A resposta para essa ambivalência não é nem de perto tão comum quanto a possibilidade disso acontecer.

Toda vez que uma amiga fala “me apaixonei por outro”, a mesa se divide em duas reações previsíveis. Uma delas costuma vir da amiga que passou pelo divórcio e é fã dela mesma pela coragem: “Gente, é sinal claríssimo. Era hora de sair.” A outra vem da amiga que está feliz no casamento e quer manter todo mundo do lado dela. “Pare com isso, você tem um relacionamento ótimo, respire e passe. É só uma bobagem.”

As duas estão erradas.

Não porque sejam mal-intencionadas. As duas estão tentando, cada uma do seu jeito, ajudar. Estão erradas porque tratam a paixão paralela em relação estável como se fosse um sinal binário: ou você tem que sair, ou está tudo bem e a paixão é distração. As duas leituras são economias de complexidade. E a mulher que está sentindo aquilo por outro cara, sentada na mesa, fingindo que a coisa é besteira, sabe que não é nenhuma das duas.

Vou escrever sobre a coisa que ela sabe.

O primeiro ponto é que paixão paralela em relacionamento ótimo não é sinal de que ele parou de ser ótimo. É sinal de que uma parte sua que não estava sendo vivida acordou. E a parte sua que acordou está utilizando o outro cara como espelho.

A Esther Perel escreveu um livro inteiro sobre isso, The State of Affairs (que tem provavelmente o subtítulo mais honesto do gênero, “Rethinking Infidelity”). Ela passou os últimos vinte anos escutando mulheres que traíram maridos que amavam, ou que tinham sentido vontade de trair sem trair. Em quase 90% dos casos, o outro homem não era escolhido pela qualidade dele. Era escolhido por representar uma versão da mulher que ela não estava vivendo com o parceiro atual. Uma versão mais leve. Ou mais livre. Ou mais interessante. Ou mais desejada. Ou mais em construção.

A frase dela que resume:

Very often we don't stray from our partners. We stray from the person we've become.

A gente não se afasta do parceiro. A gente se afasta da pessoa em que virou.

Essa é a chave que muda a leitura do que a mulher sente quando se apaixona por outro dentro de um relacionamento ótimo. O relacionamento pode ser ótimo. Ele pode ser gentil, sexualmente ativo, financeiramente equilibrado, socialmente confortável, familiarmente aprovado. Todos esses adjetivos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo. E ainda assim, você pode ter chegado a uma versão de si mesma dentro dele que se tornou pequena, ou repetitiva, ou fossilizada. E o outro cara aparece porque atinge exatamente essa parte sua que foi ficando para depois.


Fisiologicamente, a coisa é ainda mais simples do que Perel coloca.

A Helen Fisher, sendo antropóloga biológica e tendo passado os últimos trinta anos escaneando o cérebro de pessoas apaixonadas, mostra que novidade sozinha ativa dopamina em níveis próximos aos de cocaína. Encontro breve, tensão sexual não resolvida, mensagens espaçadas, olhar prolongado no elevador. Essa combinação, sem ter feito nada de errado ainda, já produz uma reação química idêntica à paixão nova. E isso pode acontecer com qualquer cara suficientemente interessante que apareça, em qualquer momento da sua vida, independentemente do quanto você ama o seu parceiro.

Quer dizer: a intensidade da paixão pelo outro não significa que ela é “mais verdadeira” que o que você sente pelo seu parceiro. Significa que ela é nova. O amor de longo prazo tem uma outra química, mais lenta, mais estável, menos performática. As duas convivem no mesmo cérebro sem se anular. A Fisher diz que o cérebro humano evoluiu para amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo em ondas diferentes, e que apaixonar-se por alguém novo enquanto ainda ama o parceiro estável não é falha moral. É biologia funcional.

Isso alivia. Mas não resolve a pergunta prática que a mulher que está nessa situação quer respondida: e agora?


O que muda a resposta prática (e onde essa questão fica de fato séria) é ler o que a paixão paralela está representando para você.

O Terry Real, sendo terapeuta e tendo escrito Us, tem uma observação sobre mulheres bem-sucedidas em fase de expansão profissional que vale trazer. Ele observou clinicamente que mulheres entre 32 e 42 anos, especialmente as que estão em crescimento de carreira ou de renda, começam a experimentar paixão paralela com uma frequência estatística notável. E o padrão dos “outros” é sempre parecido: são homens que representam alguma dimensão da vida dela que o parceiro atual não segura. Um cara mais culto, se ela sente que o parceiro parou de ler. Um cara mais aventureiro, se ela sente que o casamento virou logística. Um cara mais leve, se ela sente que virou administradora de casa.

Isso significa uma coisa importante: a paixão pelo outro raramente vem do outro. Vem de uma parte sua que quer aparecer e utiliza esse cara como janela.

