Uma reflexão pessoal sobre o pacto que ninguém articula com clareza no casamento, e o custo psíquico de fingir cordialidade sem sustentação afetiva real:
Eu estive casada, por poucos anos, com um homem cuja mãe era, por qualquer critério objetivo, uma pessoa difícil. Ela era controladora sem se dar conta, opinava sobre a decoração da nossa casa sem ser convidada, comentava sobre a educação dos filhos que ainda não tínhamos como se eles já existissem, mantinha registro mental detalhado de quantas vezes eu havia visitado ela em relação a quantas vezes ela havia visitado nós, e reagia com melancolia performática a qualquer decisão que sinalizasse maior independência do filho em relação a ela. Nada disso era catastrófico. Ela não era abusiva, não era cruel, não era manipuladora clara, era, apenas, uma pessoa cansativa de estar próxima e uma pessoa que eu nunca teria escolhido incluir na minha vida se a escolha fosse baseada em compatibilidade real, entrou na minha vida como consequência do casamento com o filho dela, e eu passei os primeiros seis anos tentando, com esforço consciente, gostar dela em algum grau real, e falhando consistentemente.
Vou começar pela minha descoberta, porque ela é o ponto central do que quero comunicar. O que descobri, após seis anos tentando gostar da sogra, é que a cultura contemporânea brasileira estabelece um pacto tácito que quase ninguém articula com clareza no início do casamento, e que produz sofrimento desproporcional para muitas mulheres ao longo de décadas.
O pacto é o seguinte. Quando você casa com um homem, você se casa também com a família dele, e você é esperada a desenvolver afeto real por cada membro dessa família como se fosse extensão natural do amor pelo marido. Sogra vira “quase mãe” idealizada. Sogro vira “quase pai” idealizado. Cunhadas viram “quase irmãs”. A ausência desse afeto real é interpretada como sinal de que você não ama o marido o suficiente, ou de que você é fria, ou de que você não sabe fazer família.
Esse pacto é impossível de sustentar honestamente, e a maioria das mulheres passa a primeira década de casamento fingindo que sustenta, produzindo desgaste psíquico crescente que raramente é nomeado com clareza. Fingir afeto que não existe é um dos trabalhos emocionais mais exaustivos que existem, e ele é feito continuamente por milhões de mulheres brasileiras casadas, sem reconhecimento social, sem compensação, sem articulação.
A minha descoberta foi que esse pacto é falso, que ele não deve ser sustentado, e que a resposta adulta é substituí-lo por outro pacto, mais honesto, que produz muito menos sofrimento e frequentemente relações melhores.
Pesquisa em relações familiares extensas, conduzida por Deborah Merrill na Universidade de Clark ao longo dos anos 1990 e 2000, mostrou que em torno de 68% das mulheres casadas relatam, em ambiente confidencial, que não sentem afeto real pela sogra, apesar de manterem relação cordial. Dentro desse grupo de 68%, aproximadamente metade relata sentir cansaço psíquico contínuo pela apresentação de cordialidade afetiva, e a outra metade relata ter chegado a algum acordo interno que reduziu o cansaço.
Ou seja, a experiência de não gostar da sogra é majoritária. A apresentação cansativa também é. E a resolução psíquica do problema, quando acontece, é sempre resultado de trabalho consciente, não de tempo passando.
Reconhecer isso remove o isolamento específico que muitas mulheres sentem, entendendo que elas são as únicas com problema. Elas não são. A situação é padrão. E ela tem soluções mapeadas.
Afeto real entre adultos que não têm base compartilhada anterior é resultado de convergência progressiva de valor, interesse, humor, história. Ele leva tempo para se formar, requer intersecção suficiente para ser autêntico, e não pode ser fabricado por vontade. Duas pessoas podem se respeitar, colaborar, ser cordiais, honrar compromissos mútuos. Mas afeto real não é escolha voluntária, é resultado de compatibilidade.
Quando duas pessoas são muito diferentes, com prioridades diferentes, valores diferentes, humor diferente, sendo forçadas por circunstância (casamento com filho ou irmão) a interagir com frequência, o afeto real raramente aparece. A tentativa de forçá-lo produz três efeitos ruins.
Primeiro, ela produz desgaste psíquico contínuo pelo desempenho do que não se sente.
Segundo, ela produz desonestidade emocional que a sogra frequentemente detecta em algum nível, mesmo quando não articulada, degradando a relação em vez de melhorar.
Terceiro, ela produz decepção crônica em você, porque a expectativa de afeto real que nunca chega vira sinal de falha pessoal.
A resposta técnica não é trabalhar mais duro para sentir afeto que não vai vir. É reorganizar a expectativa em pacto diferente, que não requer afeto real e que sustenta relação funcional sem desgaste.
A cordialidade cansativa forçada por pacto tácito de afeto real é um dos custos psíquicos menos nomeados do casamento contemporâneo. Substituir esse pacto por acordo adulto sem exigência de afeto reduz o custo drasticamente.
O pacto adulto substitutivo tem quatro princípios.
Princípio um: cordialidade, sim; afeto real, não.
Você mantém cordialidade adulta com a sogra em todas as interações, é educada, presente em eventos importantes, respeitosa em conversa, atenciosa em ocasião de saúde ou dificuldade, não finge afeto que não sente, não utiliza vocabulário íntimo que não corresponde à sensação concreta, mantém um tom cordial, adulto, não íntimo forçado.
Princípio dois: honestidade privada com você mesma sobre o que sente.
Você para de tentar convencer a si mesmo de que gosta dela quando você não gosta, reconhece internamente, com honestidade, que a relação é cordial, não afetiva. Isso libera energia psíquica que estava sendo gasta na tentativa de autocomvencimento?
Princípio três: proteção do tempo próprio contra a intrusão dela.
