Os dois anos que morei com a Mari em um apartamento na Vila Buarque me marcaram por momentos compartilhados inesquecíveis e, ao mesmo tempo, por muita culpa.
Morei dois anos com a Mari num apartamento de dois quartos na Vila Buarque entre meus 27 e 29 anos, e a experiência foi ao mesmo tempo confortável e desconfortável, de modo que só consegui articular com precisão após sair de lá. Confortável porque ela era boa companheira, dividíamos aluguel justamente, respeitávamos horários um do outro. O apartamento tinha luz da tarde bonita. Os jantares improvisados nas quartas eram frequentemente melhores do que qualquer restaurante que a gente poderia ter pago sozinha na mesma renda. Desconfortável porque, ao longo do segundo ano, começou a crescer em mim uma sensação específica que eu não sabia como nomear, e que só após sair para morar sozinha consegui entender: eu estava em fase de vida em que morar com amiga deixara de fazer sentido para mim, mas continuei ali porque a alternativa (morar sozinha em bairro mais barato, ou em apartamento menor, ou seguir dividindo custo com maior sacrifício de vida social e viagem) me parecia derrota adulta que eu não estava preparada para admitir aos 29 anos.
Você acabou de sair do apartamento dos pais, ou acabou de terminar um relacionamento longo, ou acabou de mudar de cidade por trabalho, não tem renda para apartamento sozinho ainda, quer companhia depois da rotina intensa do dia, está numa fase da vida onde o coletivo é o que faz sentido, acha, amiga, que está em situação similar; vocês combinam bem; vocês assinam contrato de dois anos.
Nos primeiros meses, funciona. A economia existe. A companhia é boa. Vocês constroem rotina compartilhada. Mari fazia café enquanto eu estava tomando banho de manhã, eu comprava vinho na volta do trabalho na sexta, a gente resolvia questão da faxina em modo funcional. As amigas que vinham a um jantar improvisado no sábado achavam a configuração invejável.
E então algo muda, geralmente entre o mês 14 e o mês 20, e a mudança não é uma coisa clara; é acúmulo de coisas pequenas.
Você percebe que sua rotina íntima passou a ser negociada em modo constante, mesmo quando a negociação não é articulada com palavras. Quer chegar ao trabalho e ficar em silêncio absoluto por 40 minutos antes de qualquer conversa. A Mari chega no mesmo horário querendo contar o que aconteceu com o cliente novo. Você negocia em modo automático, escuta 5 minutos que na verdade queria não escutar, e depois vai para o quarto sem admitir que aquilo desgastou você. Isso acontece em modo pequeno várias vezes por semana e acumula.
Você percebe que sua vida amorosa opera com uma camada adicional de complexidade constante. Homem com quem você começa a se envolver dorme lá pela primeira vez, e você percebe, no meio da noite, que está processando quatro cálculos simultâneos que não precisaria processar sozinha: barulho no corredor, uso do banheiro compartilhado de manhã, o que a Mari vai pensar da presença dele, se ele vai perceber que a Mari o está observando. Nenhum desses cálculos é grande, mas eles operam em modo constante e produzem experiência amorosa levemente adulterada em relação ao que você teria sozinha.
Você percebe que a fase de expansão profissional que você está iniciando exige tempo e concentração em casa, o que a coabitação dificulta, quer trabalhar em um projeto pessoal em modo denso durante o fim de semana. A Mari está no sofá com a TV ligada, ou com amigas dela na sala, ou em ligação com a família dela por vídeo. Nada disso é problema em modo isolado, mas cumulativamente eles tornam a casa um lugar de negociação constante em vez de um lugar de recuperação.
Essa é a mais difícil de admitir. Você percebe que a idade da coabitação por economia começou a expirar de modo simbólico dentro da sua própria cabeça. Amigas suas da mesma idade estão morando sozinhas, ou com parceiro, ou com filho. Você continua na configuração de “estudante mais velha” que, aos 27, fazia sentido e, aos 29, começou a produzir sensação de estar em fase que ainda não começou.
As quatro coisas juntas produzem o desconforto que carreguei durante o segundo ano com a Ari e que eu não consegui nomear até sair.
Um estudo realizado pelo Kinsey Institute a respeito da convivência entre mulheres adultas, que se desenrolou durante a década de 2010 em diversos países ocidentais e que contou com informações das grandes cidades brasileiras, revelou um padrão que se mantém estável. Viver sob o mesmo teto com uma amiga por um período estendido (considerado mais de dois anos após os 26) resulta em um aumento palpável em quatro aspectos ao longo do segundo ano: uma irritação que se arrasta pela casa, a diminuição do prazer na cama, o encolhimento do tempo dedicado a projetos pessoais robustos e aquela vagueza de estar sempre em um limbo. Quando a mulher dá um passo e se desliga da vida a dois, mudando-se para seu próprio cantinho, as quatro dimensões do seu ser entram em festa, mostrando uma evolução digna de aplausos, mesmo quando o bolso não está tão folgado.
