A Cristina casou com Fábio após sete meses de namoro, sem conhecer bem quem seria o futuro marido.

Cristina contou uma história para mim. Essa história me fez entender que há um jeito comum nas escolhas de amor das mulheres brasileiras que são competentes. Essas mulheres têm entre 32 e 42 anos. Nenhum livro que é famoso fala sobre isso sinceramente. A história dela era assim. Ela era chefe de marketing em uma empresa de tecnologia. Ela ganhava três vezes mais que a irmã mais nova. Ela tinha um apartamento próprio há seis anos. Sua carreira era forte e ela tinha amigos adultos que fez ao longo dos anos. Ela conheceu o Fábio em uma festa de aniversário de uma amiga que elas tinham em comum. Em três semanas, ela se apaixonou. Quatro meses depois, ela se mudou para a casa dele. Sete meses depois, eles se casaram. Fábio tinha 42 anos e era engenheiro civil. Ele perdeu três empregos nos últimos cinco anos. Fábio tinha uma filha adolescente de um casamento anterior. A relação com a filha era difícil. Ele também tinha dívidas, que achava “um pouco fora do controle, mas que dava para lidar”. Os amigos o achavam uma pessoa “intensa”. A família o via como “brilhante, mas complicado”. A irmã de Cristina, quando o conheceu uma vez, disse que ele era “vermelho absoluto e sério”.

Cristina me contou tudo isso rindo, com aquela mistura de leveza autoconsciente e desconforto por baixo que a mulher adulta reconhece imediatamente, e depois me disse a frase que dá o gancho para este texto: “sabe, eu sempre pensei que eu era imune a esse tipo de escolha. Tenho terapia há dez anos. Conheço meus padrões. Escolho um parceiro com cabeça. Mas aparentemente não. Aqui estou.” E ela fez um gesto para o café que estava tomando sozinha porque o Fábio ficara dormindo em casa naquela manhã após uma discussão que comecei às três da manhã.


Por que uma mulher competente aos 34 anos, com terapia longa, autoconhecimento significativo, rede social adulta, escolhe casar em sete meses com um homem em desorganização visível? A resposta óbvia, tipo “está desesperada para casar antes dos filhos ou antes que a idade avance”, é parcial e superficial. A resposta técnica é diferente, e ela vale ser detalhada.

A pesquisa em psicologia de escolha amorosa, especialmente a que Sue Johnson conduziu na Universidade de Ottawa e a que Stan Tatkin desenvolveu em Los Angeles nos anos 2010, mostra que mulheres com histórico de alto desempenho em contexto familiar de origem tendem a desenvolver o que Tatkin chamou de “rescue attachment style”, ou estilo de apego resgatador. Nesse padrão, a pessoa se sente competente, valorosa e ancorada na própria identidade, especificamente quando está fazendo trabalho de cuidado por alguém em dificuldade. E ela se sente sem função, quase invisível para si mesma, em relações com pares equivalentes que não precisam de resgate.

Ou seja, a mulher com apego resgatador não escolhe homem difícil por ingenuidade. Ela escolhe porque o homem difícil ativa a versão dela mesma que ela mais reconhece como sua identidade útil. Homem que já está resolvido não oferece esse espaço, e a mulher com apego resgatador se sente redundante em relação a ele.

Isso é técnico e é frequentemente inconsciente. E ele explica por que mulher inteligente, autoconhecida, com terapia há anos, ainda pode se ver noiva de homem em crise, sem entender exatamente como chegou ali.


É válido observar os trejeitos que a mulher com um jeito de salvadora costuma achar irresistíveis em um homem complicado, pois colocar nomes a esses sinais ajuda a se desvincular deles.

Sinal um: o homem parece brilhante, mas subutilizado.

Ele tem inteligência óbvia, mas não está utilizando-a para fazer coisa consistente. Tem carreira interrompida, projeto abandonado, potencial não realizado. Isso ativa na mulher com apego resgatador a fantasia de “eu vou ajudá-lo a chegar onde ele deveria ter chegado sozinho.” Essa fantasia é o gancho central do padrão.

Sinal dois: ele fala com intensidade sobre visão de futuro.

Homem em desorganização crônica compensa frequentemente a falta de execução com discurso intenso sobre projeto grande, plano transformador, ideia brilhante ainda por realizar. A intensidade discursiva confunde a mulher com apego resgatador, que a interpreta como sinal de que ele está prestes a “decolar”, quando, na verdade, a intensidade discursiva sem execução é justamente o sintoma do problema.

Sinal três: ele tem histórico de rupturas dramáticas.

