Quais são os desenrolares nos três capítulos de uma jornada individual bem-sucedida? E de que jeito evitar escorregar na casca da banana!
Uma amiga minha de 44 anos me contou, um mês atrás, sobre a primeira viagem sozinha da vida dela. Ela é executiva, casada há dezoito anos, com dois filhos adolescentes. Sempre viajou em férias em família ou com o marido. Aos 44, decidiu querer dez dias sozinha em Portugal. Ela contou para o marido, que aceitou. Contou para os filhos, que reclamaram. Contou para a mãe dela, que perguntou o que estava errado.
Ela me disse depois, no café: “Senti que precisava provar para todo mundo que não estava em crise. Antes mesmo de embarcar.”
Este é o problema mais comum que aparece em mulheres brasileiras que decidem viajar sozinhas aos 40+. Não é o dinheiro. Não é a logística. É a leitura social. A mulher que faz isso é frequentemente vista como estando “passando por algo.” Se ela é casada, o pressuposto é crise conjugal. Se solteira, é depressão. Se separada, é fuga. Quase nunca é o que costuma ser: uma prática de conexão consigo mesma que homens fazem regularmente sem ninguém achar estranho.
Férias em família ou com amigos são feitas para descansar da rotina. Passeios, prazer, descompressão. O tempo é preenchido.
Viagem solo é feita para outra coisa: para ter espaço não preenchido de qualidade. Silêncio. Ausência de estímulo. Sozinho com o próprio pensamento por horas seguidas. Não é o oposto de rotina. É a criação de um vácuo mental que a rotina cotidiana não permite.
Se você vai numa viagem solo achando que vai preencher o tempo com passeios turísticos, vai voltar frustrada. Se vai sabendo que boa parte do tempo será silêncio, vai voltar mudada.
Aqui estão as três etapas que costumam marcar uma jornada solo bem-sucedida, como destacou Cheryl Strayed em sua obra “Wild”, onde se aventurou pelo Pacific Crest Trail aos 26 anos após seu divórcio, e que Pico Iyer menciona em “The Art of Stillness”.
O silêncio incômodo (dias um a três).
Nos primeiros dois ou três dias, você vai passar por um período curioso: você vai sentir tédio, culpa, ansiedade, impulso de checar o celular constantemente, urgência de ligar pra casa, sensação de que "isso foi bobagem, não devia ter vindo." Isso é normal.
O que está acontecendo é neurológico. Sua cabeça, acostumada com estímulo contínuo (trabalho, casa, filhos, celular, notícias, conversas), entra em déficit de estímulo. Isso produz desconforto físico. Você quer preencher.
Se você preencher (aplicativo, ligação, passeio turístico em ritmo intenso), você desperdiça a viagem. A instrução é resistir. Sente o desconforto. Passa.
Ferramentas úteis nessa fase: caderno pra escrever, livro pra ler (não Netflix), caminhada sem destino, café da manhã longo, tomar banho de mar sem hora pra sair da água. Coisas que passam tempo sem gerar estímulo.
Se você aguentar esses três dias sem preencher, a coisa muda.
O autoencontro (dias quatro a sete).
A partir do quarto ou quinto dia, quando a cabeça desacelerou finalmente de verdade, uma coisa diferente começou a acontecer. Pensamentos que estavam empurrados por meses ou anos começam a aparecer. Você começa a lembrar coisas que esquecera, começa a perceber padrões da própria vida que você não via de dentro dela.
Não é epifania mística. É clareza mental que só aparece quando o volume de estímulo cai. E ela é útil.
Muitas mulheres relatam, nessa fase, ter clareza sobre coisas específicas da própria vida que precisavam mudar. Uma decisão de trabalho. Uma conversa que precisava ser tida. Um projeto adiado. Uma relação problemática que finalmente aparece como o que é.
A instrução aqui: escreva. Muito. Sem editar. Sem julgar. Você vai reler dois meses depois e vai ver conexões que na hora não pareciam relevantes.
