Na parte de “Uma Certa Idade” de Rachel Cusk, a narradora percebe que o segundo namoro após o divórcio é diferente. Ela nota como as coisas mudam e como se sente de um jeito especial nessa nova relação. É um momento em que ela reflete sobre o que aprendeu após ter se separado. Ela entende melhor o que quer e o que não quer em um relacionamento.

Rachel Cusk escreveu em Uma Certa Idade uma das descrições mais precisas que a literatura contemporânea produziu sobre a diferença específica entre estar em relação com um homem que fez trabalho psíquico próprio e estar em relação com um homem que não fez. A narradora, mulher inglesa recém-divorciada aos 43 anos, começa a se relacionar após dois anos sozinha com um homem também divorciado, e no capítulo em que ela descreve os primeiros meses da relação, aparece uma passagem que muitas leitoras marcam. Ela reconhece, sem articular em termos técnicos, que a diferença entre esse homem e o marido anterior não é diferença de qualidade de caráter, é diferença de qualidade de trabalho interior.

O primeiro vai agir como uma tartaruga em meio a um ataque de gaivotas a cada obstáculo que surgir. O segundo parece bem intrigado, como um gato que encontrou um novelo de lã. O primeiro tinha que ser persuadido de que a questão realmente estava aflorando. O segundo vê a questão antes mesmo que ela tenha que rotulá-la. E na última linha do trecho, ela pinta com palavras a essência exata que destaca a distinção: “Com ele, não preciso me transformar em intérprete do que vivemos juntos.”


É preciso iniciar entendendo o que quer dizer, na prática, ter um “homem em terapia” dentro de um relacionamento, pois muitas vezes as expectativas estão desajustadas na balança do amor.

Homem que fez trabalho psíquico próprio ao longo de 2 ou 3 anos, com terapeuta qualificada, com dedicação real, apresenta em contexto de relação amorosa quatro capacidades específicas que a maioria dos homens brasileiros da mesma faixa etária ainda não desenvolveu.

Capacidade um: reconhecimento do próprio estado emocional no momento.

Ele consegue dizer, de modo relativamente calibrado, o que ele está sentindo enquanto está sentindo. Não sempre e nem perfeitamente. Mas em pontos de tensão relacional, ele consegue nomear “eu estou irritado agora e é porque X” em vez de reagir em modo automático sem consciência plena. Essa capacidade sozinha reduz significativamente a quantidade de conflito não articulado em relação e reduz o trabalho tradutor que a mulher precisa fazer.

Capacidade de duas separações entre o gatilho atual e a história pessoal.

Ele reconhece quando a reação atual a algo que você fez tem uma componente da história pessoal dele que não é sobre você. Isso permite uma conversa na qual o passado dele é reconhecido como contexto, sem que você tenha que carregar o peso de dinâmicas que não criou. Sem essa capacidade, a mulher frequentemente vira alvo de reações que pertencem a ex-namoradas, à mãe do parceiro, ao padrão de infância dele, sem que a projeção seja reconhecida.

Capacidade três: tolerância ao desconforto em conversa difícil.

Ele consegue sustentar uma conversa em que ele está sendo criticado ou em que está reconhecendo o próprio erro, sem entrar em defensiva, sem virar vítima, sem reverter em contra-acusação. Essa capacidade é rara, e ela é o que permite que problemas relacionais sejam efetivamente trabalhados colaborativamente em vez de virarem tempestades cíclicas.

Capacidade quatro: linguagem específica sobre estados internos.

Ele tem vocabulário próprio para descrever o que sente e o que percebe. Não linguagem terapêutica performática (“estou em processo, estou olhando para dentro”), mas linguagem específica genuína (“eu percebi que quando você não responde em modo imediato, eu entro num loop de ansiedade que vem da minha história com minha mãe, e eu estou tentando não descarregar isso em você”). A linguagem específica permite uma conversa técnica sobre a relação, de modo que casais sem essa linguagem raramente conseguem sustentar.

