muito oscilante.

Ela iniciou terapia de reposição hormonal. Em quatro meses, a fadiga que ela considerava ser “só a idade” reduziu drasticamente. Ela dormia bem. Trabalhava com energia. Voltou a treinar.

Ela me disse que a coisa mais irritante do processo foi ter passado dois anos achando que ela era o problema, quando o problema era hormonal e sempre foi tratável. Ninguém mencionou perimenopausa até ela mesma pesquisar.

É bom estar a par! Se a disposição está em baixa e você já passou dos 38, 40 ou 42 anos, talvez seu corpo esteja soltando fogos de artifício em sinal de alerta hormonal. Fazer uma investigação é como um foguete: veloz, econômico e, muitas vezes, transforma a situação de ponta-cabeça.

Clarense.

Compartilhar este post

Escrito por

Comentários