Retorno mudado (dias oito em diante).
A partir do oitavo dia, se a viagem for longa o suficiente (mínimo dez dias, idealmente duas semanas), uma terceira coisa acontece: você começa a integrar as descobertas dos primeiros sete dias com uma visão do que voltar significa.
Você começa a planejar. Não turisticamente. Existencialmente. O que vai mudar na volta? Quais conversas vou ter? Quais decisões vou tomar?
Esse planejamento não é mental abstrato. É concreto. Se você chegar ao oitavo, nono, décimo dia sem ter feito as fases um e duas, você não chega na fase três. Volta como saiu.
A viagem solo aos 40+ mal feita é férias em outra cidade. A viagem solo bem feita é o único jeito de ter silêncio suficiente pra escutar o que a vida está pedindo.
A maioria das mulheres brasileiras que viajam sozinhas pela primeira vez escolhe destino errado. Escolhe Paris, Nova York, Buenos Aires. Cidades grandes, movimento, muito o que fazer.
Errado. Cidades grandes não permitem silêncio. Você entra em modo turístico automático, planeja o dia, vai ao museu, ao restaurante, à loja. Volta cansada e sem ter tido as fases um, dois e três.
Destinos que funcionam para a primeira viagem solo:
Cidades pequenas europeias com boa infraestrutura: Óbidos (Portugal), Colmar (França), Bruges (Bélgica), San Sebastián (Espanha). Pequenas o suficiente para você não ter que planejar muito, grandes o suficiente para ter bons cafés, restaurantes e caminhadas.
Praias com hotel-boutique fora de temporada: Trancoso em maio, Bahia após janeiro, Nordeste em outubro. Praia vazia, hotel bom, dias longos com pouco para fazer.
Retiros e propriedades rurais bem cuidados: pousada boa em Petrópolis, casa em Campos do Jordão, hotel rural em Portugal ou na Toscana. Ambientes que forçam desaceleração.
O critério de escolha: um lugar onde você não vai sentir pressão para fazer muitas coisas. Onde caminhar cinco horas por dia sem destino específico seja natural. Onde o café da manhã dura duas horas, se você quiser.
Uma coisa técnica sobre a duração da viagem.
Menos de cinco dias: não vale a pena. Você mal completa a fase um. Volta pior que saiu porque foi só desconfortável.
De cinco a sete dias: passagem intermediária. Faz a fase um, entra na fase dois, mas não completa. Sai com clareza parcial. Ainda vale.
Oito a dez dias: a duração mínima ideal. Faz as três fases com folga. Volta transformada. Este é o padrão-ouro.
Duas semanas ou mais: nível avançado. Aprofunda a fase três; permite integração significativa. É o que Cheryl Strayed fez, o que Pico Iyer descreve. Se você tem esse tempo disponível (raro), vale.
Se passar menos de cinco dias, é só um passeio pelas beiradas, nada de aventura solo de verdade.
A minha amiga voltou de Portugal no décimo primeiro dia. Ela me mandou uma mensagem no dia seguinte à volta: “Pedi demissão hoje para começar aquilo que venho adiando há três anos. Falei com o marido. Ele entendeu. Vamos ver.”
Ela deu início a uma coisa importante da vida dela. E ela contou depois que nunca teria feito sem os dez dias em Portugal. Não porque descobriu isso no fado, no restaurante ou na igreja em Lisboa. Descobriu no silêncio dos dias três, quatro, cinco. Sozinha num café perto do hotel, sem celular, com um caderno.
Isso é o que viajar solo aos 40+ faz. Não é fuga. Não é crise. Não é escapismo. É a única forma que a vida adulta permite ter silêncio suficiente para escutar o que está solicitando para mudar.
E se você for casada, a leitura de que “está em crise” é justamente sinal de que a cultura em volta ainda não entendeu que a mulher também precisa disso. Homens fazem isso há séculos sem ninguém achar estranho. Mulheres podem começar a fazer também.
Clarense