As quatro capacidades combinadas produzem experiência de relação qualitativamente distinta. A mulher em relação com o homem que tem as quatro relata frequentemente que “a relação é mais fácil”, de modo que ela não consegue explicar tecnicamente. A diferença é que ela não é mais tradutora principal da relação; ela é participante de modo mais equilibrado.


Versão exibicionista tem quatro sinais específicos.

Sinal um: utiliza vocabulário terapêutico em modo performático.

Fala em “meu processo”, “estou olhando para dentro”, “isso é gatilho para mim”, “estou processando”, em modo constante, em qualquer conversa, com qualquer pessoa, sem que a linguagem produza mudança correspondente em comportamento. A linguagem é sinalização social (“olha, eu faço terapia, eu sou moderno”), não instrumento de auto-compreensão.

Sinal dois: utiliza terapia como escudo em conflito relacional.

Quando você aponta algo que ele fez que te machucou, ele responde com “meu terapeuta e eu estamos trabalhando nisso” ou “isso é padrão meu que eu estou processando”, de modo que desloca a conversa de reparo imediato para promessa de trabalho futuro. A promessa possibilita tirar peso da situação atual, mas o trabalho prometido raramente produz mudança observável.

Sinal três: fala em detalhes técnicos que pertencem à sessão dele.

Ele conta extensivamente o que a terapeuta disse, o que ele descobriu na sessão de terça, quais são os padrões que estão sendo trabalhados. Isso pode parecer transparência benéfica, mas frequentemente é forma de terceirizar processamento psíquico para você em vez de fazer o trabalho na sessão. Você vira segunda terapeuta não paga, produzindo o mesmo padrão descrito em outro texto sobre amiga em queixa recorrente.

Sinal quatro: apresentação dura poucas semanas; comportamento não muda.

O sinal mais claro. Após 6 ou 8 meses de relação, você percebe que, apesar de todo o vocabulário terapêutico, os padrões dele são estruturalmente iguais aos de quando vocês começaram. Ele reconhece cada padrão em modo verbal impressionante, mas não modifica em modo comportamental correspondente. O desempenho é sofisticado. O trabalho de verdade não está acontecendo.

Os quatro sinais combinados identificam a versão exibicionista, e essa versão frequentemente produz uma relação pior do que a de um homem que nunca fez terapia, mas tem caráter estruturalmente sólido tradicionalmente. Porque a versão exibicionista adiciona uma camada de sofisticação retórica que dificulta o reconhecimento dos padrões, mas não os elimina.


Sem dúvida, é hora de jogar na roda a objeção que salta aos olhos. Dizem por aí que, se o espetáculo da ostentação é corriqueiro, então o “rapaz em tratamento” como um crivo já não serve para nada. Quem sabe seja mais prudente dar uma limpada na peneira e considerar outros aspectos, como a personalidade, a solidez na carreira e a abordagem pragmática das coisas? Essa crítica carrega uma fração de verdade.

A verdade parcial é essa. “Homem em terapia”, como filtro binário (faz ou não faz), tem baixo poder discriminante em modo isolado. Mas “homem em terapia + as quatro capacidades reais” continua sendo um filtro potente que identifica de modo confiável parceiros de qualidade estrutural superior para a relação de longo prazo. O ajuste é utilizar o filtro em modo mais fino, não abandoná-lo completamente.

Em modo prático, isso significa que “ele faz terapia” na primeira conversa é informação neutra. As quatro capacidades específicas se revelam nos primeiros 3 a 6 meses de relação, e são elas que devem ser observadas como sinal real, não a autodeclaração de que faz terapia.


Homem que fez trabalho psíquico próprio real apresenta quatro capacidades específicas na relação; a versão exibicionista da mesma condição produz relação estruturalmente pior. Distinguir requer observação ao longo de 3 a 6 meses, não autodeclaração em primeira conversa.

Nota um: mulher que faz terapia sistemática tem detector calibrado.