Casamento anterior que terminou mal, emprego anterior que ele deixou por conflito com a chefia, amizade antiga rompida por desacordo, negócio próprio que fechou. Ele conta cada uma dessas rupturas de forma que ele é vítima ou vítima parcial. A mulher com apego resgatador ouve como sinal de que ele foi maltratado por várias pessoas, e ela vai ser a exceção que vai tratar bem. Na verdade, o padrão de ruptura dramática é sinal técnico de que a pessoa contribui para a ruptura e vai contribuir para a próxima.

Sinal quatro: a família dele o descreve com adjetivos ambíguos.

“Ele é uma pessoa muito especial.” “Ele é brilhante, mas complicado.” “Ele sempre foi assim, meio à parte.” “A gente o ama, mas…” Essas frases são código familiar para “essa pessoa é difícil de estar próximo, e nós desistimos de tentar mudar.” A mulher com apego resgatador ouve como convite para assumir o desafio que a família dele desistiu, e essa é justamente a armadilha.

Sinal cinco: ele te faz sentir profundamente vista nos primeiros encontros.

Homens em desorganização emocional frequentemente desenvolvem, como habilidade compensatória, capacidade excepcional de leitura emocional profunda nos primeiros meses de relacionamento novo. Eles enxergam nuance na parceria que outros não enxergaram. Isso produz sensação de “ninguém nunca me viu assim antes.” A sensação existe, mas o problema é que a leitura profunda dele é ferramenta de sedução relacional, não representação de intimidade adulta sustentável. Após casar, a capacidade de leitura frequentemente diminui, porque a função dela era garantir a relação, não sustentá-la.


Mulher competente não escolhe homem difícil por desespero. Escolhe porque homem difícil ativa a versão dela mesma que ela mais reconhece como identidade útil. Reconhecer isso é o começo da saída do padrão.

É interessante desvendar como o enlace com um homem complicado se instala devagarinho, como um doce que derrete na boca. Afinal, raramente uma mulher percebe o passo a passo dessa dança silenciosa enquanto acontece.

Os primeiros seis meses são frequentemente intensos e absorventes. Ele te vê profundamente; você o resgata sem perceber; os dois se sentem escolhidos por alguém que enxerga verdadeiramente o outro. A mulher com apego resgatador experimenta essa fase como “finalmente encontrei alguém que combina com quem eu sou de verdade.” E ela decide casar rápido, frequentemente antes de doze meses.

Dos meses sete a dezoito, começa a fase de crise operacional. Ele perde emprego novo, ou tem discussão feia com filho anterior, ou revela dívida maior do que ele havia mencionado, ou tem episódio de irritação que assusta um pouco. A mulher com apego resgatador ativa o modo resgate: reorganiza a agenda dela, empresta dinheiro, faz mediação com a família dele, cobre o custo emocional que ele não está conseguindo cobrir. E se sente útil, competente, valorosa.

Dos meses dezoito a trinta, começa o desgaste. As crises se repetem em padrão. Ela reorganiza cada vez mais a vida dela em torno das crises dele. Amiga próxima começa a comentar que ela parece cansada. Ela nota que a irritação dele se tornou mais frequente. Discussão às três da manhã começa a virar hábito. Ela ainda o ama; ela ainda acredita no potencial dele, mas ela dorme menos.

Aos três anos de casamento, muitas mulheres nesse padrão começam a se perguntar se cometeram erro. Aos cinco anos, o casamento tipicamente já teve alguma crise séria: divórcio ameaçado, terapia de casal iniciada, separação temporária. Aos sete anos, muitas mulheres estão divorciadas, exaustas, com dificuldade financeira acumulada e um pedaço grande da própria energia investida em resgate que nunca produziu resultado.

Esse é o custo do padrão. Ele é acumulativo, é mensurável e é largamente evitável se o padrão for reconhecido cedo.


Como reconhecer que você está no padrão, na prática, mesmo nos primeiros meses.

Sinal um: você está reorganizando a agenda dela por causa das crises dele.

Adiar reunião de trabalho por causa da situação dele com o filho. Cancelar viagem de amiga por causa da instabilidade financeira dele. Falta compromisso profissional para apoiar a decisão que ele precisa tomar. Se isso acontece três vezes nos primeiros seis meses, você está em modo de resgate e vale nomear.

Sinal dois: você fala menos sobre você em rodas sociais.

Reparou que, quando um amigo comum pergunta como está, você conta mais sobre ele do que sobre você? A conversa no jantar orbita mais em torno dos problemas dele do que dos seus projetos? Você está em modo de resgate, e o custo é que sua identidade adulta está sendo comprimida.

