É errado achar que bons empregos devem ser mantidos só porque são bons. É importante observar que, após um tempo, um bom emprego pode se tornar uma armadilha que traz problemas.

A ideia de que uma mulher com um emprego bom deveria mantê-lo mesmo quando começa a se perguntar se ainda faz sentido é uma das crenças mais persistentes da cultura profissional brasileira contemporânea, e ela está errada em três dimensões que valem a pena examinar com cuidado. Primeiro, ela está errada empiricamente, porque as pesquisas em economia comportamental mostram que emprego mantido além do ponto de utilidade produz custo cumulativo maior do que emprego trocado. Segundo, ela está errada psicanaliticamente, porque o “emprego bom” que a pessoa mantém por inércia frequentemente se torna a barreira principal que impede o próximo passo profissional dela. E terceiro, ela está errada culturalmente, porque a ideia de que emprego bom é sinônimo de sorte que deve ser aproveitada até o fim é uma herança de contexto econômico brasileiro de escassez que já não descreve mais o mercado atual para profissional qualificado.


O clichê é o seguinte. Emprego bom é raro. Se você tem um, aproveite. Não fique reclamando de detalhe. Muita gente daria tudo para estar no seu lugar. Você tem estabilidade, tem salário decente, tem benefício, tem gente boa para trabalhar, tem função respeitada. Sair é loucura. Ficar é responsabilidade.

Cada uma dessas frases isoladamente tem verdade parcial. Combinadas, elas produzem um efeito prisional específico que os pesquisadores em economia comportamental chamam de “loss aversion trap,” ou armadilha de aversão à perda. A ideia é que o cérebro humano superestima o valor de ativos que já possui e subestima o valor de ativos potenciais que ainda não possui, em uma proporção conhecida de aproximadamente 2:1. Ou seja, você percebe o emprego atual como duas vezes mais valioso do que ele de fato é, e o emprego potencial como metade do valor concreto dele.

Esse viés cognitivo, mapeado por Daniel Kahneman e Amos Tversky nos anos 1970 e refinado nas décadas seguintes, opera abaixo do nível da consciência, e ele explica por que profissional inteligente permanece anos além do ponto ideal em emprego que a experiência subjetiva já sinaliza como esgotado.

A intervenção contra o viés não é sentimentalismo, é frio cálculo. É reconhecer que o viés existe, corrigir mentalmente a distorção e reavaliar o emprego atual utilizando critérios objetivos, não a inércia perceptual acumulada por anos.


Vamos nomear os cinco sinais técnicos que indicam que você passou do ponto ideal, porque eles são reconhecíveis se você presta atenção.

Você para de aprender.

Não estou abordando aprender coisa nova quando cai algum projeto atípico. Estou falando de aprendizado contínuo em taxa perceptível. Se você olha para a lista de coisas que aprendeu nos últimos 12 meses no trabalho atual e a lista é curta ou repetitiva, isso é sinal. Curva de aprendizado platôada é sinal técnico de que você extraiu o valor formativo do posto, e continuar reduz retorno em termos de crescimento profissional.

A conversa do escritório fica previsível.

Você sabe exatamente o que cada pessoa vai dizer em cada reunião, você sabe o resultado de cada discussão política interna antes dela acontecer, você sabe quem vai defender qual posição em cada decisão. Isso é sinal de que você mapeou o sistema social interno completamente, e continuar dá pouco retorno de informação nova. Sistema mapeado por completo é sistema em que você já não está aprendendo sobre relações humanas complexas, o que é uma das principais dimensões de aprendizado profissional.

Você começa a sentir sono na segunda-feira antes da semana começar.

Não é cansaço comum, é sono existencial. É o sono do corpo dizendo que os próximos cinco dias serão idênticos aos anteriores, sem variação suficiente para energizar. Corpo humano é bom em sinalizar quando ambiente cognitivo se tornou pobre demais, e sono existencial persistente na segunda-feira é sinal robusto disso.

Seu currículo não é atualizado há mais de dois anos.

