O que a psicologia junguiana chama de sombra. E o que fazer com ela sem destruir sua vida?
Anaïs Nin escreveu no diário dela em 1934, aos 31 anos, uma frase que talvez seja o resumo mais honesto que uma mulher casada pode fazer sobre o desejo de destruir a própria estrutura: “Eu tenho uma vida tão organizada que passei a temer o dia em que vou entender por que a organizei assim.”
Ela era casada com Hugh Guiler, um banqueiro americano gentil e sensato, morava em Paris, tinha vida social confortável, dinheiro estável, uma casa boa. E ainda assim ela escrevia, várias vezes por semana, uma coisa parecida com aquilo. Uma sensação de que a estrutura toda era uma prisão que ela mesma construiu. É uma vontade recorrente de fazer uma coisa “irresponsável” que quebrasse tudo.
Ela acabou fazendo. Teve casos com Henry Miller, com o próprio pai (que ela reencontrou aos 30 anos após vinte anos sem contato), com uma psicanalista. Escreveu diários pornográficos. Publicou livros na França. Levou uma vida dupla por vinte anos. Continuou casada com o Hugh o tempo todo. Ele nunca soube (ou fingiu não saber).
O caso de Anaïs Nin é extremo. O impulso que a movia não é. Ele aparece, com regularidade estatística, em mulheres entre 32 e 45 anos com vida organizada demais. E ele é um dos fenômenos psicológicos mais mal compreendidos da vida adulta feminina.
O impulso tem um nome técnico em psicologia junguiana. Chama-se ativação da sombra.
A ideia central: a psique humana funciona em dois níveis. O nível consciente (o que você quer, o que você planeja, o que você acredita ser). É o nível inconsciente que Jung chamou de sombra (as partes de você que ficaram de fora do projeto consciente da sua vida).
Quando você constrói uma vida muito coerente, muito organizada, muito alinhada com o que você acredita querer, você exclui automaticamente as partes de você que não cabem nesse projeto. A mulher que quer ser uma boa mãe exclui a parte dela que queria não ter filhos. A mulher que quer casamento estável exclui a parte dela que queria ter três amantes. A mulher que quer carreira sólida exclui a parte dela que queria abandonar tudo e virar bailarina em Buenos Aires.
Essas partes excluídas não somem. Ficam armazenadas na sombra. E, em algum ponto da vida adulta (geralmente entre 32 e 45 anos, e frequentemente perto de eventos que consolidam a vida “certinha”, como filho, compra de casa, promoção grande), elas começam a solicitar espaço.
O pedido chega como esse impulso: a vontade de fazer uma loucura.
Primeiro, vale reconhecer que o impulso não é sinal de que a vida “certinha” que você construiu está errada. E não é sinal de que você deve destruí-la.
É sinal de que uma parte sua que ficou fora do projeto está solicitando reconhecimento. E o pedido, se ignorado, escala. Ignorar por meses vira ansiedade difusa. Ignorar por anos vira depressão de meia-idade. Ignorar por décadas vira o famoso colapso aos cinquenta.
Marion Woodman, analista junguiana canadense que estudou especificamente esse fenômeno em mulheres profissionais, chama isso de “the price of the persona” (o preço da persona). A persona é a personalidade organizada que você apresenta ao mundo. A sombra é tudo o que foi excluído dela. E a persona sem trabalho de sombra sempre cobra o preço em algum momento.
O impulso de fazer uma loucura raramente é sobre a loucura em si. É sobre uma parte sua que quer aparecer e ainda não sabe como.
Agora, a parte que interessa: o que fazer com o impulso.
A tradição junguiana tem uma técnica que funciona muito bem e que evita tanto o extremo de reprimir tudo quanto o extremo de fazer a loucura literal.
Primeiro passo: nomear a sombra.
Quando o impulso aparece, em vez de agir ou reprimir, você nomeia. Pergunta: “Que parte de mim está solicitando espaço aqui?”
Se a vontade é abandonar o marido e ir morar em Bali, a parte solicitando espaço não é necessariamente “quero abandonar o marido”. Pode ser: quero autonomia radical, quero exploração cultural, quero espaço não doméstico, quero identidade fora de mãe-esposa.
