Em um jantar de reencontro aos 31 anos, percebi que os salários no grupo tinham se aberto como leque, mas eu não queria falar do meu.

Aconteceu comigo aos 31 anos, num jantar de reencontro de faculdade que umas amigas organizaram num restaurante em Pinheiros. Éramos oito, todas formadas na mesma turma, todas em fases mais ou menos parecidas da vida, todas com trajetórias que pareciam na faculdade quase intercambiáveis. Ao longo do jantar, no meio de uma conversa sobre a viagem que uma fez e a casa nova que outra comprou, ficou claro, sem que ninguém precisasse dizer com clareza, que os salários no grupo tinham se aberto em um leque bastante largo. Uma trabalhava em consultoria estratégica em cargo sênior e ganhava múltiplos do que eu ganhava. Outra vendera uma pequena participação em uma empresa de tecnologia meses antes e acabara de comprar apartamento à vista em Vila Nova Conceição. Uma terceira foi para Nova York quatro anos antes, trabalhava em banco de investimento e ganhava em dólar. Eu, arquiteta em escritório pequeno, ganhava uma fração do que qualquer uma delas ganhava, e a distância era grande demais para ser explicada por “escolhas de vida diferentes” com honestidade.

O jantar seguiu com bom humor; ninguém foi grosseiro, ninguém quis diminuir ninguém, todas se comportaram como as pessoas educadas que sempre foram. Mas voltei para casa naquela noite com uma sensação específica que muitas mulheres entre 28 e 40 anos conhecem, e é frequentemente pior do que a simples inveja de uma estranha. É a comparação com quem era igual a você aos 22, e que doze anos depois vive em cidade financeira diferente.


Você não sente inveja da milionária de nascimento em Nova York, porque a vida dela nunca cruzou com a sua de modo a permitir comparação legítima, não sente inveja da atriz famosa que ganha, por filme, o que você ganha em cinco anos, porque a carreira dela pertence à categoria completamente separada, raramente sente inveja de colega de trabalho um pouco mais bem paga que você, porque a diferença é pequena e pode ser explicada por trajetória interna razoável.

Mas a amiga de faculdade que ganhava a mesma nota que você em prova de estatística, que ficava até tarde na mesma biblioteca preparando trabalho igual ao seu, que tinha família de configuração similar à sua, que na formatura tinha trajetória aparentemente igual à sua, essa amiga produz uma comparação de modo diferente. A comparação é entre duas trajetórias que começaram no mesmo ponto e divergiram, e a divergência exige explicação que geralmente é desconfortável.

O mecanismo psicológico específico que explica por que essa comparação dói mais é o que pesquisadores em psicologia social chamam de relatividade próxima. Comparação com pessoa distante em posição social produz pouca dor psíquica. Comparação com pessoa próxima em posição diferente produz muita dor psíquica, mesmo que a distância objetiva seja menor. A amiga de faculdade que agora ganha cinco vezes mais que você é o caso mais próximo possível de comparação com divergência grande, a configuração mais dolorosa.


Uma pesquisa em psicologia econômica, conduzida por Angus Deaton em Princeton e Daniel Kahneman ao longo dos anos 2000 e 2010, mostrou que a satisfação de vida não é função absoluta de renda, é função relativa de renda comparada a um grupo de referência próximo. Ou seja, pessoa que ganha 15 mil reais por mês em círculo social em que todos ganham 8 mil reais reporta satisfação de vida alta, enquanto pessoa que ganha 30 mil reais por mês em círculo social em que todos ganham 50 mil reais reporta satisfação de vida baixa.

O grupo de referência é o determinante principal, não o número absoluto. E o grupo de referência mais poderoso para a maioria das mulheres adultas é o grupo de amigas de faculdade, sendo o grupo no qual a identidade profissional inicial se formou.

Isso significa duas coisas. Primeiro, o desconforto que você sente não é irracional nem sinal de fraqueza de caráter. É resultado previsível de mecanismo psíquico bem documentado. Segundo, o desconforto pode ser trabalhado modificando o grupo de referência interno, o que é factível, mas exige investimento consciente ao longo de meses.


Vale contar o que tentei nos primeiros meses, porque provavelmente é o que você já tentou também.

Tentei primeiro convencer a mim mesma de que dinheiro não era o que eu queria. Que escolhi trabalho significativo em vez de trabalho lucrativo. A satisfação criativa que eu tinha valia mais do que um salário alto de consultoria. Isso funcionou por três dias. Depois voltou a doer porque, no fundo, eu queria ambas as coisas, e a racionalização não convencia a parte de mim que sabia que eu tinha aceitado a versão pior do que gostaria.

Tentei depois construir um plano de mudança de carreira. Se as amigas ganhavam múltiplos porque escolheram setores mais lucrativos, então eu poderia mudar de setor também. Comecei a estudar sobre pivô para outra área. Isso durou umas seis semanas até eu perceber que eu não queria pivô; eu queria continuar em arquitetura, e o problema não era a escolha de setor, era a escolha de contexto no setor.

