A situação remete a um joguinho de paquera, porém, cadê a evidência para sustentar isso?

Setenta e sete por cento das mulheres que descobriram, mais tarde, que seus parceiros estavam de fato flertando (ou traindo) com outra mulher, contaram nas entrevistas que sabiam há meses. Simplesmente não deixaram elas mesmas confessar saberem.

Esse dado vem de uma pesquisa longitudinal do John Gottman, que passou quarenta anos filmando casais em situação real e correlacionando comportamento inicial com desfechos posteriores. Ele chama esse fenômeno de denial of the obvious, negação do óbvio. E não é falta de inteligência. É uma reação psicológica coletiva do organismo para não desestabilizar a vida atual antes de estar pronto para desestabilizar.

Se você está lendo isso porque desconfia que o seu namorado está flertando com outra mulher, este texto não vai te ajudar a descobrir a verdade. Você já sabe. Ou pelo menos, o seu instinto já sabe.

O que este texto vai fazer é te mostrar o que a maioria das mulheres faz de errado quando chega nesse ponto, para você não repetir. É um anti-manual.


Erro número um: perguntar diretamente para ele.

O impulso natural é chegar e perguntar. “Você está flertando com fulana?” Isso não funciona por duas razões.

Primeiro, se ele está flertando, ele vai negar. Não porque seja monstro. Porque o cérebro humano, confrontado com acusação sem prova, mente automaticamente para proteger a relação. Ele nem precisa querer conscientemente mentir. O sistema faz isso sozinho.

Segundo, depois que você perguntou e ele negou, você fica sem ferramenta de investigação futura. Ele agora está avisado. Vai apagar rastros, vai calcular o comportamento e ter mais cuidado. Você desperdiçou sua única chance de ver como as coisas se comportam quando ele não sabe que você está vendo.

Erro número dois: procurar prova no celular.

Furar o celular parece a solução racional. É a menos.

Se você encontra a prova, você descobriu. Mas o que faz com a prova? Confronta-o com “eu vi as mensagens”? Isso quebra a base de confiança da relação de forma que, mesmo se ele parar de flertar, o relacionamento não sobrevive. Você sempre foi a que violou a privacidade dele. Ele sempre foi o que traiu. Ninguém sai bem.

Se você não encontra prova, você fica pior. Porque a ausência de prova não te tranquiliza. Só te faz pensar que ele apagou. Você começa a checar o celular semanalmente. Isso mata sua sanidade e não resolve nada.

Erro número três: perguntar para as amigas o que elas acham.

Amigas, mesmo bem-intencionadas, projetam. A amiga traída no último relacionamento vai te dizer que sim, ele está flertando, é claro. A amiga que ainda está no primeiro namoro vai te dizer que você está exagerando. Nenhuma das duas viu o que você viu. Nenhuma das duas conhece o namorado. Elas estão respondendo pelas experiências delas.

Consulte as amigas depois, se decidir agir. Não antes, para decidir.


O instinto raramente erra. A cabeça é que erra ao tentar convencer o instinto que ele está errado.

Então, o que fazer?

Primeiro passo: nomear internamente o que você está observando.

Sem julgamento. Só descrição. “Ele mudou o padrão de mensagens comigo; antes, respondia em 30 min, agora demora horas.” “Ele está mais presente no celular à noite do que antes.” “Ele mencionou a fulana três vezes em duas semanas sem contexto claro.” “Ele começou a ir mais à academia num horário diferente.”

Escreva isso no bloco de notas do celular ou num caderno. Não para confrontar. Para ter documentação da sua percepção.

Segundo passo: observar duas semanas em silêncio.

Não muda seu comportamento. Não faça cena, interroge ou olhe o celular dele. Só observa e adiciona ao bloco de notas.

Duas semanas são o tempo suficiente para distinguir o padrão de incidente. Se ele só teve um episódio estranho e volta ao normal, é um incidente. Se o padrão se mantém e se consolida, é padrão.

A Esther Perel diz que um padrão sustentado por mais de três semanas de atenção parcial do parceiro sinaliza que ele tem interesse cognitivo em alguém fora da relação. Não necessariamente sexual. Cognitivo já é o sinal.

Terceiro passo: se o padrão se confirmar, ter uma conversa. Não sobre “flerte.” Sobre “distância.”

A conversa é: “Percebi que a gente está diferente nas últimas semanas. Você está mais distante. Quero entender o que está acontecendo.”

Isso é fundamentalmente diferente de “você está flertando com fulana?”

Aqui você está falando da sua experiência, não acusando. Você está abrindo espaço para ele contar. E você está sinalizando que percebeu, sem dar detalhes específicos que ele pode negar.

A resposta dele nesse momento vai te dizer muito. Se ele reagir com defensividade imediata (“não sei do que você está falando”), é sinal. Se ele reagir com honestidade (“É, eu andei me sentindo estranho”), é outro tipo de sinal.

Nenhuma das duas respostas resolve. Mas a segunda abre negociação. A primeira fecha e te diz que você tem uma decisão pela frente.


Uma amiga minha passou por isso há três anos. Delineou o processo direito. Observou por duas semanas. Documentou 11 mudanças pequenas de comportamento. Teve a conversa. O namorado respondeu com defensividade. Ela deu mais duas semanas para ele voltar ao normal sozinho. Ele não voltou. Ela terminou.

Descobriu, um mês depois, que ele já estava numa relação com uma colega de trabalho. Não porque investigou. Porque a colega postou no Instagram.

Ela me disse depois que a coisa mais útil daquele processo foi que ela terminou com dignidade. Não teve cena de descoberta, não teve grito, não teve prova encontrada no celular. Ela chegou com a percepção dela; ele confirmou pelo comportamento; ela seguiu.

Hoje ela está num relacionamento sério com outra pessoa. Casou em fevereiro.


O que importa saber é que “não ter prova” não é o problema. O problema é confiar no que o seu instinto está te dizendo e agir a partir disso, mesmo sem prova.

A prova, quando existe, aparece depois. E, quando aparece, quase sempre confirma o que você já sabia.

Clarense.

Compartilhar este post

Escrito por

Comentários