A frase de três palavras que muitas mulheres costumam dizer após receber um elogio fala sobre quanto isso pode custar ao longo de 20 anos.
Passei sete dias, há uns dois anos, num experimento que uma amiga terapeuta me sugeriu após me ouvir contradizer três elogios seguidos numa mesma tarde de café, e o experimento era o seguinte. Durante uma semana, toda vez que alguém me elogiasse por qualquer coisa, eu deveria responder com uma frase só, “obrigada”, e nada mais. Sem “ah, que nada”, sem “isso é qualquer coisa”, sem “eu não estou tão bem assim”, sem “foi mais fácil do que parece”, sem qualquer versão de correção, redução ou desqualificação. Só “obrigada”. Ponto. E depois cala e observa o que acontece.
Considerei que ia ser fácil. Nos primeiros três dias, contradisse-se elogio dezessete vezes antes de me lembrar do experimento. Tive que reformular a conversa depois de já ter começado a contradizer, o que gerou uma sensação constrangedora de “espera, deixa eu recomeçar essa resposta”, que era em si mesma sinal da gravidade do hábito. No quarto dia, comecei a conseguir. No quinto dia, algo estranho começou a acontecer, e é sobre esse algo estranho que este texto é.
O algo estranho é o seguinte. As pessoas ao meu redor começaram a me tratar diferente. Não de forma dramática, não numa mudança evidente que qualquer um perceberia, mas numa mudança sutil que só quem estava vivendo notaria. As pessoas começaram a me elogiar mais. Elas começaram a me solicitar mais opinião, começaram a me tratar como se eu fosse ligeiramente mais competente do que elas achavam antes. E o mais interessante: elas continuaram a fazer isso mesmo após eu ter voltado, no décimo dia, ao meu padrão antigo de aceitar elogio e parcialmente contradizer. A mudança foi permanente, e ela foi produzida por sete dias de “obrigada” contida.
O hábito é o seguinte. Alguém te elogia por alguma coisa, e você automaticamente responde com uma versão reduzida do elogio. As versões variam cultural e socialmente, mas o formato central é sempre o mesmo: alguém disse que você é X, e você imediatamente qualifica dizendo que na verdade você não é tão X assim, ou que qualquer pessoa poderia ser X naquela situação, ou que X é fácil, ou que outros são mais X do que você.
Exemplos concretos, alguns retirados de conversas que ouvi em café da manhã em São Paulo nos últimos meses:
“¡Qué apartamento lindo!” — “Ah, que nada, está tudo bagunçado, precisava pintar.”
“Você está ótima!” — “Estou horrível, engordei muito.”
“Adorei seu texto.” — “Eu supus que ficou meio confuso, mas obrigada.”
“Você cozinha demais!” — “Nada, é só receita de mãe, qualquer um faz.”
“Que dia produtivo o seu!” — “Não foi tanto; eu ainda tinha o dobro para fazer.”
“Sua apresentação foi impecável.” — “Ah não, eu tremia por dentro.”
Cada uma dessas trocas parece social e educada, uma versão de humildade brasileira comum. Elas passam despercebidas em qualquer conversa. O problema não é uma troca isolada, é a soma delas ao longo de vinte anos e o padrão que elas ensinam ao entorno social sobre como te tratar.
O mecanismo por trás do efeito é bem estudado em psicologia social e vale explicar em detalhe.
Quando alguém te elogia e você contradiz, a pessoa que te elogiou sente três coisas quase simultaneamente. Primeiro, ela sente um pequeno constrangimento pessoal, porque ela ofereceu algo (o elogio) que você recusou (a contradição). Segundo, ela sente uma sensação de erro de leitura, porque ela pensou que o elogio era apropriado e você indicou que não era. Terceiro, ela guarda inconscientemente a informação de que você mesma parece considerar aquele elogio não merecido, o que ela vai considerar em interações futuras.
Após três, quatro, cinco elogios contraditórios, essa terceira coisa se consolida. A pessoa começa a te ver como você mesma se descreveu. E, a partir daí, ela ajusta o tratamento para o padrão que você mesma sinalizou.
Isso é dado experimentalmente, não intuição. Pesquisas de John Bargh em Yale nos anos 1990 e 2000 sobre “priming social” mostraram que a auto-descrição contradiz o elogio, produzindo efeito de ancoragem duradouro na percepção que outras pessoas têm da pessoa que se descreveu. Nós somos, aos olhos dos outros, o que dizemos ser sobre nós mesmos, e contradizer elogio é uma forma sistemática de dizer “sou menor do que você acha.”
Ao longo dos anos, essa auto-descrição menor produz uma trajetória social específica. Convites para oportunidades menores. Ofertas de trabalho abaixo do que a pessoa poderia receber. Tratamento social ligeiramente menos deferente do que ela receberia se aceitasse elogio. Cada trecho isolado é pequeno, mas a soma ao longo da carreira, ao longo do círculo social, ao longo da vida sentimental é enorme.
Contradizer elogio, na maioria das mulheres brasileiras, é reação automática, não escolha consciente. Ela vem de treino cultural começado na infância, quando meninas eram elogiadas em ambiente escolar ou familiar e imediatamente instruídas, direta ou indiretamente, a não parecer arrogantes. “Ah, que nada” era a resposta socialmente correta para “que menina inteligente.” “Está tudo bagunçado” era a resposta socialmente correta para “que casa organizada.”
Esse treino se consolidou como reflexo, e ele opera abaixo do nível da consciência. A mulher adulta contradiz o elogio antes de decidir contradizer. Ela ouve o elogio, e a boca já está formulando a contradição, e a contradição sai antes de qualquer processamento reflexivo.