Tentei depois evitar contato com essas amigas por alguns meses, considerando que sem o gatilho da comparação, a dor passaria. Isso reduziu a dor de curto prazo, mas produziu isolamento social que trouxe outros custos e não resolveu o mecanismo psíquico subjacente. Quando o contato voltou naturalmente, a dor voltou também, agora acompanhada de culpa por ter me afastado.


Primeira intervenção que funcionou: diversificar o grupo de referência ativamente.

Comecei a investir tempo em um círculo profissional novo, formado por arquitetas com trajetórias parecidas com a minha, em que a comparação de renda era mais próxima da minha realidade. Grupo de estudo mensal com quatro arquitetas em fase similar. Café quinzenal com colega que virou amiga. Participação em coletivo profissional local. Ao longo de seis meses, o grupo de referência interno se ampliou, e a comparação obsessiva com as amigas da faculdade perdeu parte da intensidade.

Segunda intervenção que funcionou: rever contrato profissional de modo estruturado.

Aos 32 anos, eu percebi que boa parte da dor não era comparação com as amigas em si, era reconhecimento de que meu contrato profissional atual estava mal calibrado. Eu estava sub-remunerada em relação ao mercado da minha área, não só em relação a outras áreas. Trabalhei com uma mentora durante seis meses para reformular contrato e para sair da posição em que estava. O novo contrato não me colocou na faixa das consultoras, mas me colocou em uma faixa que eu podia sustentar sem sentir que estava sendo passada para trás.

Terceira intervenção que funcionou: aceitar diferença estrutural sem produzir explicação moral.

Elas escolheram carreira que produz muito dinheiro. Escolhi uma carreira que produz outros tipos de retorno. Nenhuma das duas escolhas é moralmente superior à outra, e eu não precisava produzir narrativa onde a minha escolha era mais nobre. Aceitar que são caminhos diferentes com trocas diferentes, sem hierarquizar moralmente, reduziu a necessidade de racionalização defensiva que estava consumindo energia.

Quarta intervenção que funcionou: honestidade financeira nas conversas com as amigas.

Em algum ponto, comecei a ser mais direta em conversas sobre dinheiro com as amigas. Não queixosamente, mas factualmente. Quando surgia um planejamento de viagem em grupo, eu dizia que a versão que estava sendo proposta estava acima da minha faixa e sugeria uma alternativa. Quando surgia a ideia de jantar em um restaurante caro, eu dizia que preferiria uma opção diferente. Isso reduziu a farsa que a comparação exigia e aprofundou curiosamente a relação com as que estavam abertas para essa honestidade.


Comparação com amigas de faculdade que ficaram muito mais ricas é mais dolorosa do que outras comparações porque o grupo de referência é próximo demais. Trabalhar essa dor exige diversificar o grupo de referência, não fingir que a comparação não existe.

Vale a pena anotar, por fim, um detalhe que só entendeu tardiamente anos depois. Nem todas as companheiras da refeição naquela noite estavam radiantes com as opções que haviam escolhido. Uma dessas consultoras, lá da área de estratégia, compartilhou comigo, dois anos depois, que estava ponderando em fazer as malas, pois já não suportava mais a maratona frenética da empresa. A outra, que se desfez de sua parte, andava em um dilema existencial, questionando-se o que fazer da vida agora que não precisava correr atrás de dinheiro. A terceira, vinda de Nova York, estava na missão de retornar ao Brasil, sentindo falta de seu clã.

Comparação com foto de renda deles no jantar não captura a foto completa da vida deles fora do jantar. A comparação em ponto único no tempo, congelada em momento social específico, é sempre distorcida. Isso não elimina a diferença material real, que continua existindo, mas dimensiona-a de modo mais preciso.

Aos 34 anos, hoje, eu ainda ganho uma fração do que essas amigas ganham. Continuo em arquitetura, em contexto que escolhi, com margem financeira que sustenta vida com qualidade, mas sem excesso. Continuamos amigas, e a diferença material continua sendo tópico que aparece em jantar em modo esporádico. Mas ela deixou de ser fonte de sofrimento contínuo e virou fato do mundo com o qual convivo de modo estável.

Se você está aos 28 ou 32 anos em fase em que essa comparação está doendo com intensidade, saiba que o mecanismo é conhecido, o trabalho é factível, e a versão sustentável dessa comparação vem após intervenção deliberada, não por espera passiva.

Clarense


Referências: Angus Deaton (Nobel de Economia 2015, pesquisa em subjective well-being), Daniel Kahneman (Thinking, Fast and Slow), Robert Frank (Falling Behind: How Rising Inequality Harms the Middle Class), Alain de Botton (Posição Anxiety), Elizabeth Dunn e Michael Norton (Happy Money).

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