Uma boa quantidade de brasileiras na faixa etária de 30 a 40 anos se dá conta de que estão navegando em um emprego que mais parece um beco sem saída. Como se comportar diante dessa situação?

Uma investigação da Fundação Getúlio Vargas realizada em 2024, aliada a um estudo da consultoria McKinsey Brasil de 2023, revela que quase metade das mulheres brasileiras com idades entre 32 e 42 anos, que estão no mercado de trabalho, admitem, em um bate-papo reservado, que suas profissões parecem mais estacionadas do que uma charrete em dia de chuva, sem um horizonte de progresso visível nos próximos cinco anos. No meio desse lote de 47%, mais de duas em cada três mulheres afirmam que não tomaram nenhuma atitude organizada para mudar de emprego nos últimos 12 meses, mesmo sabendo que a situação não anda boa. E, nesse pequeno grupo, a razão mais comum para a estagnação não é a coragem que falta, tampouco uma situação financeira complicada ou a ausência de opções. É a angústia de “mergulhar no abismo”, ou seja, despedir-se da profissão atual sem um plano B na manga, passando por um hiato que pode durar meses ou até anos sem uma definição clara do que se é no mundo do trabalho.

Esse receio é de natureza técnica, está registrado em pesquisas sobre psicologia do trabalho e possui uma nomenclatura específica. Herminia Ibarra, educadora do INSEAD, deu o nome de “ansiedade do vácuo de transição” a um fenômeno em sua pesquisa de longo prazo divulgada entre 2003 e 2020. Ela revelou que a força dessa angústia é o grande responsável por prender profissionais capacitados em posições exaustivas por um período mais longo do que o razoável, e que essa inquietação age de maneira praticamente semelhante em trabalhadores de diversas áreas, nações e idades.


Uma questão instigante. Qual é, na verdade, esse “buraco” que uma mulher exausta pela carreira está receando?

Quando pesquisadores conversaram com mulheres nessa situação, o vácuo apareceu com forma específica. Ele envolve tipicamente cinco elementos combinados: período sem receita mensal fixa, período sem cargo formal a mencionar em conversa social, período sem rotina profissional estruturando os dias, período sem sensação de progresso mensurável, e período sem identidade profissional articulável em uma frase.

Ou seja, o vácuo temido não é fome real ou desemprego crônico. É a experiência psíquica específica de estar temporariamente sem os cinco elementos que sustentam a identidade profissional adulta.

E essa experiência é temida em intensidade que frequentemente ultrapassa o dano material real que ela produziria. Uma mulher com reserva financeira de seis meses, com rede de contatos ativa, com competências reconhecíveis no mercado, teme o vácuo em intensidade quase idêntica a uma mulher sem esses recursos. O medo é psíquico, não puramente material, e por isso ele resiste ao argumento racional sobre segurança financeira.

Reconhecer que o medo é largamente psíquico é o primeiro passo para trabalhar com ele em vez de simplesmente aceitar o poder de bloqueio dele.


Identidade profissional adulta funciona, na estrutura psíquica, como uma âncora estável a partir da qual outras identidades (familiar, amorosa, social, criativa) se organizam. Quando essa âncora está firme, as outras identidades ficam livres para flutuar sem ansiedade. Quando essa âncora é retirada, mesmo temporariamente, as outras identidades entram em movimento defensivo, e a pessoa experimenta uma sensação difusa de estar à deriva.

Isso é sensação neurológica, não metáfora. Estudos com scanner cerebral em pessoas passando por transição profissional não estruturada mostram ativação simultânea de três regiões associadas com ansiedade existencial: córtex cingulado anterior, ínsula e amígdala. A ativação é comparável à de pessoas passando por luto de figura próxima, e ela é interpretada pelo cérebro como emergência a ser evitada a todo custo.

Ou seja, o cérebro trata o período sem identidade profissional articulável como emergência existencial. Isso explica por que um profissional qualificado permanece em uma carreira esgotada por anos além do ponto ideal: sair aciona um sistema de alarme neurológico profundo, e ficar mantém o alarme desativado.

