Uma norma bem facinha, porém raramente comentada entre as parceiras. Que tal trocarmos uma ideia?

Num jantar de negócios num restaurante bom em São Paulo, num sábado à noite, umas dez pessoas na mesa, o segundo prato ainda não chegou e uma das mulheres já estava na quinta taça de vinho. Ela ria alto, contava a mesma história pela segunda vez e tocava o braço do homem ao lado dela três vezes por minuto. Ninguém disse nada. Todos perceberam.

No dia seguinte, ela mandou uma mensagem no grupo do WhatsApp pedindo desculpas vagamente. “Estava muito cansada, desculpa se falei alguma bobagem.” Uma amiga respondeu com carinho: “Amiga, está tudo bem.” A outra não respondeu. Duas semanas depois, o convite para o próximo jantar naquela mesa não incluiu essa mulher.


Primeiro, é útil ser preciso sobre o que “passar do ponto” significa nesse contexto.

Não se trata apenas de aparentar uma embriaguez notória. Você vai notar quando estiver desse jeito, e a galera ao redor vai perceber também. Aqui não reside o dilema desta redação.

Passar do ponto, no contexto adulto brasileiro elegante, é uma coisa mais sutil. É a mulher que tomou duas taças a mais que a média da mesa, começou a falar um pouco mais alto que o normal, começou a interromper uma vez por rodada, começou a olhar demais para alguém específico, começou a rir um pouco antes das piadas. Ninguém a chama de bêbada. Todos notam.

E o custo social disso é acumulativo. Não é uma noite que faz. É a segunda ou a terceira vez que faz.


Podem-se apresentar três diretrizes técnicas que solucionam essa questão.

Sua taça acompanha a média da mesa, não a sua vontade.

Numa mesa social ou profissional, existe uma média discreta de consumo. Se a maioria está na segunda taça no fim do primeiro prato, você deveria estar na segunda taça. Se você está na quarta, você está adiantada e sinaliza descontrole.

Isso não é sobre acompanhar consumo alheio literalmente. É sobre calibrar seu ritmo à cadência da noite. Se você quer beber mais que a média, você faz isso em um contexto em que beber mais é aceitável (aniversário de amiga próxima, celebração de vitória profissional específica). Não faz em jantar de trabalho, jantar de novos amigos, jantar em casa dos sogros, jantar em restaurante bom.

Regra prática: uma taça a mais que a média da mesa passa autoridade social. Duas taças acima, começa a virar desconforto para os outros. Três é bandeira.

Comer antes vale mais que qualquer truque.

A metabolização do álcool depende de duas coisas: peso corporal e comida no estômago. Uma mulher de 60 kg, com estômago vazio, sente efeito significativo do vinho em vinte minutos. A mesma mulher, com um jantar sólido na mesa, aguenta duas ou três taças com muito mais tranquilidade.

Regra prática: coma um pouco antes de sair de casa se sabe que vai beber. Um pedaço de queijo com pão. Meia dúzia de azeitonas. Não precisa de muita coisa. Só uma base para o álcool não bater direto.

Nunca, jamais, beba com o estômago totalmente vazio. Nem por elegância (a moda de “não vou comer para caber no vestido” com quatro taças de espumante é a fórmula clássica para bêbada de aniversário).

Alternância entre vinho e água.

Uma taça de água entre cada duas taças de vinho reduz drasticamente a absorção de álcool e a desidratação. Você acaba a noite com metade do álcool metabolizado que teria se só bebesse vinho.

Regra prática: solicite uma garrafa de água para a mesa desde o começo. Sirva você mesma. Beba goles regulares. Isso também disfarça se você não quiser que percebam que você está reduzindo o consumo — parece que você está só se hidratando naturalmente, não “cortando bebida.”


Uma taça a mais que a média da mesa comunica autoridade. Três taças a mais comunica descontrole. A diferença é uma taça.

Existe uma coisa mais técnica que vale trazer sobre álcool e ambiente profissional feminino.

A metabolização feminina é 20–30% mais lenta que a masculina, em geral.

Isso é biológico. Mulheres têm menos da enzima que decompõe álcool no estômago. E têm proporcionalmente mais gordura corporal, que retém álcool. Isso significa que uma mulher de 65 kg que bebe a mesma quantidade que um homem de 65 kg fica muito mais afetada.

Consequência prática: se você está numa mesa com colegas homens e todo mundo está no mesmo ritmo, você provavelmente está bebendo demais para seu corpo. Você precisa moderar mais do que eles, não menos.

Isso é injusto. E existe. Ignorar é ficar mais bêbada que os outros, o que é algo em que ninguém quer estar profissionalmente.


Anna Wintour, em quarenta anos de eventos de moda em Nova York, nunca foi fotografada visivelmente alterada. Ela contou numa entrevista que a regra dela em qualquer evento é: uma taça de espumante quando chega, uma taça de vinho branco durante o jantar e água mineral no resto do tempo. Participa de duas ou três festas por noite em semanas de moda. Nunca passou disso.

Christine Lagarde, ex-diretora do FMI, tem uma regra parecida. Ela contou numa entrevista em 2019 que aprendeu cedo na carreira que estar sóbria em jantares de trabalho é vantagem competitiva enorme, porque a maioria das outras pessoas na mesa está alterada nas horas em que decisões importantes surgem em conversa. Bebia sempre com deliberação, uma taça durante a refeição, água no resto do tempo.

Nenhuma das duas é abstêmia. Elas bebem, sabem quando e quanto.


Uma dica prática para jantares em casa de amigos ou em restaurantes com grupos:

Chegue sabendo o número.

Antes de sair, decida quantas taças você vai tomar naquela noite. Duas? Três? Uma? Depende do contexto, da noite, do quanto você comeu.

Chegando, siga o número. Não deixe o momento decidir por você. Se a garrafa estiver cheia e alguém oferecer mais, você agradece e solicita água.

Ninguém no jantar ficará ofendido. Todo mundo respeita quem sabe se gerir.

E se alguém insistir (“ah, vai, só mais uma”), a resposta simples é: “Amanhã tenho um dia complicado; essa vou pular. Água está ótima.”

Nunca precisa justificar mais do que isso, precisa mentir dizendo que não pode beber. E nunca precisa pedir desculpa por moderação.


O que fica desse texto é uma coisa pequena, mas útil. Elegância social adulta não é sobre nunca beber, nunca perder o controle ou performar sobriedade rígida. É sobre saber que o álcool tem função no encontro social (relaxa, aproxima, celebra), mas é custo social quando ultrapassa determinado ponto.

O ponto é conhecível. Um pouco acima da média da mesa. Um pouco mais quando é celebração real. Sempre com comida no estômago, com água intercalando.

Mulheres que dominam isso raramente têm ressaca de fim de semana, raramente têm mensagem constrangedora para mandar no dia seguinte, e saem raramente de festas de trabalho com a reputação sutilmente ferida.

É elegância profissional escondida numa habilidade que ninguém ensina.

Clarense

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