A justificativa para a formação romântica das filhas da burguesia europeia do século XIX.

Entre 1830 e 1900, na Europa central, especialmente em famílias burguesas alemãs, inglesas e francesas de classe média alta, a formação de filha adolescente incluía como componente central e não-negociável a leitura estruturada de romance literário. Não em modo de entretenimento, mas em modo de formação sentimental deliberada, comparável em rigor à formação em música clássica ou em francês. A biblioteca familiar tinha lista específica de obras que a filha lia entre os 14 e os 22 anos, geralmente em ordem determinada, frequentemente em edições comentadas, e com conversas semanais em casa sobre o que estava sendo lido. Jane Austen, Charlotte Brontë, George Eliot, Elizabeth Gaskell, Théodore Fontane, Gustave Flaubert, Iván Turguéniev, Henry James, Edith Wharton, todos foram lidos por gerações de mulheres europeias em regime de formação, não de lazer.

Essa prática entrou em declínio entre 1920 e 1970, e desapareceu quase completamente entre 1980 e 2010, quando ler ficção passou a ser considerado atividade de tempo livre em modo indistinguível de ver série ou ouvir podcast. A perda dessa prática produziu, ao longo de três gerações, mudança específica na formação sentimental feminina que raramente é discutida com precisão. Este texto é sobre essa mudança. Sobre por que ler ficção literária em modo estruturado produz efeito psíquico específico que é distinto de qualquer outro tipo de consumo cultural. Sobre o dado neurológico contemporâneo que confirma o que a burguesia europeia intuía. E sobre por que retomar essa prática aos 30 anos, mesmo tarde, produz mudança psíquica mensurável.


Por que a burguesia europeia do século 19 investia esse tempo específico com filha adolescente em leitura de romance, em vez de investir em atividades aparentemente mais úteis? A resposta que Anna Karp documentou em pesquisa histórica sobre educação feminina burguesa é a seguinte.

A geração que educou as filhas nesse período observara, ao longo de duas ou três gerações anteriores, que mulheres que leram romance literário em modo estruturado durante a adolescência apresentavam capacidade específica em modo consistente. Elas tomavam decisões amorosas em modo mais deliberado, reconheciam padrões psíquicos em relacionamento com mais precisão, identificavam sinais de manipulação com mais rapidez, escolhiam parceiros em modo mais bem calibrado, suportavam crise emocional com mais estrutura, articulavam conflito familiar com mais precisão verbal.

Essas capacidades não vinham de nenhuma outra formação. Não vinham de música, nem de línguas, nem de matemática, nem de instrução religiosa. Elas pareciam vir especificamente do trabalho psíquico que a leitura de romance literário produzia ao longo dos anos formativos. E a burguesia europeia, em modo pragmático e não especialmente sentimental, investia na prática porque ela produzia mulheres que faziam decisões adultas melhores em áreas que importavam para a estabilidade familiar de longo prazo.

Essa observação empírica anterior à ciência foi confirmada quase 150 anos depois por pesquisa contemporânea.


O estudo conduzido por David Comer Kidd e Emanuele Castano na Universidade de Yale, que se estendeu de 2011 a 2016 e ganhou destaque na revista Science em 2013, foi repetido em pelo menos oito investigações separadas nesse período de dez anos. Os resultados evidenciaram que mergulhar na leitura de ficção refinada oferece um impulso instantâneo e notável na capacidade chamada “teoria da mente” — aquela habilidade mágica de decifrar, prever e compreender o que passa na cabeça dos outros.

O procedimento realizado foi o seguinte. Participantes foram divididos em quatro grupos. Grupo A leu excerto de ficção literária de qualidade (Chekhov, Alice Munro, Don DeLillo). Grupo B leu excerto de ficção popular de qualidade (bestseller comercial padrão). Grupo C leu excerto de não-ficção (jornalismo científico). Grupo D não leu nada. Imediatamente depois, todos os quatro grupos fizeram bateria padronizada de testes de reconhecimento emocional em fotos de rostos, previsão de estado mental em cenários sociais e interpretação de intenção em textos ambíguos.

Resultado. Grupo A (ficção literária) mostrou desempenho significativamente superior aos outros três em todos os testes. Grupo B (ficção popular) mostrou desempenho similar ao do grupo D (não leu nada). Grupo C (não-ficção) mostrou apresentação similar à do grupo D também.

Ou seja, ficção literária de qualidade produz efeito específico em capacidade de leitura psíquica de outras pessoas, e esse efeito não é produzido por leitura de ficção popular, nem por leitura de não-ficção informativa, nem por controle passivo. O efeito é específico da literatura de qualidade, e é imediato e mensurável.

Estudos de acompanhamento mostraram que o efeito é cumulativo em pessoas que leem ficção literária regularmente ao longo de anos. Aos 45 anos, a pessoa que leu ficção literária em modo regular durante 20 anos apresenta diferença mensurável de capacidade de leitura psíquica comparada à pessoa que consumiu apenas ficção popular ou apenas não-ficção pelo mesmo período. Essa diferença é da ordem de magnitude comparável a diferenças produzidas por formação avançada em psicologia clínica.

A burguesia europeia do século 19 estava certa. Ler romance literário durante os anos formativos produz mulher com capacidade psíquica específica que outros tipos de formação não produzem. Essa é a base empírica da prática, e ela é robusta.