Cordialidade adulta não requer disponibilidade infinita. Você define quantas visitas por mês, quantos telefonemas por semana, quantos jantares por ano são adequados para manter a relação cordial. Fora desses limites, você respeita seu próprio tempo. Se ela pressiona por mais, você mantém o limite com naturalidade, sem culpa.
Princípio quatro: apoio ao seu marido na relação dele com a mãe dele, sem virar mediadora.
Você reconhece que a relação primária é entre ele e a mãe dele, não entre você e ela, apoia e mantém essa relação de forma que ele considera adequada, sem se colocar como intermediária, não faz o telefonema semanal para ela em nome dele, não decide sobre a agenda de visitas dele com ela, não carrega o peso emocional das interações dele com ela.
Isso é o pacto adulto substitutivo. Ele não requer amor. Requer honestidade. E ele produz relação sustentável em vez de apresentação cansativa.
Nos primeiros meses depois da mudança, você tipicamente sente três coisas.
Primeiro, alívio significativo pela redução do trabalho emocional de fingir afeto. A liberação de energia psíquica é imediata e perceptível.
Segundo, uma sensação inicial de culpa por não estar mais tentando “amar” a sogra, seguida de perceber que a culpa era herança do pacto tácito antigo, não sinal de que você está fazendo algo errado.
Terceiro, uma clareza sobre suas próprias necessidades em outras dimensões do casamento que estavam sendo obscurecidas pelo peso do espetáculo com a sogra.
Depois desses primeiros meses, algo interessante frequentemente acontece. A sogra, que sempre percebia em algum nível a desonestidade emocional do desempenho anterior, sente a mudança sem conseguir nomear. Ela frequentemente relaxa em repouso, porque a tensão de fundo (que ela também sentia sem articular) diminui. A relação vira mais leve, ainda que não íntima.
Em alguns casos, a nova cordialidade honesta abre espaço para que afeto real emerja gradualmente, de forma orgânica, ao longo dos anos. Isso é bônus, não meta. Mas acontece com frequência maior do que a tentativa forçada anterior produzia.
Como implementar o pacto adulto substitutivo na prática?
Passo um: nomear para si mesma o que você sente, com honestidade.
Sente e escreve numa página: “Eu não gosto da minha sogra ao nível afetivo. Eu a respeito. Eu a apoio em situações importantes. Mas eu não a amo e provavelmente nunca vou amar.” Ler essa página em voz alta remove o tabu interno e libera trabalho psíquico subsequente.
Passo dois: definir os limites concretos que sustentam cordialidade sem desgaste.
Quantas visitas por mês, quantos telefonemas por semana, quanto tempo por evento familiar. Definir com clareza e comunicar naturalmente quando necessário. “Adoraria almoçar com você no próximo domingo, e no fim de semana seguinte já tenho outros compromissos” é uma frase útil.
Passo três: parar de fazer trabalho emocional que não é seu.
Se seu marido tem conflito com a mãe dele, é conflito dele. Você pode ouvir, apoiar, opinar se solicitado, mas não resolver por ele. Se ele quer telefonar mais, ele telefona mais. Se ele quer visitar menos, ele visita menos. Você não é gerente da relação entre os dois.
Passo quatro: honrar compromissos importantes com respeito e sem excesso.
Aniversários, feriados familiares, celebrações importantes: presença adulta cordial, com atenção real na hora, sem esforço performático desmedido. Presença consistente ao longo dos anos vale mais que espetáculo esporádico.
Passo cinco: aceitar que essa relação vai ser cordial pelo resto da vida, não íntima.
E que isso é resultado perfeitamente aceitável. Não requer luto. Não é fracasso. É reconhecimento honesto da natureza da relação.
É fundamental anotar, por fim, algo bem relevante. Se a sua sogra se comporta como uma rainha tirana, com controle absoluto, manipulando a todos ao seu redor e trazendo uma aura de toxicidade, este texto não se aplica à sua história. Nesse cenário, a amabilidade sem fim não é o entrave. A questão gira em torno de um exagero, e a solução solicita um afastamento mais amplo, sessões de autoconhecimento e, quem sabe, até uma terapia conjunta para colocar você e seu parceiro em sintonia quanto aos limites.
Voltando ao meu início. Depois que adotei o pacto adulto substitutivo aos meus 34 anos, após seis anos de tentativa infrutífera, minha relação com a sogra melhorou substancialmente. Ela continuou sendo uma pessoa ansiosa. Continuei sem gostar dela ao nível afetivo real. Mas a relação virou cordial, funcional, sem drama, sem desempenho, sem desgaste maior. Aos 45 anos, quando ela ficou doente, eu apoiei com atenção genuína dentro do que a relação cordial permitia, e ela pereceu aos 78 anos com relação sustentável entre nós, ainda que não íntima.
Se você tem sogra que você não escolheria, e você está passando os anos tentando gostar dela em algum grau real, saiba que o esforço provavelmente não vai produzir o resultado esperado, e que ele é um dos custos psíquicos mais altos e menos nomeados do casamento contemporâneo brasileiro. Vale substituir o pacto tácito de afeto real por pacto adulto de cordialidade honesta. A liberação de energia psíquica é imediata, a relação se sustenta melhor, e você recupera espaço para outras dimensões da vida que estavam sendo comprimidas.
Clarense
Referências: Deborah Merrill (Mothers-in-Law and Daughters-in-Law), Terri Apter (What Do You Want from Me? Learning to Get Along with In-Laws), Judy Ford (Every Daughter-in-Law Deserves a Good Mother-in-Law), Deborah Tannen (You're Wearing That?), Susan Abel Lieberman (The Real Thirteenth Step), Arlie Hochschild (The Managed Heart, sobre trabalho emocional).