O que os empréstimos no Brasil não comentam, mas é essencial na hora de decidir, decidir é tão relevante.
Encontrei a Beatriz em um evento sobre mercado imobiliário em São Paulo, e ela me revelou algo que me fez refletir por semanas. Ela tinha 33 anos, ocupava o cargo de gerente de produto em uma fintech, recebia um bom salário e havia acabado de registrar a escritura do seu primeiro imóvel, um apartamento de dois quartos em Pinheiros, que ela financiou sozinha, sem a participação do pai, do marido ou de um sócio. O apartamento, de 63 metros quadrados, localizava-se no oitavo andar. Ela relatou-me, enquanto bebia champanhe em um rooftop na Vila Madalena, que a primeira noite que passou lá foi a única em sua vida em que chorou de felicidade sozinha, sem a presença de ninguém para testemunhar, sem ninguém para corroborar ou validar.
Ela afirmou ter consciência de que a lágrima não era pelo apartamento em si, mas pela chave. A chave dela, na fechadura dela, na porta que atribuía acesso ao interior dela.
Isso me marcou profundamente, pois a maioria das mulheres com quem convivo adia esse momento durante toda a vida, esperando o parceiro ideal, a hora certa, a melhora econômica, o casamento, ou qualquer outra coisa que às vezes não acontece. Enquanto isso, elas pagam aluguel por uma década, com dinheiro que poderia estar sendo investido na construção de patrimônio em seus nomes.
Inicialmente, é importante compreender por que a compra de um imóvel sozinha tem um peso desproporcional em comparação a outras decisões financeiras, como a abertura de um CDB, aquisição de ETFs ou até mesmo a criação de uma empresa. A razão é técnica, sendo comprovada em um estudo realizado por Terry Odean e Brad Barber em Berkeley, que indica que ativos de valor simbólico, como uma propriedade residencial, geram um efeito psicológico tangível na sensação de estabilidade, que outros ativos de igual valor financeiro não conseguem gerar.
Interpretação: um CDB no valor de 300 mil em seu nome não tem o mesmo efeito que uma escritura de um imóvel no mesmo valor, mesmo que o valor de mercado seja equivalente. E não é apenas uma impressão. Pesquisas longitudinais sobre mobilidade social indicam que mulheres que adquiriram um imóvel por conta própria antes dos 40 anos fizeram, em média, escolhas profissionais mais arriscadas nos dez anos subsequentes em comparação com mulheres com o mesmo padrão de renda que continuaram alugando. Elas trocaram de trabalho antes do tempo, começaram seus próprios negócios antes da hora, solicitaram reajuste de salário com mais garra e terminaram relacionamentos desgastantes com uma rapidez digna de super-herói.
Isso que chamamos de solo. Possuir um espaço que te pertence de verdade é como ter um passaporte para se aventurar em outras esferas da existência.
É bom incluir o padrão brasileiro que estamos utilizando como referência na nossa escrita. No Brasil, apenas uma fatia de 27% das mulheres solteiras com mais de 30 anos têm um cantinho só delas, segundo os números da PNAD Contínua de 2023. Nas terras do Tio Sam, a façanha é de 47%, enquanto na ilha da rainha marota, a cifra cai para 41%. Já na terra da cerveja e da salsicha, a conta chega a 38%. Em outras palavras, a mulher brasileira que tem boas finanças enfrenta uma espécie de labirinto invisível quando se compara com suas colegas de fora, e a maior parte desse desafio não se deve ao que ela ganha, mas sim a escolhas que ficaram para depois.
Os motivos para a postergação têm raízes culturais, então é interessante destacá-los.
A lenda de que financiamento é uma armadilha. No Brasil, é comum escutar que as taxas de juros para financiamentos são uma verdadeira facada e que quem opta por esse caminho acaba desembolsando o triplo do valor da casa. Esse conto fazia sentido em 1985, quando os juros dançavam a 40% ao ano, mas em 2026 já perdeu a graça, pois os financiamentos habitacionais passeiam com uma taxa média de 11% anuais. Ninguém deu um tapa nas ideias arremessadas na cabeça.
A fábula de que o matrimônio antecede a posse de bens. A famosa frase “primeiro o lar, só depois o bem” surgiu numa época em que as mulheres não podiam fazer suas próprias festanças no banco. Atualmente, ela possui, mas o calendário cultural permanece inalterado e segue fazendo as mulheres aguardarem o momento exato de um príncipe encantado que pode acabar nunca chegando.
