A mudez que transportamos por anos a fio, o preço emocional que isso impõe, e a engrenagem peculiar que transforma a vergonha passada em um fardo só nosso.

Annie Ernaux escreveu em Os Anos, o livro que ganhou o Nobel de 2022, que a vergonha é a coisa mais persistente que a gente carrega da infância para o interior da vida adulta, mais persistente que o afeto, que o medo, que o desejo, porque a vergonha se instala num lugar do corpo que quase ninguém acessa sem trabalho psíquico especializado. Ela escreveu isso aos 82 anos, olhando para trás, cinquenta anos de vida, e o trecho parou na minha cabeça de um jeito estranho, porque acabei de ouvir a mesma coisa, quase palavra por palavra, numa conversa com uma amiga que virou terapeuta lacaniana.

A amiga disse assim, tomando chá com pão de queijo numa tarde de sábado: “A vergonha que a paciente traz na primeira sessão nunca é vergonha dela, é vergonha herdada, e o trabalho terapêutico é justamente separar o que é dela do que ela pegou para carregar.”


Eu tenho, digamos aqui, uma vergonha que carrego há muito tempo, e vou utilizá-la como caso porque acho que ilustra bem o padrão que quero descrever. A vergonha é de algo que fiz aos 17 anos numa festa de formatura de amiga, e o detalhe específico não importa para o que quero mostrar, mas o formato dela é o seguinte: falei algo em voz alta, na frente de outras pessoas, sobre uma amiga que estava tendo problema com a mãe, e a coisa que falei, sem maldade nenhuma, causou uma reação que reverberou por meses.

O que interessa é que essa vergonha, que tem hoje quase 20 anos, ainda me visita em momentos aleatórios, tipo três da manhã na cama sem sono, ou no chuveiro após um dia longo, e ela vem sempre com a mesma sensação, uma sensação de que sou uma pessoa má, uma pessoa que fere sem perceber, uma pessoa que se conhece mal.

Foi só após muitos anos de terapia e de conversar com essa amiga, hoje adulta e terapeuta, que entendi uma coisa técnica que muda o assunto todo. A vergonha que carrego daquela festa não trata do que fiz, mas do roteiro que aprendi antes daquela festa sobre o que mulher pode e não pode dizer em público, sobre discrição, sobre lealdade feminina, sobre solidariedade entre amigas. Esse roteiro foi passado para mim pela minha mãe, pela minha avó, pelas escolas de freira que estudei, e ele estava lá antes daquela festa e continuou depois. O que fiz na festa apenas ativou o roteiro.

Se eu tivesse feito exatamente a mesma coisa sem o roteiro prévio, a vergonha teria durado quarenta e oito horas e sumido. O roteiro é o que faz ela durar vinte anos.


Isso pode soar teórico, então vale trazer a pesquisa que sustenta. Brené Brown, que fez o trabalho de pesquisa mais robusto sobre vergonha nas últimas duas décadas, na Universidade de Houston, mapeou uma diferença técnica entre culpa e vergonha que muda o entendimento da experiência.

Culpa é a sensação “eu fiz uma coisa ruim.” Ela é responsiva, específica, e frequentemente construtiva, porque motiva reparo, desculpa, mudança de comportamento. Culpa dura o que precisa durar e some.

Vergonha é a sensação “eu sou uma pessoa ruim.” Ela é identitária, difusa, e frequentemente destrutiva, porque não motiva reparo, motiva esconder. Vergonha não some, ela se cristaliza.

E o mecanismo pelo qual a culpa vira vergonha, o mecanismo interessante para este texto, é exatamente o roteiro prévio que a gente já tinha antes do ato. Se o ato bate num roteiro cultural forte, tipo “mulher não fofoca”, “mulher não trai”, “mulher não abandona filho”, “mulher não gasta dinheiro à toa”, “mulher não fala palavrão em jantar formal”, “mulher não flerta com marido de amiga”, então a culpa se transforma em vergonha, e a vergonha carrega o peso do roteiro, não o peso do ato.

Traduzido: você não está carregando vergonha do que fez, você está carregando o peso de dois mil anos de instrução moral sobre como a mulher deveria ser.


A vergonha que você carrega há vinte anos raramente é sobre o que você fez, é sobre o script cultural que você ativou.

Vamos discutir três envergonhamentos que as mulheres guardam como segredos há anos, e como cada um tem seu próprio roteiro, pois o caminho altera a vivência.

Ter dito algo sobre uma amiga que a magoou.

O roteiro: “Mulher tem que ser leal a outras mulheres, sempre, sob qualquer circunstância, e traição feminina é o pior crime moral.” Esse roteiro foi construído por catequese religiosa desde o século XIII, reforçado por literatura vitoriana, reproduzido por cinema hollywoodiano, e continua ativo em conversas de mulheres hoje. Ele torna qualquer falha de lealdade um pecado teológico, não um erro humano corrigível.

Ter deixado de cuidar de alguém que precisava (mãe idosa, filho pequeno, marido doente).