Não atualiza porque não tem novidade profissional real para adicionar. Você continua tendo a mesma função, o mesmo escopo, o mesmo tipo de projeto. Vale conferir. Se o currículo estagnou por dois anos ou mais, o cargo estagnou também. E cargo estagnado é cargo onde o valor formativo dele já foi extraído.

Você fica ansiosa quando pensa em outros empregos, mas não fica curiosa.

Ansiedade é reação de defesa contra ameaça. Curiosidade é abertura para a possibilidade. Se pensar em possibilidade profissional externa te produz ansiedade (medo, vertigem, sensação de risco), sem produzir curiosidade (interesse específico, vontade de investigar, energia), você está preso em modo defensivo. Modo defensivo é sinal de que a permanência tornou-se instintiva, não escolhida.

Os cinco sinais combinados descrevem um estado em que um emprego bom já não está sendo bom para você, e ele começou a virar barreira em vez de plataforma.


Alguém pode dizer: mas tenho responsabilidade financeira, tenho filho, tenho aluguel, tenho previsão para a faculdade, tenho família dependente. Sair de emprego seguro para o desconhecido é irresponsável quando existe dependente material.

A resposta é técnica. Sair não significa sair sem paraquedas. Sair significa iniciar um processo estruturado de transição que pode durar de 12 a 24 meses. Nesse processo, você mantém o emprego atual, mas começa a pesquisar o mercado externo sistematicamente, começa a conversar com profissionais em outras empresas ou setores, começa a atualizar a competência específica, começa a construir a próxima posição enquanto ainda ocupa a atual. Quando a próxima posição está pronta, você troca.

Ou seja, o que este texto argumenta contra não é “sair de emprego bom impulsivamente.” É “permanecer em emprego bom sem plano de transição, até que os cinco sinais estejam presentes há tanto tempo que a saída se torna emergencial.”

Saída emergencial é a que produz decisão ruim, porque ela é feita sob pressão, sem preparação, sem otimização. Saída planejada é a que produz decisão boa. E a diferença entre uma e outra é reconhecer os sinais cedo e começar o processo cedo.


Emprego bom mantido além do ponto de utilidade formativa não é responsabilidade profissional, é armadilha cognitiva com custo cumulativo mensurável.

Uma pesquisa longitudinal em desenvolvimento de carreira feminina, conduzida por Herminia Ibarra no INSEAD entre 2005 e 2020, mostrou que mulheres que permaneceram em emprego bom além do ponto de utilidade formativa tinham, dez anos depois, salário médio 34% menor que mulheres com trajetória equivalente que trocaram no momento certo. A diferença não vem de trocar por trocar. Vem de trocar no momento certo, com preparação certa, para a próxima posição de valor formativo maior.

Além da diferença salarial, a pesquisa evidenciou que mulheres que permaneceram além do ponto tinham autoestima profissional significativamente menor aos 45 e 50 anos, mesmo tendo continuado no emprego considerado bom. O motivo é que a autoestima profissional depende da sensação de crescimento contínuo, e o emprego platô suspende essa sensação.

Ou seja, o custo da permanência não é só financeiro, é psíquico. E o custo psíquico é frequentemente o que quebra primeiro, produzindo aos 50 anos uma sensação de estagnação que não vem só da idade, vem da acumulação de 15, 20 anos em posto que já não formava mais.


Como iniciar o processo estruturado de transição, na prática, uma vez que você reconhece os cinco sinais.

Nomear o momento para si mesma.

Não para a chefia, não para a colega, não para a família. Só para você. Escrever numa página que “os cinco sinais estão presentes, e vou iniciar processo de transição estruturado, com prazo de 18 meses.” Nomear é o primeiro passo, e ele muda a experiência dos meses seguintes.

Mapear três alternativas plausíveis nos próximos três meses.

Não há a alternativa perfeita, há três alternativas plausíveis. Podem ser: outra empresa em função similar, mas contexto diferente, empresa em setor adjacente com aproveitamento de competência transferível, ou início de negócio próprio em nicho específico. Três alternativas concretas suficientes para pesquisar.

Conversar com dois profissionais em cada uma dessas alternativas.