Reflexos podem ser reprogramados, mas requerem esforço consciente sistemático por período determinado. Sete dias é o mínimo que a pesquisa de reprogramação de hábito, especialmente a de James Clear e Wendy Wood, mostra ser necessário para começar a produzir mudança perceptível. Vinte e um dias produzem consolidação. Sessenta e seis dias produzem automatização do novo hábito.
Contradizer elogio sinaliza pra o entorno que você concorda com o menos, e o entorno ajusta o tratamento pra o padrão que você mesma sinalizou.
É bom mostrar como fazer o experimento de sete dias, porque a técnica é importante.
Regra um: obrigada, ponto.
Toda vez que alguém te elogiar por qualquer coisa, sua resposta é “obrigada”. Uma palavra. Nada mais. Nem “obrigada, foi difícil”, nem “obrigada, você é gentil”, nem “obrigada, eu tento”. Apenas “obrigada”. E depois, silêncio.
Regra dois: se cair na tentação de completar, você se corrige na hora.
Se a boca já saiu “obrigada, mas na verdade…”, você para e diz “espera, deixa eu reformular. Obrigada.” E cala. Isso vai acontecer várias vezes nos primeiros dias, e o próprio ato de se corrigir na frente do interlocutor traz benefício, porque ele torna o hábito visível para você mesma.
Regra três: observa o que acontece nos próximos 30 segundos.
Depois do “obrigada”, frequentemente o interlocutor fica em silêncio por alguns segundos. Esse silêncio parece constrangedor, mas ele é apenas o processamento social natural. Você resiste à tentação de preencher o silêncio com contradição. Após alguns segundos, a conversa retoma, e você percebe que nada catastrófico aconteceu.
Regra quatro: preste atenção à sensação corporal ao aceitar elogio.
Muitas mulheres relatam sensação de exposição estranha nos primeiros dias, tipo “senti que ele considerou que eu me achei.” Isso é reação normal ao rompimento do reflexo antigo. Passa em três, quatro dias. Não é sinal de que você virou arrogante. É sinal de que você está fazendo o trabalho.
Regra cinco: sete dias contínuos, sem exceção.
Se alguém elogia de um jeito complicado que parece exigir resposta longa, você ainda assim responde “obrigada” e cala. Se alguém elogia de forma que parece muito específica, tipo “amei especificamente esse trecho do seu texto”, você ainda assim responde “obrigada” e cala. A regra é integral por sete dias. Depois, você adapta.
O interlocutor, após você aceitar elogio três, quatro vezes sem contradizer, começa a te tratar como se você fosse merecedora daquele elogio. Isso não é sobre ele mudar de opinião conscientemente. É sobre ele calibrar o comportamento subsequente para corresponder à imagem que você mesma projetou. Se você aceitou que é competente, ele passa a te tratar como competente. Se você aceitou que a casa é linda, ele passa a comentar detalhes da casa, como elegantes escolhas suas, não coincidências. Se você aceitou o elogio profissional, ele começa a te consultar profissionalmente em outros contextos.
O ajuste é sutil, mas ele é observável em pouco tempo. Amigas ao redor começam a perguntar tua opinião com mais frequência. Colegas começam a delegar mais decisões para você. Parceiro começa a te olhar por um segundo a mais quando você comenta sobre uma coisa. Familiares começam a te tratar como referência, não como par competitivo.
Isso é o efeito, e ele é medível em pouco tempo se você mantém o experimento com disciplina.
Nos primeiros dias, a mulher que faz o experimento sente uma sensação estranha, quase parecida com culpa, de que ela está sendo desonesta. “Mas eu não sou tão boa nisso”, ela pensa. “Eu não deveria aceitar elogios que eu não mereço.”
Vale nomear com precisão o que essa culpa é. Ela é o reflexo antigo tentando restabelecer o controle. É o roteiro cultural dizendo que mulher humilde é mulher boa, e mulher que aceita elogio é mulher arrogante. Esse roteiro foi treinado por décadas, e ele resiste à reprogramação com toda a força com que o reflexo profundo resiste.
A resposta técnica é: aceitar elogio não é dizer que você é perfeita, é reconhecer que a pessoa que te elogiou fez uma leitura razoável, e recusar aquela leitura publicamente é grosseria social e sabotagem privada, ambas evitáveis com uma palavra só.
Voltando ao meu experimento de sete dias. No sétimo dia, a essa altura já ligeiramente adaptada, aconteceu uma coisa que fixou para sempre a minha convicção sobre o efeito. Numa reunião de trabalho, uma pessoa me elogiou por uma apresentação. Eu disse “obrigada” e calei. Ela ficou em silêncio três segundos e depois disse: “Sério, você tem um jeito muito específico de organizar assunto complexo, eu queria aprender com você. Posso solicitar uma conversa para você me ensinar?”
Isso nunca tinha me acontecido antes daquele experimento. E aconteceu por causa de uma palavra a menos do que eu costumava dizer.
Aceitar elogio sem contradizer, em prática, é aceitar que o outro te viu e viu bem. Cada contradição que sai da tua boca é um jeito de dizer “não me viu bem.” Após anos disso, o entorno para de te olhar bem, porque você mesma sinalizou que não deveria ser vista bem.
É bom mudar esse jeito de fazer as coisas. Sete dias de “obrigada” são o início dessa mudança. Uma palavra a menos, uma vida um pouco diferente.
Clarense
Referências: John Bargh (Yale, priming social e automaticidade do comportamento), James Clear (Atomic Habits), Wendy Wood (Good Habits, Bad Habits), Amy Cuddy (Presence), Carol Dweck (Mindset), Deborah Tannen (Talking from 9 to 5), Brené Brown (Daring Greatly).