A Renata, minha amiga arquiteta, que passou os vinte e a maior parte dos trinta convencida de que não queria ser mãe, mudou de ideia.

Aconteceu com a Renata em janeiro do ano em que ela fez 36 anos, e eu estava junto no fim de semana em que a virada começou a ficar clara. Íamos passar três dias na casa da mãe dela em Ilhabela: ela, o marido, eu e o meu namorado da época. A sobrinha da Renata, filha da irmã mais nova, tinha 8 meses. A irmã ficou dois dias em Ilhabela também, com o marido e a bebê. Na manhã do segundo dia, Renata pegou a sobrinha por dez minutos enquanto a irmã tomava café. A bebê dormiu no ombro dela. E a Renata, que passou desde os 22 anos dizendo em modo firme, em modo sereno, em modo articulado que não queria filhos, olhou para mim por cima do ombro da bebê e fez cara que eu nunca tinha visto ela fazer, e nem eu vira ninguém fazer. Cara de reconhecimento adiado. Ela não disse nada naquele momento. Devolveu a bebê para a irmã depois de mais uns 15 minutos. E na noite seguinte, sentada na varanda tomando gim tônica, ela me disse, de modo simples: suponho que eu quero.


É bom dar o primeiro passo reconhecendo algo que a cultura do Brasil costuma esconder nas entrelinhas. O desejo de trazer um pequeno ao mundo pode ser uma sementinha que dorme tranquila aos 22, pode dar uma espreguiçada aos 26, pode tirar uma sonequinha aos 30 e, de repente, florescer aos 36. Não se trata de uma lacuna de saber, mas sim de um indício de que os anseios femininos oscilam na jornada da vida adulta; eles se ajustam a transformações hormonais, a reviravoltas emocionais e a contextos que surgem apenas após um determinado período.

Pesquisa em psicologia do desejo reprodutivo, especialmente a que Ann Davidman fez ao longo dos anos 2010 em Nova York em populações de mulheres profissionais entre 30 e 42 anos, mostrou padrão consistente. Aproximadamente 22% das mulheres que, aos 30 anos, reportam com clareza não querer ser mães mudam de posição entre os 33 e os 38 anos, e a virada em modo majoritário não é gradual, é episódica, ativada por evento específico que catalisa o reconhecimento.

O evento pode ser cargo específico com sobrinha ou filho de amiga, como aconteceu com a Renata. Pode ser morte uma figura parental que produz reconfiguração de sentido de linhagem. Pode ser uma conclusão de uma fase profissional intensa que abre espaço mental. Pode ser uma mudança de relacionamento amoroso que introduz um parceiro que produz desejo específico de filho com essa pessoa. Pode ser combinação de várias forças que cristalizam num momento aparentemente banal.

O ponto importante é que o desejo tardio genuíno é um fenômeno psíquico legítimo, não uma confusão em relação à posição anterior. A mulher que aos 30 anos genuinamente não queria filhos que aos 36 anos genuinamente quer, não estava se enganando aos 30. O desejo mudou porque o desejo pode mudar, e essa possibilidade é raramente reconhecida em cultura que trata desejo reprodutivo como estado fixo.


Desejo tardio genuíno tem quatro sinais específicos.

Primeiro sinal. O desejo aparece na ausência de gatilho social imediato. Não vem após anúncio de gestação de amiga, não vem após comentário familiar, não vem após cobrança de mãe ou sogra. Vem em modo interno, frequentemente em situação isolada, ativado pela presença física de bebê ou de criança pequena, ou por reflexão espontânea.

Segundo sinal. O desejo persiste há meses, de ano em modo episódico. Semanas depois do momento inicial, o desejo continua presente. Não obsessivamente, mas de modo estável. A mulher pensa em maternidade sem estar sendo lembrada externamente, e o pensamento não é ansioso, é curioso.

Terceiro sinal. O desejo tem qualidade específica de projeto próprio. Não é “eu deveria querer isso porque a sociedade espera”. É “eu quero isso porque essa é uma dimensão da minha vida que eu quero explorar”. A diferença é sutil, mas mensurável em modo interno, e frequentemente clara após duas ou três sessões de terapia estruturada.

Quarto sinal. O desejo coexiste com clareza sobre custos. A mulher em desejo tardio genuíno reconhece que a maternidade envolve custos significativos realisticamente (renda, sono, autonomia, tempo livre, carreira em curto prazo, relacionamento romântico transformado), e o desejo persiste apesar da clareza sobre esses custos, não porque a mulher esteja idealizando o processo.

Quando os quatro sinais estão presentes consistentemente, o desejo é genuíno, e a decisão de tentar realizá-lo faz sentido adultamente.

Desejo tardio ativado por pressão social tem sinais diferentes. O desejo aparece imediatamente após um gatilho social específico (gravidez de amiga, comentário familiar, cobrança de parceiro). Ele oscila em modo episódico, forte na semana do gatilho, mais fraco duas semanas depois, tem qualidade específica de dever (“eu deveria querer isso, eu deveria poder querer isso”). E ele não coexiste com clareza sobre custos; tende a idealizar o processo defensivamente.