Marca café, marca conversa por vídeo, marca almoço. Um total de seis conversas ao longo de dois meses. Pergunta como é o trabalho deles, como foi a transição para o posto atual, o que eles fariam diferente. Escuta sem decidir nada.

Identificar competências que precisam ser desenvolvidas para a alternativa mais plausível.

Fazer lista. Fazer lista. Se a melhor opção é X, que habilidades você precisa aprender nos próximos dias para fazer a mudança dar certo? Se a melhor opção é X, que habilidades você precisa aprender nos próximos dias para fazer a mudança dar certo? O que você quer saber sobre o curso? O que você quer saber sobre o curso? Certificado? Certificado? Portfólio é um conjunto de trabalhos ou projetos que alguém fez. Ele mostra as habilidades e a experiência da pessoa em uma área específica. As pessoas podem utilizar um portfólio para mostrar seu trabalho a outras pessoas, como empregadores ou clientes. Portfólio é um conjunto de trabalhos ou projetos que alguém fez. Ele mostra as habilidades e a experiência da pessoa em uma área específica. As pessoas podem utilizar um portfólio para mostrar seu trabalho a outras pessoas, como empregadores ou clientes. Relação especial? Relação especial? Elaborar um plano. Elaborar um plano.

Iniciar movimentação nos próximos seis meses.

Curso concreto, conversas concretas, projeto paralelo concreto, atualização de currículo concreta. Continua no emprego atual, sem drama, sem sinal externo. Mas o processo está em movimento.

Aos 12 meses, avaliar se a próxima posição está pronta.

Se está pronta, transita. Se não está pronta, ajusta o plano e continua por mais seis meses. Aos 18 meses, deve estar pronta ou ter razão clara de por que não.


Nos primeiros seis meses do processo, é comum a mulher sentir alívio significativo, porque nomear a decisão descongela a inércia. Sensação de “estou fazendo alguma coisa” reduz a ansiedade acumulada por meses ou anos anteriores. Essa fase é fácil.

Nos meses sete a doze, aparece uma resistência interna a executar. A mulher começa a inventar razões para adiar o curso, adiar a conversa, adiar o movimento. Isso é reação do sistema psíquico à mudança concreta que se aproxima, e é normal. Vale reconhecer a resistência como sinal de proximidade da mudança, não como sinal de que a decisão foi errada.

Nos meses doze a dezoito, começa a fase de execução real. Nessa fase, a mulher frequentemente descobre que a próxima posição é diferente do que ela imaginava, e a plasticidade do plano é importante. Não se trata de executar exatamente o plano original, mas de continuar em movimento até chegar a uma posição que ofereça valor formativo renovado.


Voltando ao clichê contra o qual este texto argumentou. “Emprego bom deve ser mantido pelo fato de ser bom” é frase funcionando em contexto econômico de escassez extrema, quando emprego bom era genuinamente raro e alternativa era pior. Não descreve o mercado brasileiro atual para profissionais qualificados, especialmente femininos, especialmente entre 30 e 50 anos.

O que descreve o mercado atual é o seguinte: emprego bom é ferramenta formativa temporária. Ele oferece valor durante o período em que forma. Depois desse período, ele vira barreira. Reconhecer quando o período terminou é a habilidade profissional mais importante da carreira madura, e ela não é ensinada em nenhuma faculdade brasileira.

É uma boa ideia cultivar essa habilidade. É importante admitir que deixar um emprego bacana no momento adequado, com a bagagem certa, é a escolha mais prudente da carreira, e não a mais ousada. A inversão, esperar passivamente até que a fuga se transforme em crise, é o perigo palpável que a maioria evita mencionar.

Clarense


Referências: Daniel Kahneman e Amos Tversky (Thinking Fast and Slow, prospect theory), Herminia Ibarra (INSEAD, Working Identity), Whitney Johnson (Disrupt Yourself), Cal Newport (So Good They Can't Ignore You), Adam Grant (Give and Take), Angela Duckworth (Grit, mas utilizada aqui de forma crítica), Reid Hoffman (The Startup of You).

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