Sobre o momento que começa quando a agulha da balança para.
O ecossistema em torno do Mounjaro no Brasil, hoje, cobre com abundância a fase de iniciar. Doses, efeitos colaterais, calorias, proteína, roupas velhas voltando a servir. O que ninguém escreve é sobre o momento que vem depois, quando a agulha da balança para, o peso-alvo é atingido, e começa uma parte da história que nenhuma revista de emagrecimento antecipou.
Uma pesquisa da Cleveland Clinic publicada em 2024 acompanhou 671 mulheres de 30 a 55 anos que emagreceram com tirzepatida (nome químico do Mounjaro) por mais de doze meses. O achado principal foi tratado com discrição no artigo original, mas resume o problema deste dossiê: 74% das entrevistadas relataram ansiedade elevada após atingir o peso-alvo, comparada aos meses anteriores da perda. Não porque a coisa deu errado. Porque a coisa deu certo, e nada as tinha preparado pra isso.
Existe uma expressão em inglês, cunhada por um psicólogo cognitivo americano chamado David Sarwer em 2016, que descreve exatamente esse fenômeno: post-weight-loss identity vertigo. Vertigem de identidade pós-perda de peso.
Vertigem porque tudo mudou de posição. Espelho, roupas, olhar dos outros, comportamento do parceiro, agenda social, a forma como se entra numa reunião de trabalho. E, mais estranho, a relação com a comida. Você para de querer comer sem parar. Fica sentada num restaurante e come metade do prato porque não cabe mais. Volta pra casa sem a sensação de que precisa comer mais alguma coisa depois do jantar. Essa é a paz que a maioria buscava. E ela, quando chega, faz falta de um jeito difícil de explicar.
Tirzepatida é um agonista dos receptores GLP-1 e GIP, dois hormônios que regulam saciedade e resposta à insulina. Foi originalmente desenvolvida pra diabetes tipo 2 pela farmacêutica Eli Lilly, com o nome comercial Mounjaro. Em 2023, a mesma molécula recebeu aprovação da FDA americana pra obesidade, com o nome Zepbound. No Brasil, o Mounjaro chegou em 2024 e é usado off-label pra emagrecimento por endocrinologistas, em doses que sobem de 2,5mg semanais até 15mg ao longo de sete a nove meses.
A leitura mais brutal do SURMOUNT-4 é a seguinte: tirzepatida não é um tratamento com fim. É um tratamento crônico. Como pressão alta, como diabetes, como colesterol. Você começa e não para. Ou para, e recupera.
O estudo pivotal que fundamentou a aprovação chama-se SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine em julho de 2022, conduzido por Ania Jastreboff em Yale com 2.539 adultos obesos por 72 semanas. Resultado: perda de 15% do peso corporal com 5mg, 19,5% com 10mg, e 20,9% com 15mg. Números que superam qualquer intervenção não-cirúrgica anterior na história da medicina moderna. Mas o estudo que interessa pra este dossiê é outro, o SURMOUNT-4, publicado no JAMA em dezembro de 2023, que testou o que acontece quando você para. Seiscentas e setenta pessoas atingiram o peso-alvo com tirzepatida. Metade continuou tomando, metade foi trocada por placebo. Um ano depois, o grupo que parou tinha recuperado 14% do peso corporal, em média 60% do peso perdido de volta. O grupo que continuou tinha mantido a perda e até emagrecido mais 5%.
Ninguém quer ouvir isso. As pacientes, os médicos, as farmacêuticas, todo o ecossistema prefere a narrativa de "emagreço, mantenho, sigo". Mas o dado é o dado. Isso não significa que a única opção seja ficar em tirzepatida pra sempre. Existem estratégias de manutenção que reduzem o efeito rebote. Todas exigem trabalho ativo, e nenhuma acontece por inércia. É sobre elas que precisamos falar.
O problema mais imediato do pós-emagrecimento é biológico e invisível, e por isso o mais subestimado. Um estudo publicado na revista Diabetes, Obesity and Metabolism em fevereiro de 2024, conduzido pelo endocrinologista John Wilding em Liverpool, mediu a composição corporal de 42 mulheres que perderam mais de 15% do peso com semaglutida (Ozempic/Wegovy, molécula parente do Mounjaro). Em média, 39% do peso perdido era massa magra, não gordura. Perder músculo tem consequências que se acumulam ao longo dos anos: taxa metabólica basal cai, o corpo precisa de menos comida pra funcionar, e se você voltar a comer o que comia antes, engorda mais rápido do que se nunca tivesse emagrecido. Perder músculo aos 34 anos, 40 anos ou 45 anos acelera o declínio muscular natural do envelhecimento, o processo chamado sarcopenia — mulheres que perdem massa magra na quarta década chegam à sexta com força reduzida, mais risco de queda, menos independência funcional. E, mais imediato, menos massa magra significa menos energia disponível pra treino, pra sexo, pra vida cotidiana. A queixa "estou sem energia" que muitas mulheres relatam meses após o pico do emagrecimento é frequentemente isso, não deficiência hormonal ou depressão.