Quando os sinais de desejo por pressão social estão presentes, a decisão adulta é investigar antes de agir. Trabalho terapêutico estruturado ao longo de 6 a 12 meses é frequentemente necessário para distinguir se abaixo da pressão existe desejo genuíno subjacente, ou se o que está operando é apenas resposta à demanda externa. Agir sem essa investigação frequentemente produz decisão de que a mulher se arrepende no prazo de anos.


Nos meses seguintes, ela investigou o desejo de modo estruturado, com uma terapeuta específica que ela procurou (mulher especializada em fertilidade tardia e em ambivalência reprodutiva). Elas trabalharam ao longo de 6 meses avaliando se o desejo era genuíno ou reativo. A conclusão veio consistentemente: era genuíno. Ela e o marido, que estava aberto à possibilidade, mas sem convicção própria, tiveram conversas estruturadas ao longo dos meses seguintes. Ele chegou também ao desejo genuíno após processamento próprio.

Aos 37 anos, ela iniciou uma tentativa de gestação. Aos 37 anos e 4 meses, engravidou. Aos 38 anos, teve a filha. Hoje, aos 41 anos, ela tem filha de 3 anos, continua exercendo arquitetura em modo modificado e reporta em conversa comigo que a maternidade é significativamente mais difícil do que ela imaginava e simultaneamente é experiência que ela reconhece como uma das mais importantes da vida dela, sem nostalgia da posição anterior.

Ela também reconhece honestamente que a decisão foi certa, apesar do custo real. E que se ela tivesse decidido diferente aos 22, aos 26 ou aos 30, teria sido decisão também legítima, apenas outra decisão. A questão nunca foi “escolheu certo antes ou depois”. A questão foi: “Quando o desejo genuíno emergiu, ela reconheceu, investigou e agiu de modo adulto.”


Desejo de ser mãe pode não existir por décadas e emergir tarde em modo genuíno. Não é confusão anterior, é fenômeno psíquico legítimo. Distinguir desejo genuíno de desejo por pressão social exige investigação estruturada.

O relógio biológico é um fenômeno. A fertilidade natural decide-se de modo mensurável a partir dos 32 anos, com queda mais acentuada entre os 37 e os 42 anos, e queda significativa a partir dos 42 anos. Isso é biologia, e ela opera de modo relativamente previsível.

Mas o dado que raramente aparece com clareza em conversa cultural é o seguinte: fertilidade em declínio não significa fertilidade zero, ainda que até uma fase muito tardia. Mulher aos 38 anos ainda tem probabilidade significativa de gestação natural em ciclo (aproximadamente 15% por ciclo em condições saudáveis). Mulher aos 40 anos ainda tem probabilidade da ordem de 8-10% por ciclo. E medicina reprodutiva contemporânea oferece opções que aumentam significativamente as chances em fase tardia, desde investigação hormonal precoce (a partir dos 33) até congelamento de óvulos (recomendado entre 32 e 38 anos para quem ainda não decidiu) até tratamentos de fertilização assistida.

Isso significa duas coisas de modo prático.

Primeiro, mulher que reconhece desejo tardio aos 34 ou 36 anos ainda tem janela real para realizar. A pressa deve ser proporcional à janela, não catastrófica, mesmo que produza decisão apressada.

Segundo, mulher entre 30 e 35 anos que está em ambivalência (ainda não sabe se quer) e que percebe a possibilidade de desejo tardio pode considerar o congelamento de óvulos como decisão intermediária que preserva a opção sem forçar uma decisão imediata. Não é decisão obrigatória, e ela tem custo significativo (aproximadamente 25 a 40 mil reais no Brasil, dependendo do procedimento), mas é opção legítima que raramente é apresentada neutramente.


É importante destacar algo que muitas vezes fica esquecido nas trocas de ideias sobre esse assunto. Nem toda moça que, aos 30 anos, “fecha as portas” para a maternidade vai, mais tarde, abrir janelas para a ideia de ter filhos. A galera toda simplesmente não vai. Aproximadamente 78% das mulheres que, aos 30 anos, declaram firmemente não querer ser mães continuam com essa ideia ao longo dos anos e, ao chegarem aos 60, afirmam ter uma qualidade de vida tão boa quanto as que decidiram ser mães. Optar por não ser mãe é uma escolha madura e válida, e essa decisão reflete uma vida adulta totalmente evidenciada.

É fundamental entender que tanto um caminho quanto outro são viáveis, que os anseios podem oscilar (para vários lados) durante a vida de um adulto, e que explorar a verdade com sinceridade, ignorando as cobranças da sociedade, é a escolha resultante em uma vida adulta com menos remorsos ao longo do tempo.

Se você está entre 33 e 40 anos e percebe algo mudando em relação a como se sentia antes sobre maternidade, saiba que o fenômeno é comum, e sinais factíveis são a decisão adulta e dar espaço à investigação, em qualquer direção. O tempo para isso é factível: a investigação começa antes dos 40 anos em ritmo estruturado.

Clarense


Referências: Ann Davidman (Motherhood Is It For Me?; pesquisa em ambivalência reprodutiva), Merle Bombardieri (The Baby Decision), Elizabeth Gilbert (Committed, especialmente sobre decisão reprodutiva tardia), Amy Blackstone (Childfree by Choice), American Society for Reproductive Medicine (ASRM, dados de fertilidade por idade), Sylvia Ann Hewlett (Creating a Life: Professional Women and the Quest for Children).

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