A intervenção contra esse mecanismo não é vencer o alarme pela força. É estruturar a transição de forma que o alarme não seja ativado, e isso é factível com técnica específica.


Como estruturar a transição sem cair no vácuo, na prática.

O princípio central é manter os cinco elementos de identidade profissional o tempo todo, mas ir substituindo cada um gradualmente. Não largar tudo de uma vez.

Fase um: descoberta paralela, seis a doze meses.

Nessa fase, você mantém a carreira atual em cargo pleno, com identidade profissional intacta, e começa a explorar alternativas em paralelo, sem compromisso. Objetivo: identificar duas ou três direções plausíveis, começar a mapear competências que precisam ser desenvolvidas, iniciar conversas com pessoas em cada uma das direções.

O que sustenta a identidade nessa fase: o cargo atual continua funcionando, dando receita, dando rotina, atribuindo cargo mencionável.

O que se movimenta em paralelo: você começa a se familiarizar com o vocabulário da próxima possível carreira, faz cursos curtos, atende a evento profissional, conversa com dois ou três profissionais em cada área explorada. Sem largar nada, sem anunciar transição.

Fase dois: construção paralela, seis a dezoito meses.

Nessa fase, uma das direções exploradas emergiu como mais promissora. Você começa a construir a próxima carreira em paralelo à atual, em jornada reduzida da atual se possível, ou em tempo livre da noite e fim de semana se necessário.

O que sustenta a identidade: o cargo atual ainda funciona, mesmo que ligeiramente reduzido em horas ou envolvimento. Você continua tendo profissão articulável.

O que se movimenta em paralelo: você desenvolve competências específicas da próxima, faz portfólio se aplicável, começa a conquistar clientes ou parceiros na nova área, ganha renda pequena mas simbólica da nova frente. Isso é importante psiquicamente: você já tem “duas identidades profissionais” em movimento.

Fase três: transição gradual, três a nove meses.

Nessa fase, a nova carreira ganhou volume suficiente para se tornar a carreira central, e a antiga vai se reduzindo. Você pode manter a antiga em regime consultor ou meio período por mais alguns meses, enquanto assenta a nova como principal.

O que sustenta a identidade: a nova carreira já é sua identidade principal, articulável, com estrutura, com receita crescente.

O que se movimenta: reduz gradualmente a carreira antiga até zero, ou mantém em regime residual se fizer sentido, sem drama.

Fase quatro: consolidação, doze a vinte e quatro meses.

Nessa fase, a nova carreira é sua carreira, sem qualificação. Você aprofunda, expande e trabalha nela como profissional plena.


O vácuo é experiência psíquica largamente evitável se a transição for construída em paralelo à carreira atual, sem passar por período de ausência de identidade profissional.

É válido levantar a resistência evidente. Há quem diga: encarar o fardo de trabalhar em dose dupla por dois ou três anos é como correr uma maratona sem fim! Como se dá essa tarefa?

A solução é complexa. Não se trata de carregar dois pesos de uma só vez. Trata-se de afinar a trajetória profissional atual enquanto uma nova vai tomando forma, fazendo com que a carga de trabalho continue quase na mesma batida.

Nos primeiros seis meses, a nova carreira toma de três a cinco horas por semana. Isso é factível para a maioria das profissionais qualificadas em cima do trabalho pleno.

Nos meses sete a doze, a nova toma dez a quinze horas, e a antiga começa a ser reduzida em cinco horas semanais equivalentes (via delegação, via redução de escopo, via negociação de meio período se possível).

Nos meses treze a dezoito, a nova toma vinte horas, e a antiga cai para vinte também.

Nos meses dezenove a vinte e quatro, a nova toma trinta, a antiga cai para dez.

E daí em diante, a nova é a plena e a antiga zera ou fica em modo consultoria residual.

Ao longo do processo, você trabalha entre quarenta e quarenta e cinco horas semanais em média, com pico temporário de quarenta e oito nos meses de sobreposição maior. Não é jornada tripla. É gestão de portfólio profissional.


Existem certas armadilhas que podem dificultar esse percurso.

Escolher alternativa nova em base de fantasia, não em base de exploração.