Sinal três: sua terapeuta está mostrando preocupação com sua energia.

Se sua terapeuta, após anos, começa a fazer perguntas sobre como você está se cuidando, ou observa que você parece cansada, ou pergunta se você está dormindo bem, escute com atenção. Ela está vendo desde fora o que você não está conseguindo ver desde dentro.

Sinal quatro: sua irmã ou melhor amiga expressou preocupação em algum momento.

Uma vez basta. Se uma pessoa próxima que te conhece bem expressou preocupação uma vez, mesmo com delicadeza, mesmo com riso disfarçado, mesmo com “não é da minha conta, mas”, vale considerar seriamente que ela está vendo um padrão que você não está.

Sinal cinco: você já o cobriu financeiramente mais de uma vez.

Empréstimo pessoal que virou não devolução. Aluguel pago por você “só neste mês.” Dívida grande dele que virou dívida de casal, apesar de ser dele. Se você cobriu duas vezes, você está em modo de resgate financeiro e o custo cumulativo será alto.


Como sair do padrão se você reconhecer que está nele?

Isso é o mais difícil de escrever, porque a resposta não é uniforme. Depende de quanto tempo faz, se há filho envolvido, se o parceiro está fazendo trabalho terapêutico próprio, quanto da própria vida foi comprometida no processo.

Alguns princípios gerais que ajudam.

Princípio um: terapia individual imediata para você.

Se você identificou apego resgatador, o trabalho pessoal precisa começar imediatamente, independentemente do que aconteça com o casamento. Sem esse trabalho, você vai repetir o padrão no relacionamento seguinte também.

Princípio dois: cessar imediatamente a cobertura financeira.

Se você cobre o custo dele, pare. Isso não é vingança, é economia. A cobertura financeira é o combustível principal do padrão, e cessá-la é a intervenção de maior retorno.

Princípio três: reintroduzir sua identidade fora do casamento.

Amizades individuais retomadas, projeto pessoal reativado, viagem solo agendada, tempo protegido para você. Você precisa ter território próprio para a decisão sobre o casamento ser feita a partir de um lugar de estabilidade, não de emergência.

Princípio quatro: dar prazo para ele fazer trabalho terapêutico próprio.

Se ele reconhece que precisa trabalhar em si, dar um prazo específico, tipo 12 meses, e critérios observáveis de mudança. Se ele não faz o trabalho, ou faz, mas não muda o comportamento, essa é uma informação clara.

Princípio cinco: aceitar que a separação pode ser a resposta certa.

Não como fracasso da mulher, mas como reconhecimento adulto de que o padrão precisa terminar. Mulheres que saem de casamento com marido difícil frequentemente relatam, dois anos depois, uma sensação de terem recuperado uma versão de si mesmas que perderam gradualmente. Essa recuperação vale mais do que a continuidade do casamento que corrói a identidade.


Voltando à Cristina do começo do texto. Ela e o Fábio se divorciaram catorze meses depois daquele café. O processo foi difícil; ela perdeu dinheiro, ela perdeu tempo, ela perdeu meses de sono. Mas ela voltou para a terapia, ficou dois anos sem se relacionar seriamente, e aos 37 anos começou a namorar um homem que ela descreve como “adulto, funcional, sem drama, quase entediante nas primeiras semanas, e agora eu percebo ser exatamente isso que eu precisava aprender a valorizar”.

Se você se reconhece você mesma neste texto, se você é uma mulher competente que se apaixonou intensamente por um homem em desorganização visível, se você já cobriu mais de uma vez, se você adiou coisa própria por causa de coisa dele, saiba que o padrão tem nome, tem causas técnicas nomeáveis, e ele é reversível com trabalho terapêutico consistente.

É bom sair do que é comum. Você deve saber que a parte de você que prefere um homem que cuida de si mesmo, em vez de um que precisa de ajuda, é uma parte que também tem valor. Essa parte pode parecer chata a princípio, mas merece existir. Aprender a valorizar a própria importância é uma das coisas mais importantes que uma mulher pode fazer. Isso ajuda muito nos próximos vinte ou trinta anos da vida dela.

Clarense


Referências: Sue Johnson (Hold Me Tight), Stan Tatkin (Wired for Love), Amir Levine e Rachel Heller (Attached), Melody Beattie (Codependent No More), Robin Norwood (Women Who Love Too Much), Ross Rosenberg (The Human Magnet Syndrome), Terrence Real (I Don't Want to Talk About It).

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