Possuir um lar é como ter um hipopótamo como amigo: é grandioso e pode parecer que dá uma trabalheira danada, mas, oh, como proporciona uma felicidade sem igual! Pensar que uma casa é um peso na vida de alguém só por ser grande demais para uma única pessoa é como afirmar que uma estrela não tem valor só porque brilha isolada no céu. Isso desconsidera que uma propriedade também pode ser um cofre cheio de possibilidades, que se valoriza ao longo do tempo, e que viver sozinha em um espaço de 60 metros quadrados é uma das jornadas mais enriquecedoras da vida de uma mulher adulta.
Ter um chão que é seu, literalmente, dá permissão para correr risco em outras áreas da vida.
Aqui vai um guia prático para quem deseja adquirir um imóvel sozinha, na faixa dos 28 aos 40 anos, no Brasil, com um salário mensal que varia de 6 mil a 15 mil reais. Primeiro, comece a juntar suas economias como se estivesse enchendo um cofre de sonhos; cada centavo vai contar. Em seguida, pesquise o mercado como um detetive à procura de pistas, comparando preços e localizações para encontrar a joia rara que se encaixe no seu bolso. Não esqueça de consultar um corretor de imóveis, que pode ser seu parceiro nesse jogo de xadrez, ajudando a navegar pelos meandros burocráticos.
Em seguida, é fundamental explorar as alternativas de financiamento que existem; encare isso como optar pelo sabor mais delicioso de sorvete em uma sorveteria. O próximo movimento é arrumar seus papéis, como se estivesse colocando os temperos de um prato saboroso, sempre à espera de serem servidos aos bancos. Com a ideia na cabeça e as finanças bem ajustadas, você vai estar quase na porta da sua nova aquisição. Prepare-se para as reviravoltas que o caminho irá apresentar, porque comprar uma casa é como embarcar em um passeio de montanha-russa: repleto de emoções e desafios, mas, no fim das contas, uma experiência que vale a pena!
Fazer contas bem pé no chão sobre o que a gente consegue abarcar.
A norma que os bancos tupiniquins adotam é que a parcela do empréstimo não pode ultrapassar um terço da grana que você declara ganhar todo mês. Assim, uma moça que fatura 8 mil todo mês consegue bancar uma parcela de até 2400 por mês. Com um bolso recheado de 2400 por mês, ao longo de três décadas em busca da casa própria, e aproveitando a taxa de juros que dança ao som da média atual, ela pode conquistar cerca de 250 mil reais em um financiamento. Com a adição de uma quantia inicial de 50 mil reais, seja esta planejada ou recebida como herança, ela consegue alcançar o montante necessário para aquisição de um imóvel avaliado em 300 mil reais. Na cidade de São Paulo, esse montante possibilita a aquisição de um estúdio bem posicionado em áreas como Vila Buarque ou Bela Vista, ou ainda de um apartamento com dois dormitórios na periferia expandida, como em Santana ou Cambuci.
Embora não represente o imóvel dos seus anseios, ele é seu, sendo este o primeiro. A finalidade aos 33 anos não consiste em residir no mais excelente apartamento de sua existência, mas sim em iniciar a trajetória na aquisição de um imóvel.
Seleção criteriosa do imóvel.
Priorize três critérios nesta sequência: proximidade de transporte público, como metrôs, e de áreas comerciais; possibilidade de valorização, focando em regiões com transformação urbana evidente; e a facilidade de revenda, evitando imóveis com plantas incomuns ou situados em condomínios com elevados custos de manutenção. O apartamento esteticamente ideal é, atualmente, menos relevante do que aquele que demonstrar ser economicamente vantajoso. A reforma será realizada posteriormente. Ou comercializar após seis anos, com valorização, e adquirir um produto superior.
Negociação de aquisição.
O setor imobiliário no Brasil apresenta uma faixa de negociação entre 8% e 15% na grande parte das transações, sendo que, em média, as mulheres não costumam negociar, aceitando o preço divulgado e desembolsando, em média, 12% a mais do que seria necessário. Adquirir habilidades em negociação implica apresentar uma pesquisa comparativa da área, possuir uma pré-aprovação bancária que demonstre seriedade e ter a disposição genuína de se retirar caso o preço não seja adequado, pois o corretor deve perceber que você não se encontra em estado de desespero; essa percepção altera completamente a dinâmica da negociação.