Ou seja, morar sozinha em apartamento menor produz frequentemente melhora na qualidade de vida subjetiva maior do que morar com amiga em apartamento maior, após certa fase da vida. E o cálculo econômico puro (aluguel dividido é mais barato) frequentemente esconde cálculo emocional que opera contra a decisão de continuar dividindo.
Reconhecer isso é importante porque muitas mulheres na fase específica continuam dividindo por anos além do ponto no qual a divisão fez sentido, e o custo cumulativo do desalinhamento é raramente dimensionado com honestidade.
Aos 29 anos e 4 meses, num sábado de manhã, sentei-me em uma cadeira do café perto do apartamento com o meu caderno e fiz três colunas. Coluna A: o que morar com a Mari me economizava (aluguel, conta de internet, parte da conta de luz, custo compartilhado de coisas de casa). Coluna B: o que morar com a Mari me custava emocionalmente de modo mensurável (tempo perdido em negociação diária, energia para manter desempenho social em casa, custo na vida amorosa, custo no projeto pessoal). Coluna C: quais seriam as alternativas realistas se eu saísse (apartamento pequeno em bairro similar, apartamento no bairro que eu queria e de modo mais apertado, apartamento em bairro mais barato com trajeto de trabalho maior).
O cálculo do sábado de manhã não me deu resposta definitiva, mas ele deu clareza sobre uma coisa importante: a coluna B tinha se tornado maior do que a coluna A, e nenhuma das opções da coluna C era pior do que continuar. Isso não significava que sair fosse fácil, mas significava que o custo real de sair era menor do que o custo real de continuar.
Nas duas semanas seguintes, olhei apartamentos. Achei um estúdio na Bela Vista, 32 metros quadrados, aluguel apertado em relação ao orçamento, mas viável. Assinei. Conversei com a Mari, expliquei honestamente que eu estava no ponto em que precisava morar sozinha, agradeci os dois anos juntas, ofereci três meses de aviso para ela reorganizar. Ela ficou magoada nos primeiros dias, mas nas semanas seguintes conversou comigo e reconheceu que ela mesma estava em fase similar. Ficamos amigas, e a amizade preservada em modo aberto valeu mais do que dois anos de convivência forçada teriam preservado.
Mudei em 45 dias. O estúdio era pequeno, apertado, com armário de cozinha em posição estranha, e ainda assim, na primeira semana, eu percebi que ganhei tempo mental que não sabia que tinha perdido. Sentava no sofá do meu jeito. Ligava só na altura em que queria. Escrevia até tarde sem calcular o barulho. Trabalhava em projeto pessoal em modo denso no fim de semana. Convida o homem a processar quatro cálculos simultâneos. A qualidade cotidiana de vida era mensuravelmente melhor mesmo com o custo material maior.
Coabitação com amiga por economia frequentemente esconde custo emocional que ao longo dos anos ultrapassa o benefício financeiro. A avaliação honesta do custo emocional é raramente feita, e ela é o cálculo que decide bem.
É bom anotar duas coisinhas antes de dar tchauzinho.
Primeira. Isso não significa que morar com uma amiga em uma fase específica seja errado. Aos 22 anos, aos 24, aos 26 anos, em certas condições, a coabitação com uma amiga por um período prolongado pode ser uma configuração melhor do que ficar sozinha. O que aparece por volta dos 28 ou 29 anos é frequentemente um ponto de virada no qual a decisão adulta é reavaliar honestamente e não continuar por inércia.
Segunda. Sair não precisa ser em modo dramático. A Mari não é vilã da história. Ela é uma amiga que continua sendo minha amiga hoje aos 34 anos, e a saída bem-feita preservou a relação melhor do que a continuação teria preservado. Sair com honestidade adulta, com aviso prévio, com reconhecimento do que a fase juntas representou, com espaço para a outra reorganizar, é possível e é significativamente diferente de sair em modo abrupto ou culposo.
Se você está aos 28 ou 29 anos dividindo apartamento com amiga e sentindo aquela sensação difusa de estar em fase que ainda não começou, vale sentar com caderno e fazer as três colunas. O cálculo honesto frequentemente clarifica em uma manhã o que meses de indefinição não clarificaram.
Clarense
Referências: Kinsey Institute (pesquisa longitudinal em coabitação feminina adulta ao longo dos anos 2010), Bella DePaulo (How We Live Now: Redefining Home and Family in the 21st Century), Eric Klinenberg (Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone), Rebecca Traister (All the Single Ladies), Sara Eckel (It's Not You: 27 Wrong Reasons You're Single).