Mulher que fez trabalho terapêutico próprio ao longo de 2 ou 3 anos desenvolve capacidade de reconhecer as quatro capacidades reais em outra pessoa de modo mais rápido do que mulher que não fez o mesmo trabalho. Isso é reconhecimento por espelho: você reconhece em outro o que você mesma reconhece em si. Portanto, um dos investimentos mais bem calibrados que a mulher pode fazer para melhorar a qualidade das relações amorosas dela é o próprio trabalho terapêutico. Não como pré-requisito moral, como calibragem do próprio filtro.

Nota dois: o homem que fez trabalho psíquico via outros caminhos também vale considerar.

Trabalho psíquico próprio não vem exclusivamente por terapia formal. Pode vir por prática espiritual estruturada (meditação séria por décadas, cristandade estudada em modo profundo, judaísmo praticado com estudo), por trabalho corporal profundo (ioga tradicional em versão estudada, artes marciais internas), por trabalho artístico em modo confrontacional (escrita literária séria, música em modo que exige exposição emocional real), por reconstrução após crise séria (divórcio processado em modo real, luto trabalhado em modo denso).

O homem que fez o trabalho por um desses caminhos apresenta frequentemente as quatro capacidades sem falar em terapia. Vale reconhecer que o filtro não é “terapia formal”, é “trabalho psíquico real”, e ele pode aparecer em caminhos variados. Filtrar exclusivamente por “faz terapia” produz falso negativo em homens que fizeram trabalho equivalente por outras vias.

Nota três: nem toda relação exige as quatro capacidades no mesmo grau.

Se você está buscando uma relação de longo prazo com um projeto compartilhado (filhos, casa, empresa, projeto de vida), as quatro capacidades são quase pré-requisitos. A carga estrutural da relação assim é grande demais para ser sustentada sem elas.

Se você está buscando uma relação mais leve (companhia em fase específica, exploração romântica sem compromisso de vida longa, encontros de qualidade intermitentes), o filtro pode ser mais relaxado. Homem que tem duas ou três das quatro capacidades produz relação de qualidade suficiente para esse contexto, e exigir as quatro reduz o pool a um nível impraticável.

É importante ajustar o filtro de acordo com o tipo de conexão que você deseja, evitando uma abordagem que seja genérica e exagerada, como quem tenta abraçar o mundo com as pernas.


Vale a pena mencionar, por fim, algo que Rachel Cusk menciona de maneira sutil no trecho mencionado e que precisa ser destacado claramente. A distinção entre se relacionar com o sujeito que realizou a tarefa e aquele que ficou de braços cruzados não se trata de amor, mas sim de uma dança de atitudes. Um sujeito que não cumpriu suas obrigações pode nutrir por você um amor verdadeiro, cheio de paixão, entrega e afeto. O que muda é a ferramenta utilizada. O cara que encarou a tarefa possui uma ferramenta mágica capaz de moldar o amor em uma conexão que resiste ao tempo, como um bom vinho que melhora com a idade. Cavalo sem sela tem paixão, porém lhe falta a ferramenta, e a conexão frequentemente se transforma em um teatro de ações repetidas que o amor por si só não consegue desatar.

Isso significa que preferir "homem em terapia real" (com as quatro capacidades) não é preferir menos amor. É preferir amor que tem instrumento próprio pra ser vivido. E essa preferência, em fase adulta da vida em que uma quer construir relação de longo prazo, é decisão calibrada, não capricho contemporâneo.

Se você está considerando um novo parceiro nessa fase da vida, vale observar as quatro capacidades ao longo de 3 a 6 meses antes de investir em modo pleno. E vale, em paralelo, continuar o próprio trabalho psíquico como calibragem do próprio filtro. As duas dimensões operam em modo cumulativo e produzem, ao longo de anos, relações qualitativamente melhores do que geração de nossas mães conseguiu construir em ausência dessas ferramentas.

Clarense


Referências: Rachel Cusk (Uma Certa Idade; Kudos; Aftermath: On Marriage and Separation), Esther Perel (The State of Affairs: Rethinking Infidelity; Mating in Captivity), John Gottman (The Seven Principles for Making Marriage Work), Sue Johnson (Hold Me Tight), Terrence Real (I Don't Want to Talk About It: Overcoming the Secret Legacy of Male Depression).

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