Essa é a leitura correta. E abre uma segunda pergunta, a qual a mulher sentada nessa cadeira precisa se fazer: essa parte sua que está solicitando para aparecer, ela pode aparecer no relacionamento que você tem? Ou o formato atual do relacionamento não a comporta?

Não é a mesma pergunta que “você tem que sair ou tem que ficar”. É uma pergunta melhor porque ela devolve a agência para você, e não para “a paixão” ou “o outro cara”.


Quando é? John Gottman, que passou quarenta anos filmando casais numa sala de laboratório em Seattle e prevendo divórcio com 91% de precisão, identificou três sinais que separam flutuação de longo prazo de final anunciado. Vale saber.

O primeiro é desprezo. Se você começa a sentir desprezo pelo seu parceiro nas coisas cotidianas (o jeito que ele mastiga, o cheiro dele depois do trabalho, a piada que ele repete pela vigésima vez), o sinal é fisiológico. Desprezo é um dos únicos sentimentos conjugais que Gottman associa a um divórcio quase certo. Se a paixão paralela vem acompanhada de desprezo por ele, é diferente.

O segundo é falta de resposta emocional. Se você chegar em casa após um dia difícil e ele perguntar como foi, e você notar que sinceramente não tem vontade de contar, e essa é uma sensação recorrente há mais de seis meses, é sinal. A Sue Johnson chama isso de emotional deadening. O corpo já desistiu antes da cabeça saber.

O terceiro é a fantasia da saída. Se você começar a fantasiar concretamente como seria a sua vida sem ele — não a paixão com o outro, a sua vida sozinha, com casa nova, rotina nova, mesa nova — e essa fantasia começar a te dar mais tesão que a fantasia com o outro cara, é sinal. Você já saiu emocionalmente. Só falta administrar.

Se você não tem nenhum desses três, a paixão paralela provavelmente não é sinal de saída. É sinal de que a parte sua que quer aparecer não está encontrando espaço no formato atual do relacionamento. E isso é uma conversa a se ter — com ele, com você mesma, com uma terapeuta. Não é uma decisão binária a tomar.


É válido compartilhar as dicas que a Perel sugere de forma técnica quando uma mulher entra no seu consultório diante desse cenário. Ela sugere que não se deve fazer contas, além de não ser fã da ideia de ficar contando. Ela sugere iniciar com uma questão diferente, sendo: como esse outro cara faz você se enxergar?

Se a resposta é “ele me faz sentir bonita, interessante, viva”, a próxima pergunta é: por que essa versão sua não está sendo sustentada dentro do seu relacionamento atual? É porque o parceiro não te vê mais, ou é porque você parou de se mostrar? É porque a rotina apagou a mulher que você era, ou é porque essa mulher precisa de espaço para existir que qualquer relacionamento longo naturalmente reduz?

Se a resposta é “ele me faz sentir livre”, a pergunta é: você está livre porque ele é livre, ou porque ele ainda não te conhece? Porque a liberdade do começo é uma ilusão bem específica. É a liberdade de não ter que sustentar ainda o peso da vida presencial com outro adulto. Após dois anos com o outro cara, a mesma liberdade não vai estar lá. Ela nunca esteve nele. Estava na fase inicial.

Se a resposta é “ele me lembra quem eu era antes de casar”, a pergunta é: essa mulher pré-casamento existe de verdade ainda, ou você está romantizando uma versão sua que também não voltaria mesmo se você trocasse de parceiro?

Nenhuma dessas perguntas é confortável. Todas elas são melhores que o binário de sair ou ficar.


Uma amiga minha, que passou por isso há dois anos, me contou o que ela fez. Ela ficou seis meses apaixonada por um colega de trabalho. Sem conversar sobre isso com o marido, sem confessar, sem sair, sem beijar o colega. Só sentindo. E utilizando essa sensação como diagnóstico.

Nos seis meses, ela descobriu três coisas. Primeiro, o cara do trabalho era interessante, mas não era, no fundo, aquilo com que ela queria construir uma vida a longo prazo. Segundo, o que ele representava (leveza, novidade, sedução, ambição intelectual) eram exatamente as coisas que ela sentia estar perdendo dela mesma no casamento. Terceiro, que o casamento dela era de fato ótimo, mas que ele virara logístico e a mulher que ela era antes precisava voltar a existir dentro dele.

O que ela fez, no sétimo mês, foi ter uma conversa com o marido. Não sobre o colega. Sobre ela. Sobre o que ela sentia ter perdido e sobre o que ela queria trazer de volta. Ele se assustou nos primeiros dez minutos. Depois entendeu. Ele também perdeu coisas.

Hoje o casamento deles é diferente do que era há dois anos. Melhor, na opinião dela. Ela ainda pensa no colega de vez em quando, mas menos. A paixão passou, mas a leitura que a paixão fez ainda continua.

Clarense.

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