Se a vontade é ter um caso com o colega de trabalho, a parte solicitando espaço não é necessariamente “quero trair meu marido”. Pode ser: quero ser desejada de novo, quero mistério na minha vida, quero risco controlado, quero uma versão minha mais sexual.
Se a vontade é largar tudo e virar chef ou artista, a parte solicitando espaço não é necessariamente “quero mudar de carreira”. Pode ser: quero fazer algo com as mãos, quero prazer sensorial na vida, quero criar em vez de administrar.
Segundo passo: dar espaço parcial para a sombra na estrutura existente.
Uma vez nomeada a parte solicitando espaço, você pergunta: como posso dar espaço parcial para ela, sem destruir a estrutura maior?
Se é autonomia radical: viagem sozinha três dias por mês. Curso à noite sem envolver o marido. Um projeto que só é seu.
Se é para desejar: um novo passatempo que envolva um mundo social novo. Cuidar mais do corpo para sentir de volta. Uma amizade nova com um homem em contexto não romântico. Ou, em alguns casos e com muito cuidado, uma exploração sexual no casamento (fantasia compartilhada, cenário novo).
Se é criação com as mãos: aula de cerâmica. Aula de culinária avançada. Um projeto de escrita. Um passatempo manual regular.
O princípio é: sombra não precisa da loucura literal. Precisa de reconhecimento e de espaço proporcional. Espaço parcial resolve 80% do impulso.
Terceiro passo: aceitar que a sombra continua existindo.
Isso é difícil. A mulher que fez o trabalho quer que o impulso “acabe” completamente. Não acaba. Ele diminui de intensidade quando você dá espaço, mas volta em ondas de vez em quando.
Aceitar isso significa fazer o trabalho de dar espaço à sombra como prática recorrente, não como projeto único que se conclui. Toda temporada da vida traz novas sombras. A mulher que dá espaço a elas consistentemente ao longo de décadas geralmente tem vida rica sem grandes rupturas.
Vamos falar de duas mulheres que fizeram isso bem e que evitaram o extremo de Anaïs Nin.
Doris Lessing, escritora inglesa que ganhou o Nobel de Literatura em 2007, se casou duas vezes cedo, teve três filhos e, nos anos 40, deixou o segundo marido e um dos filhos pequenos para ir escrever em Londres. Foi radical. Doeu. Mas ela reconheceu, décadas depois, que se não tivesse feito aquilo, teria vivido a vida de outra pessoa. O que ela aconselhava a mulheres mais novas era diferente: fazer o trabalho de sombra antes de precisar romper. Escrever mesmo no casamento. Viajar mesmo com filhos pequenos. Manter um pé de fora antes que a saída se tornasse a única opção.
Georgia O'Keeffe, pintora americana, casou-se com Alfred Stieglitz aos 37 anos. Ele era mais velho, cuidava dela emocionalmente, gerenciava a carreira dela. Aos 42 anos, ela começou a passar os verões sozinha no Novo México, longe dele, meses seguidos. Nunca terminou o casamento, teve caso. Mas construiu um espaço radical para a sombra na estrutura de casamento estável. Depois da morte dele, ela mudou para o México permanentemente e pintou os quadros mais importantes da vida dela.
Nas duas, a lição é a mesma: sombra dá para ser acomodada em estrutura de longo prazo, mas exige coragem de tomar espaço concreto. Não é espetáculo. É reorganização.
Uma amiga minha, aos 39 anos, me disse uma coisa que ficou comigo: “Tenho a vida que escolhi. E ainda assim, uma vez por mês, eu quero destruir tudo. Descobri que, se viajo sozinha três dias por trimestre, essa vontade não some, mas fica gerenciável. Se eu não viajo, ela cresce até eu fazer alguma bobagem.”
Ela viaja, continua casada, continua sendo mãe, continua sendo executiva. E ela está bem.
A vontade de fazer uma loucura não é um problema a eliminar. É solicitada acomodação. Mulheres que aprendem a acomodá-lo têm vidas ricas sem grandes catástrofes. Mulheres que reprimem por décadas têm frequentemente a catástrofe aos cinquenta, sem controle sobre o formato.
Clarense