Análise comparativa de financiamento.
Jamais aceite o primeiro financiamento apresentado. Realize uma simulação em, no mínimo, quatro instituições financeiras, incluindo a Caixa Econômica Federal, que oferece o programa Minha Casa Minha Vida com juros subsidiados para determinadas faixas de renda; o Bradesco; o Santander; e um banco digital, como Nubank ou Inter. A disparidade no custo total entre a alternativa menos vantajosa e a mais favorável pode atingir 60 mil reais no transcurso de 30 anos. Compensa as três tardes de labor comparativas.
É importante anotar um aspecto técnico que raramente é abordado em discussões.
O instante mais apropriado para a aquisição de um imóvel não é definido pela taxa de juros vantajosa, pela oscilação do dólar ou pela valorização do setor imobiliário, mas, sim, pela estabilidade profissional por um período mínimo de dois anos e pela capacidade de realizar um pagamento inicial correspondente, ao menos, a 15% do valor do bem; todos os outros fatores representam meros ruídos econômicos que tendem mais a postergar a decisão do que a influenciá-la.
As mulheres aguardam o cenário ideal e, com isso, desperdiçam de cinco a dez anos nessa expectativa, ao passo que aquelas determinadas conquistaram propriedades em condições vantajosas e efetuam adaptações posteriormente, cientes de que a primeira aquisição é raramente a final, que a edificação de um patrimônio começa precisamente no instante em que a chave é girada pela primeira vez.
Desejo igualmente abordar o impacto psicológico que não recebe a devida preparação. Durante os primeiros seis meses de propriedade individual, uma variedade de emoções é vivenciada por muitas mulheres, alternando entre alívio e sensação de vertigem. A estabilidade proporciona o alívio. A sensação de vertigem surge ao reconhecer, pela primeira vez, que não há mais ninguém que determine o que ocorre no ambiente em que você reside. Em que local você realiza o plantio de quadros? Onde se realiza pintura de paredes. Que tipo de convidada você acolhe? A que horas da noite você costuma tomar banho, com a televisão ligada ou não? Quem repousa em sua cama.
Trata-se de uma vivência madura que, ao invés de proporcionar conforto, impõe um fardo; um fardo positivo que demanda alguns meses de reestruturação psicológica antes de se tornar um alicerce sólido.
A maior parte das mulheres experimenta uma reorganização peculiar durante os primeiros meses, vivenciando episódios de incerteza acerca da decisão tomada, tais como se poderia ter aguardado um período maior, se fez a escolha adequada em relação ao apartamento, entre outros questionamentos. Essa integração psicológica é considerada normal e ocorre entre o sétimo e o décimo mês, resultando em uma nova sensação de estabilidade, a qual proporciona a percepção de estar em algo sólido, um bem que é seu e do qual nada nem ninguém pode privá-la.
Beatriz, mencionada no início do texto, compartilhou uma anedota divertida comigo, dois anos após o episódio, durante uma celebração de aniversário de uma amiga em comum. Ela comentou que a decisão financeira mais impactante nos vinte anos subsequentes à aquisição do apartamento não foi a compra do imóvel em si, mas sim as oportunidades que essa aquisição lhe proporcionou. Seis meses após a assinatura, ela solicitou um aumento em seu emprego; oito meses depois, pôs fim a um relacionamento insatisfatório de sete anos; e, dois anos depois, estabeleceu sua própria consultoria. Cada uma dessas escolhas teve o apartamento como fundamento essencial.
O piso dela, situado no oitavo andar de um edifício em Pinheiros, transformou-se na base de toda a estrutura restante.
Adquirir um imóvel de forma independente antes de completar 40 anos não se trata apenas de uma escolha financeira, mas sim de uma deliberação arquitetônica acerca da identidade que você pretende construir para a próxima década. É pertinente considerar previamente antes de aguardar o cenário ideal.
Clarense
Referências: Terry Odean e Brad Barber (Berkeley, 1998–2001, sobre efeito psicológico de posse de ativos), PNAD Contínua IBGE 2023, Federal Reserve Survey of Consumer Finances 2022, Suze Orman (Women & Money), Vicki Robin (Your Money or Your Life), Ramit Sethi (I Will Teach You to Be Rich).