O roteiro: “mulher é a cuidadora universal, e se ela falha em cuidar, ela falha na função básica da feminilidade.” Esse roteiro tem raiz teológica cristã (Maria como mãe universal), foi radicalizado pela cultura burguesa do século XIX, e continua produzindo culpa desproporcional em qualquer mulher que priorize a si mesma sobre um dependente. Homens não sofrem essa vergonha na mesma escala, porque o roteiro masculino de cuidado é diferente.

Ter tido sexo, prazer ou desejo de forma que não bateu com a expectativa cultural.

O roteiro: “sexualidade feminina existe em serviço da maternidade e do casamento monogâmico.” Esse roteiro tem quatro mil anos, apareceu no Código de Hamurábi, foi radicalizado por São Paulo e Santo Agostinho, e produz até hoje vergonha profunda em mulheres que tiveram sexo casual, orgasmos em situações “erradas”, ou desejo por pessoas fora do casamento, mesmo quando o comportamento delas foi consensual e sem dano a terceiros.

Nos três casos, a vergonha não trata do ato, mas do roteiro que o ato ativou.


Estudos longitudinais em psicologia do desenvolvimento, que Brené Brown resume em Daring Greatly, mostram que vergonha crônica não processada correlaciona-se com três coisas mensuráveis: dificuldade de intimidade adulta (a vergonha faz esconder), autossabotagem em momentos de sucesso (a vergonha faz achar que você não merece), e vulnerabilidade a relacionamentos abusivos (a vergonha faz aceitar tratamento que você não deveria).

Ou seja, a vergonha herdada não é só desconforto psíquico, é fator de risco para padrões de vida que limitam sua liberdade.

Isso não é dramático, é epidemiológico. A maioria das mulheres carrega pelo menos três vergonhas herdadas grandes, ativas há mais de dez anos, sem nunca ter feito o trabalho de separar o que é ato do que é roteiro. E o custo cumulativo dessas três vergonhas ao longo de vinte, trinta anos é uma vida ligeiramente menos ambiciosa, menos íntima, menos experimental do que poderia ter sido.


Como fazer o trabalho de separar o ato do roteiro, na prática.

Não é rápido, mas é factível fora do consultório, com trabalho de reflexão sistemática ao longo de três passos que descrevo agora.

Nomear a vergonha com precisão.

Sente, escreve e diz em voz alta para você mesma: “eu me envergonho de X”. Se você não consegue dizer, não consegue trabalhar. A vergonha se alimenta do não-dito, ela definha quando é nomeada. Não precisa contar para ninguém ainda, precisa contar para você mesma com clareza.

Identificar o roteiro.

Pergunta: “Que instrução moral eu recebi antes desse ato que faz ele parecer imperdoável hoje?” Rastreia a origem: veio de mãe, de igreja, de escola, de literatura, de cinema, de amiga? Escreve a frase-roteiro literalmente, tipo “mulher não pode X”. Ver a frase escrita muda de peso teológico para frase de época.

Perguntar quem se beneficia do roteiro.

Se o roteiro é “mulher não pode gastar dinheiro à toa”, pergunta quem historicamente se beneficiou dessa instrução. Se o roteiro é “mulher não pode expressar desejo sexual”, pergunta quem se beneficiou. A resposta quase sempre é uma estrutura de poder que utilizava o roteiro para controlar o comportamento feminino em serviço de outra coisa, geralmente propriedade, herança ou trabalho reprodutivo.

Ver o roteiro como ferramenta de controle diminui o peso identitário dele. Você não é uma pessoa ruim por violar o roteiro, você é uma pessoa que violou uma regra que servia a interesse alheio.


Isso não elimina a culpa por atos concretos que causaram dano real. Se você magoou alguém de fato, o trabalho reparativo continua sendo pedir desculpa, mudar comportamento, refazer relação se possível.

O que muda é a diferença entre culpa e vergonha. Culpa por ato específico é útil, ela guia comportamento futuro. Vergonha herdada por roteiro cultural é uma carga que você não devia estar carregando, e reconhecer isso é o começo do trabalho de devolver o peso para quem construiu o roteiro, não continuar guardando na sua psique.


A Ernaux, com quem comecei este texto, escreveu em outro trecho de Os Anos uma frase que virou lugar comum em círculos literários feministas europeus: “Ce que je porte n'est pas à moi.” O que carrego não é meu.

Essa é a frase-turn deste texto. Se você tem uma vergonha ativa há mais de dez anos, é bem provável que ela não seja sua, é bem provável que você esteja carregando peso emprestado de um roteiro cultural que serve a interesse alheio.

O trabalho de devolver esse peso é privado, mas é possível, e é uma das intervenções psíquicas mais transformadoras que uma mulher adulta pode fazer em si mesma. Uma vergonha só, a mais persistente, é ver o que acontece quando você nomeia, identifica o roteiro e pergunta a quem serviu.

Clarense


Referências: Annie Ernaux (Os Anos), Brené Brown (Daring Greatly, I Thought It Was Just Me), pesquisa em vergonha crônica da Universidade de Houston, Melanie Klein (sobre culpa e reparação), Silvan Tomkins (teoria dos afetos), Silvia Federici (Caliban and the Witch, sobre construção histórica do controle feminino).

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