Um dilema que toda dupla navegando nas águas de um relacionamento duradouro inevitavelmente encontrará.

Num jantar em casa de amigos numa noite de sexta, cinco casais na mesa, uma das amigas contou que ela e o marido voltaram a ter sexo semanalmente após quatro anos de espaçamento gradual. Ela disse isso com um sorriso pequeno, meio sem querer, quase como quem admite uma coisa privada por acidente. O marido ao lado dela riu. Ninguém perguntou o que mudara. Todo mundo queria saber.

O que ela contou depois, quando as mulheres foram para a cozinha refazer o vinho, é a coisa deste texto. Ela e o marido fizeram duas coisas específicas ao longo dos últimos oito meses. E as duas coisas eram exatamente contrárias ao que a maior parte dos livros de casamento recomenda.


A primeira coisa foi diminuir a intimidade cotidiana. Não aumentar.

A cultura popular ensina que casais felizes de longa data são casais que compartilham tudo. Mesmo escritório em casa. Mesmo passatempo. Mesmo círculo de amigos. Almoços juntos no fim de semana. Séries assistidas em duplas. Cada momento livre reservado para dois.

Isso funciona por três anos. Após sete, começa a corroer. Após dez, mata o desejo.

Esther Perel, sendo a terapeuta que mais escutou casais em crise de desejo nos últimos trinta anos, tem uma tese central que ela desenvolveu em Mating in Captivity: segurança e desejo funcionam em direções contrárias no cérebro humano. Segurança precisa de proximidade, previsibilidade, controle mútuo. Desejo precisa do oposto: distância, mistério, algo não sabido do outro.

Casais que sustentam desejo por décadas são casais que aprenderam a introduzir doses controladas de distância dentro de uma estrutura fundamentalmente segura. Não há distância emocional. Distância existencial. Cada um tem uma vida que o outro não controla completamente.

O casal do jantar fez isso na prática. Ela começou a viajar sozinha uma vez a cada três meses (fins de semana, sozinha, em cidades a que ele nunca ia). Ele voltou a jogar tênis num clube masculino, dois sábados por mês, o dia inteiro. Cada um passou a ter um jantar por semana com amigos próprios, sem o outro. Nada disso é grande. Todos os movimentos são pequenos. A soma deles reintroduziu o outro como outro.


A segunda coisa foi mais delicada. E é a que menos gente aceita fazer.

Eles pararam de contar tudo um para o outro.

Isso soa contraintuitivo. A cultura do casamento moderno solicita transparência total. Você conta para ele o que a colega falou. Ele conta para você o que o chefe disse. Você narra sua terapia de terça. Ele narra a partida de squash de quinta. No fim do sétimo ano, cada um conhece a rotina mental do outro com precisão de segundos.

E aí uma coisa se apaga: a possibilidade de surpresa. Você olha para ele no jantar e sabe exatamente o que ele vai contar. Ele olha para você no café da manhã e sabe qual história do trabalho ela vai puxar. Isso o mata desejo porque desejo depende de continuar estranhos um para o outro.

O casal do jantar começou a guardar coisas. Não há segredos. Coisas pequenas. Ela não contava mais em detalhes o que a terapeuta falava. Ele não descrevia mais os treinos de tênis. Cada um mantinha um espaço mental privado, e essa privacidade produzia mistério.


Casais que sustentam desejo por décadas não são os que compartilham tudo. São os que aprenderam quais coisas não compartilhar.

Vale trazer o dado que confirma isso. Uma pesquisa da Universidade de Michigan de 2019 acompanhou 800 casais heterossexuais entre 35 e 55 anos por anos e correlacionou a frequência de sexo com o nível de fusão emocional. O achado foi consistente: casais no quartil de menor fusão emocional (medida por indicadores como “quanto tempo passam juntos por dia”, “quanto compartilham detalhes cotidianos”, “quanto têm amigos separados”) relataram atividade sexual três vezes maior que casais no quartil de maior fusão.

Não é competição. É neurobiologia. O desejo depende de alteridade, e alteridade depende de haver “outro” a desejar.

Casais que se fundem em bloco não têm outro a desejar. Tem parceiro-companheiro, parceiro-sócio, parceiro-família. Todas as coisas são boas. Nenhuma delas produz tesão específico.


Uma terceira coisa que o casal do jantar falou, na cozinha, vale registrar aqui porque é a mais difícil de explicar sem soar controverso.

Cada um deles tinha, ao longo dos últimos dois anos, sentido atração por outras pessoas. Ela por um colega de trabalho. Ele por uma amiga do jogo de tênis. Nenhum dos dois agiu. Nenhum dos dois contou para o outro. Cada um trabalhou internamente com a atração até ela virar simplesmente informação, e não urgência.

Isso não é infidelidade. Não chegou nem perto. É reconhecimento sóbrio de que o cérebro humano continua sendo atraído por outras pessoas mesmo quando o casamento vai bem. E que negar isso, ou tentar eliminar isso, é o que produz casais reprimidos que depois explodem em traição real.

Perel argumenta que casais que aceitam a existência de atrações paralelas (sem agir nelas, sem culpa moral excessiva, sem confessar performaticamente para “limpar a consciência”) são casais que mantêm o desejo pelo próprio parceiro mais estável ao longo do tempo. Porque o reconhecimento de que existe outro possível reforça, por contraste, a escolha específica do parceiro que se tem.

Isso é sofisticado. Não funciona para todo casal. Mas em casais adultos que confiam um no outro, funciona bem.


É válido mencionar um detalhe que surgiu durante o jantar e que encapsula toda a discussão.

Ela disse, na cozinha: “Voltei a olhar para ele como se ele fosse um estranho num café. E ele passou a fazer o mesmo comigo. Isso reabriu uma coisa que eu considerava ser só saudade da fase inicial.”

Não é saudade da fase inicial. É reintrodução de alteridade dentro de uma estrutura já sólida, trabalhar para o cônjuge continuar sendo pessoa e não virar mobília.

Casais que fazem isso não precisam de conselhos de terapeuta de casal. Casais que não fazem precisam.


O casal do jantar havia estado à beira do fim três anos antes. Terapeuta, tentativa de reconstrução, quatro meses juntos numa sensação de estarem administrando o naufrágio. Depois dessa fase, eles decidiram que a única forma de continuar juntos seria mudar a arquitetura do casamento por completo. Não da mesma forma que casais que abrem a relação, ou casais que se separam e voltam. Uma mudança mais sutil.

Hoje eles vivem em casas separadas quatro dias por semana (ele viaja para o trabalho em um outro bairro e volta quinta à noite). Eles dormem juntos três noites. Cada um mantém um projeto pessoal que o outro não integra. E fazem sexo mais do que faziam quando estavam na fase inicial do casamento.

Ela riu quando terminou de contar. Disse que ninguém acredita quando ela fala isso. E que se ela contasse para a terapeuta de casal de três anos atrás, a terapeuta teria mandado eles trabalharem “mais na intimidade cotidiana.” É que exatamente esse conselho é o que ia acabar com eles.

Nem todo casamento aguenta essa reformatação. Mas casais que sustentam desejo por dez, quinze, vinte anos, quase todos fazem uma versão disso. E quase ninguém comenta em público porque parece que estão fazendo errado.

Clarense

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