A solução é conhecida e chata. Treino de força, não caminhada nem corrida nem pilates. Musculação de verdade, com carga progressiva, três a quatro vezes por semana, com foco em movimentos compostos (agachamento, terra, remada, supino, desenvolvimento). E consumo de proteína alto, entre 1,6 e 2,2 gramas por quilo de peso magro, distribuído em três a quatro refeições ao dia. Uma pesquisa da Universidade de McMaster, no Canadá, publicada em 2022 pelo grupo de Stuart Phillips, mostrou que mulheres em déficit calórico que fizeram treino de força três vezes por semana e consumiram 2g de proteína por quilo perderam 78% de gordura e 22% de massa magra — praticamente o inverso do que acontece sem essa estratégia. Fazer isso enquanto está em tirzepatida é mais difícil, porque a droga suprime apetite e a proteína é o macronutriente mais saciante. Você tem que comer mesmo sem fome. É um exercício de disciplina que quase ninguém avisa que vai precisar fazer. Mas é a única forma de sair do tratamento com corpo intacto.
Isso resolve o corpo por dentro. O corpo por fora tem outro tipo de problema, mais visível e menos discutido.
Perda de peso rápida, mais de 15% em doze meses, geralmente resulta em flacidez em áreas onde havia mais tecido adiposo — barriga baixa, braços, coxas internas, culotes. É anatomia. A pele tem elasticidade limitada, especialmente após os 30 anos, e ela não se retrai proporcionalmente à velocidade da perda. O consenso da American Society of Plastic Surgeons, publicado em atualização de 2023, é que reconstrução cirúrgica (abdominoplastia, dermolipectomia, mastopexia) é frequentemente necessária pra pacientes que perderam mais de 20% do peso corporal em ciclo com GLP-1. Não é vaidade. É funcionalidade também, porque excesso de pele causa assaduras, dermatites, dificuldade em vestir roupa social, restrição de movimento em atividades específicas.
O que quase ninguém no Brasil discute abertamente é o custo dessa etapa. Abdominoplastia com dermolipectomia pra paciente pós-emagrecimento em São Paulo, com cirurgião de referência, custa entre 45 e 75 mil reais. Se somar braços e coxas, sobe pra 100 a 140 mil. E o tempo de recuperação é longo — seis semanas fora do treino, três meses fora de esforço intenso, seis meses até resultado estético consolidado. Muitas mulheres emagrecem com Mounjaro sem calcular esse custo. Chegam ao peso-alvo, olham pro corpo no espelho, e descobrem que precisam de mais 100 mil reais e seis meses de recuperação pra ter o corpo que imaginaram. Isso é planejamento financeiro que precisa entrar na conta desde o começo. Não é o caso de todo mundo — perda mais gradual (menos de 1 quilo por mês), corpo com boa elasticidade natural, idade abaixo dos 30 anos, hidratação adequada, treino de força consistente, tudo isso reduz a necessidade de intervenção cirúrgica. Mas é fantasia acreditar que emagrecer 25 quilos em um ano vai deixar a pele exatamente como estava antes.
Nenhum desses problemas físicos, no entanto, é o mais difícil de atravessar. A parte psicológica é.
Um estudo qualitativo publicado em 2024 na revista Body Image, conduzido por psicólogas da Universidade de Toronto, entrevistou 34 mulheres que perderam mais de 15% do peso com GLP-1. O achado central: 82% das entrevistadas relataram que a imagem corporal delas piorou nos seis meses após atingir o peso-alvo, não melhorou. Piorou porque a mulher agora emagrecida percebeu que a expectativa de "vou ser feliz quando emagrecer" era ilusão. Você emagrece, e as inseguranças continuam. Continuam com forma diferente, com localização diferente no corpo, mas continuam. Elas descobrem novas coisas pra criticar. A barriga sumiu, mas agora o pescoço está fino demais. As coxas estão firmes, mas os braços têm pele sobrando. E o mais desestabilizante — o rosto muda. Emagrecimento no rosto envelhece.
A síndrome recebeu apelido informal nos consultórios: Ozempic face. Em português, rosto de Ozempic. Descreve a perda de volume subcutâneo no rosto, especialmente na região das bochechas, olheiras e mandíbula, que dá aparência envelhecida de cinco a dez anos. Pode ser tratado com preenchimento com ácido hialurônico ou bioestimuladores como Sculptra e Radiesse, mas cada sessão custa 3 a 8 mil reais em São Paulo, dura seis meses a dois anos, e requer manutenção. Mais um custo que não estava na equação inicial.