Ler ficção literária como entretenimento significa consumir romance em modo semelhante ao consumo de série ou podcast. Você pega o livro, lê no fim de semana, vira as páginas em ritmo mais ou menos rápido, guarda impressão geral e continua. Esse modo de leitura produz algum efeito, mas ele é pequeno em comparação com o efeito do modo estruturado.

Ler como formação estruturada envolve seis componentes que a burguesia europeia do século 19 aplicava e que continuam sendo válidos hoje.

Seleção deliberada em vez de escolha impulsiva.

Você lê o que a lista da tradição indica, na ordem que a tradição sugere, não o que apareceu na livraria essa semana. Isso significa começar com autores que a história literária consolidou como fundamentais (Jane Austen, George Eliot, Henry James, Virginia Woolf, Tolstói, Chekhov, Alice Munro), e não pular para o bestseller da semana.

Ritmo lento e releitura de trechos.

Você lê no ritmo do texto, não no ritmo do calendário. Passagens densas são relidas duas ou três vezes. Anotações são feitas na margem. Sublinha frases. Volta ao capítulo anterior quando algo faz clique retrospectivo.

Escrita paralela sobre a leitura.

Você tem um caderno de leitura em que anota impressões, hipóteses sobre personagens, conexões com a própria vida, dúvidas. Não em modo acadêmico obrigatório. Em modo de diálogo entre você e o texto ao longo dos meses.

Conversa qualificada sobre o que está sendo lido.

Você tem uma ou duas pessoas com quem conversa em modo substantivo sobre o livro. Amiga que também lê, grupo de leitura pequeno com 4 ou 6 pessoas, mentora que sugere próximos livros. Conversa qualificada consolida o que a leitura sozinha produz em modo parcial.

Relacionamento temporal com o texto.

Um bom romance literário exige 4 a 8 semanas de convivência regular. Você lê 15 a 30 páginas por dia durante várias semanas, não 200 páginas num fim de semana. A permanência longa em um mesmo universo ficcional produz efeito psíquico diferente do consumo rápido.

Releitura ao longo dos anos.

Livros importantes são relidos aos 30, aos 40, aos 50. A releitura produz camadas novas de significado porque você chega em fase diferente da vida, e o texto revela dimensões que na primeira leitura estavam invisíveis. A tradição burguesa europeia assumia que Guerra e Paz aos 22 anos e Guerra e Paz aos 45 anos eram experiências diferentes que valiam ambas.

Os seis componentes combinados produzem prática de leitura estruturada que é qualitativamente diferente do consumo de ficção como entretenimento, e que produz efeitos psíquicos correspondentemente diferentes.


Ler ficção literária em modo estruturado é formação sentimental deliberada com efeito neurológico mensurável, distinto de consumo de ficção como entretenimento. Retomar a prática aos 30 anos, mesmo tarde, produz mudança psíquica cumulativa em prazo de anos.

Indicação de 12 obras literárias para um período de dois anos de leitura sistemática, com um título a cada dois meses, selecionados com base na mescla de fácil compreensão e profundo impacto emocional.

Ano um. Jane Austen (Emma ou Persuasão), Charlotte Brontë (Jane Eyre), George Eliot (Middlemarch), Henry James (Retrato de uma Senhora), Virginia Woolf (A Sra. Dalloway), Elena Ferrante (A Amiga Genial).

Ano dois. Tolstói (Ana Karênina), Chekhov (contos, edição Companhia das Letras), Alice Munro (Fugitiva ou Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento), Marguerite Duras (O Amante), Rachel Cusk (Esboço), Sally Rooney (Pessoas Normais ou Onde Você Está, Mundo Belo).

Se você tem dificuldade com algum título, deixe para depois em vez de forçar. Alguns livros solicitam fase específica da vida para funcionar. Se você lê um e não consegue engatar após 80 páginas, deixa para outro momento, escolhe outro da lista. O objetivo não é acabar a lista, é entrar em prática regular.


Você lê 15 páginas por noite durante uma semana e sente que “não está acontecendo nada”. Isso é normal. O efeito psíquico da leitura estruturada é cumulativo em prazo de meses, não em prazo de sessão isolada.

Frequentemente, o efeito começa a aparecer entre a semana 4 e a semana 8. Você percebe que está reconhecendo padrão psíquico em conversa cotidiana com mais precisão. Que está prevendo comportamento de conhecidos com mais acerto. Que está articulando ambiguidade emocional própria com mais clareza. Essas mudanças pequenas se acumulam de modo mensurável ao longo de 12 a 18 meses de prática regular.

E, aos 5 anos de prática, a diferença é significativa. Mulher que passou 5 anos lendo ficção literária em modo estruturado, mesmo começando aos 32 anos, apresenta capacidade psíquica em áreas de leitura de intenção, previsão de comportamento e articulação emocional, que ela não teria adquirido de nenhuma outra forma acessível.

A burguesia europeia do século 19 tinha razão sobre isso. E o dado neurológico contemporâneo confirma. Retomar a prática de leitura estruturada é uma das formações adultas mais subestimadas disponíveis, e ela é acessível a qualquer mulher em qualquer fase da vida, com apenas o custo do tempo regular e da seleção deliberada.

Clarense


Referências: David Comer Kidd e Emanuele Castano (Yale, “Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind”, Science, 2013), Anna Karp (pesquisa histórica em educação feminina burguesa europeia, século 19), Raymond Mar (York University, pesquisa em ficção e cognição social), Keith Oatley (Such Stuff as Dreams: The Psychology of Fiction), James Wood (How Fiction Works), Rebecca Mead (My Life in Middlemarch).

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