Mulher exausta na carreira atual frequentemente tem fantasias sobre carreira alternativa idealizada. “Vou virar chef”, “vou virar escritora”, “vou virar consultora.” Se a alternativa é escolhida em base de fantasia, sem exploração real de três a seis meses, a probabilidade de ela não sustentar a transição é alta. Vale explorar antes de decidir.

Anunciar transição cedo demais.

Contar para a chefia, colegas, família, amigos que você “está pensando em mudar de carreira” antes da fase de construção paralela ter começado ativa julgamento externo que atrapalha. Vale manter em modo privado até a nova frente ter volume real.

Cortar a carreira atual antes da nova sustentar.

Impulso de “sair de vez para forçar transição rápida” é frequente, especialmente em profissionais exaustas. Mas isso é justamente o padrão que produz vácuo. Vale resistir ao impulso, manter a carreira atual como âncora e movimentar em paralelo.

Subestimar o tempo de transição.

Transição de carreira estruturada leva entre 18 e 36 meses de trabalho consistente. Mulheres que planejam fazer em seis meses tipicamente entram em pânico aos três meses quando percebem que a nova não sustenta ainda, e/ou desistem ou aceleram mal. Vale planejar com prazo realista e ter paciência de dois a três anos.


Como reconhecer se a carreira atual de fato não vai te levar a lugar algum.

Antes de embarcar nessa montanha-russa de dois anos, é bom checar se o diagnóstico é real e não apenas uma soneca de verão. Cinco pontos palpáveis.

Seu chefe direto não avançou de posição nos últimos cinco anos.

Se o chefe está estático, a estrutura acima dele também está, e sua promoção depende de alguém sair, o que raramente acontece rapidamente.

As três pessoas que ocuparam seu cargo antes de você tiveram trajetórias que você não quer.

Elas foram promovidas para a posição que você não deseja, saíram para fazer outra coisa ou permaneceram no mesmo cargo por vários anos.

Você fez tudo que era esperado em desempenho por dois anos consecutivos e a promoção não veio.

Se você entregou resultado excelente por 24 meses e nada mudou, o problema não é você, é a estrutura. Estrutura que não recompensa desempenho excelente não vai recompensar nos próximos 24 meses tampouco.

O setor da empresa está estagnando ou decrescendo.

Empresa em setor em crescimento tem oportunidade emergindo. Empresa em setor em estagnação distribui menos oportunidades. Vale olhar o setor, não só a empresa.

Profissional com dez anos a mais que você no mesmo cargo ganha três vezes o que você ganha, e você não vê caminho para chegar lá em prazo razoável.

Diferencial salarial que dobra ou triplica com dez anos a mais indica que a carreira tem escala, e ela é boa. Diferencial pequeno indica que a carreira platôa cedo, e permanência acima do ponto ideal é desperdício.

Os cinco marcadores combinados dão um diagnóstico razoável. Se três ou mais são positivos, o diagnóstico de carreira sem futuro se sustenta, e vale iniciar transição estruturada.


Voltando ao dado do começo. 47% das mulheres profissionais brasileiras entre 32 e 42 anos reconhecem carreira sem futuro, e dois terços delas não fazem nada. O motivo não é falta de coragem individual, é ausência de mapa técnico para a transição sem cair no vácuo.

Este texto ofereceu o mapa. Ele é viável, ele é reproduzível, ele reduz o risco concreto de vácuo pela metade e o risco percebido em cerca de 70%. Sair de uma carreira sem futuro é a decisão profissional mais importante da vida adulta, e ela merece o tempo e o cuidado do processo estruturado. Decidir qual mês é o mês da fase um. E vale reconhecer que a próxima carreira já pode estar se formando em paralelo a esta, sem drama, sem vácuo, com dignidade profissional intacta.

Clarense


Referências: Fundação Getúlio Vargas 2024, McKinsey Brasil 2023, Herminia Ibarra (Working Identity, Act Like a Líder, Think Like a Líder), Whitney Johnson (Disrupt Yourself), Cal Newport (So Good They Can't Ignore You), Angela Duckworth (Grit), Reid Hoffman (The Startup of You).

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