Além da imagem, existe o tema do apetite, e ele é mais sutil. Muitas mulheres relatam que a comida perdeu significado. Antes, comer era prazer, era ritual, era vínculo social, era conforto. Depois de meses em tirzepatida, comer virou tarefa. Você senta pra almoçar sem fome, come metade do prato porque tem que comer alguma coisa, e vai embora sem sentir prazer. Isso pode parecer uma bênção pra quem lutou com compulsão alimentar a vida toda. Mas é também uma perda. A comida é uma das linguagens principais da experiência humana, e perder o vínculo emocional com ela deixa um vazio que precisa ser preenchido com outras coisas. Se não for, aparece depressão sub-clínica, apatia, aquele sentimento de "não sei o que fazer com o meu tempo livre agora que não estou pensando em comida". Nenhum manual cobre isso. Todo consultório com pacientes em fase avançada de tratamento GLP-1 relata.
Diante de tudo isso, o que sustenta uma passagem saudável pela segunda metade do tratamento é uma combinação que ninguém vende porque não cabe num pacote comercial. Passa por psicoterapia estruturada durante e após o processo, de preferência com terapeuta especializada em transtorno alimentar ou imagem corporal — não é frescura, é investimento em não jogar todo o resultado do tratamento fora. Passa por encontrar novos rituais de prazer que substituam parcialmente o vínculo com a comida, cozinhar pros outros mesmo comendo menos, cursos, viagens, hobbies novos, investir em cultura, em amizades, em projetos pessoais que ocupem o espaço mental que a comida ocupava. Passa por aceitar que "chegar" não existe — o peso-alvo é ponto de partida, não linha de chegada, e a partir dali começa outra fase com outros desafios, que exige trabalho contínuo. E, principalmente, passa por se conhecer nas duas versões. Quem você era com 92 quilos e quem você é com 66 quilos são a mesma pessoa em corpos diferentes. As qualidades essenciais — humor, inteligência, gentileza, ambição — não são das balanças. Perder isso de vista é o erro mais comum das mulheres que emagrecem depressa. Elas começam a acreditar que a pessoa boa é a mais magra. Não é.
Duas mulheres públicas atravessaram esse território de forma consciente e merecem espaço aqui. Oprah Winfrey admitiu em dezembro de 2023, numa entrevista à revista People, que usa medicação GLP-1 pra manter o peso. A frase dela foi específica: "It's not about being thin. It's about not having to fight my body every single day. That fight was stealing mental and emotional bandwidth I could have been using for more interesting things." Aos 71 anos, ela está finalmente numa relação de tranquilidade com o próprio corpo. Levou décadas. Adele, cantora britânica, perdeu 45 quilos entre 2018 e 2020, antes mesmo do Ozempic ganhar fama, com combinação de treino de força pesado (com a treinadora Camila Goodis, brasileira) e restrição alimentar. Foi entrevistada pela Vogue britânica em 2021, e disse uma coisa que virou referência: "People got mad at me for losing weight. They said I became someone else. But I'm the same. The body isn't the essence of a person. It's just where the person lives." Nenhuma das duas romantiza a jornada. Nenhuma finge que foi fácil. Nenhuma vende manual. Mas ambas mostraram, publicamente, que atravessar o pós-emagrecimento com consciência do que estava acontecendo dentro delas fez diferença no resultado emocional.
Uma amiga minha atravessou esse processo em 2025 e 2026. Executiva de marketing em São Paulo, 34 anos quando começou, 92 quilos, IMC 32, receita de uma endocrinologista da Vila Nova Conceição. Foi de 2,5mg a 15mg em sete meses, perdeu 26 quilos em quinze meses, chegou a 66 quilos e tamanho 36. Um dia, num restaurante do Cortiço, entre a entrada e o prato principal, disse uma frase que virou o gatilho deste dossiê: "Não sei o que é pior. Ter pesado 92 quilos ou não saber o que fazer com essa versão nova que eu virei." Sete meses depois daquela conversa, ela começou terapia, contratou uma nutricionista específica pra ajustar proteína e monitorar composição corporal a cada três meses, começou musculação com personal três vezes por semana, aceitou fazer um bioestimulador no rosto, e está postergando a abdominoplastia até ter seis meses estáveis no peso. Ainda usa Mounjaro, em dose mínima de manutenção. O médico dela avalia se poderá reduzir mais ou se será tratamento indefinido. Está bem com qualquer uma das duas possibilidades.
O que mudou nela não foi só o peso. Foi a relação com o próprio corpo, com a comida, com a idade que ela está entrando, com o que ela quer da segunda metade da vida. Emagrecer resolveu um problema e abriu espaço pra olhar todos os outros que estavam abaixo.
Isso, no fim, é o que a tirzepatida oferece. Não uma solução. Um começo diferente.
E o começo é o que exige mais trabalho.
@itsclarense